Sobre a didática

1 novembro, 2009 at 01:02 (Uncategorized)

Então agora eu sou professor.

E fico lembrando de uma professora que eu tive.

Dessas que sentam na cadeira ao lado, e viram professoras só quando o vizinho não entende bulhufas de um assunto aleatório.

numeros

Era aquela chatice de conjuntos, matemática elementar. Quando o conjunto é fechado o último número está contido nele; quando, ao contrário, ele é aberto, o último número não participa.

Então eu não conseguia entender isso de jeito nenhum. Toda vez num colchete aberto/fechado era aquela confusão. Não havia lógica aristotélica que me fizesse ligar a participação do número com a abertura ou não do colchete.

E seguiria nesse infortúnio não fosse a didática fina da mestra, com carinho.

Ela pegou um lápis/caneta/corretivo/borracha, qualquer coisa em cima da mesa. Abraçou com a palma da mão ossuda (de colchetes), como se um número fosse, e disse:

– Fechado, o número participa. Suspenso no ar, aquele número-caneta realmente participava.

Abriu a mão, lançando o número-amante para longe de si, vencendo a inexorável atração que sua presença de ressaca exercia sobre tudo ao redor.

E sobre mim.

Então o número-borracha caiu. Do alto, a mão aberta da professora apreciava a tristeza melancólica da borracha. Ela concluiu:

– Aberto, não participa. Não participava mesmo, me convenci.

E foi com essa sutileza que eu aprendi a relação entre colchetes e números, essa dinâmica de conjuntos matemáticos.

Era uma manhã de fevereiro e talvez chovesse.

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Bolívia, jornalismo e galinhas.

3 outubro, 2009 at 05:12 (Uncategorized)

A Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, passa por um momento decisivo em sua história. Aclamado presidente pelas massas, o indígena Evo Morales vem provocando mudanças drásticas na política e na economia boliviana. A nova Constituição, aprovada no começo de 2009, prevê um Estado plurinacional que confere mais direitos às minorias étnicas pobres do que a classe média branca gostaria. As eleições, marcadas para dezembro próximo, prometem dividir o país entre opositores e correligionários de Morales, que tem apoio da população pobre e rural, maioria no país. De acordo com as pesquisas de intenção de voto, a vitória do índio é praticamente certa. Analistas temem que, perdidas as eleições na urna, a oposição articule uma medida para tirar o presidente na marra. Talvez um golpe, seguido de uma guerra civil, o que não seria incomum num país de intituições tão frágeis (vale lembrar que os dois último ex-moradores do Palácio Quemado, sede do governo boliviano, não terminaram seus mandatos).

A despeito de tudo isso, a notícia mais lida na versão online do jornal El Deber, de Santa Cruz de la Sierra (reduto da oposição) foi:

Una gallina puso un huevo gigante y murió


A reportagem conta a trágica história de uma penosa que veio a óbito após botar um ovo com o dobro do tamanho e do peso normais.

Nem vou falar sobre a lei do interesse público que, dizem, deve nortear o processo de escolha entre o que é e o que não é notícia.

O que mais me choca nessa história é que:

por último [o fazendeiro] aclaró que para el legado de Roberta [, a galinha,] no tiene mejores planes que hacerse un enorme omelette.

[grifo meu]


Ou seja, depois de dar a vida para lançar à luz um pedaço da sua prole, a galínácea (já em forma de espírito angelical, as penas, cortesia da vida terrena) ainda terá o desprazer de ver o legado de sua miséria tranformado em comida para humanos.

Durma-se com uma insensibilidade dessa.

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Falando no celular…

29 agosto, 2009 at 02:18 (Uncategorized)

Eu entrei no ônibus e o rapaz já tava falando. Olhando rápido, ele falava sozinho, um louco moderno de capuz e boné. Olhando um pouco mais, dava-se crédito à razão: se via um celular, desses pequenos, escondido entre a orelha e o cabelo. Falava com uma moça, escondida do outro lado da linha.

(Fala-se de linhas, apesar de os celulares, por imperativo de sua natureza, terem-nas aposentado há muito tempo).

Que era moça eu ainda não sabia, soube depois. No começo, era apenas um cara falando coisas ao telefone, coisas que é estranho a gente falar ao telefone, por exemplo: Vou abrir a janela que tá calor, peraí. Tá muito engarrafada a rua, pensei que o ônibus fosse cortar caminho. É, tá meio nublado, será que vai chover? etc.


ahn?

(Parênteses para quem é de outro planeta, tempo ou não usa celular: conversas intermediadas pelo dito aparelho obedecem a uma lógica diferente: a etiqueta pede que sejam curtas, sintéticas e precisas; banalidades, portanto, devem ser evitadas. A razão é que, quanto mais se fala, mais se paga, e em geral, não se paga pouco. Ver alguém debatendo o sexo dos anjos ao celular, em plena luz do dia, no banco de um coletivo, é uma sutil quebra de expectativa a que não estamos, terráqueos, acostumados)

Resolvi sentar logo atrás do cara de maneira a tentar perceber aquela conversa desinteressante. Como um diálogo de verdade, aquele alternava momentos em que o interlocutor daqui apenas assentia, e momentos em que ele tecia comentários sobre a vida, a que a interlocutora invisível provavelmente prestava sua anuência. Às vezes debatiam, discordavam, brigavam consigo pra não discutir com o outro. Um homem sentou ao lado dele, e ele baixou o tom de voz, como se a preservar sua intimidade. O homem saiu, e ele ficou mais à vontade. Esticou o braço sobre o banco e tudo. Tudo dava sono, até que aconteceu.

O cara tirou o telefone da orelha e olhou pela janela. Pareceu sorrir, embora a única parte do corpo dele que eu via – a nuca – não pudesse sinalizar com certeza. Falou baixo coisas que eu não entendi, ajeitou a camisa, abotoou o penúltimo botão perto da gola. Ficou em silêncio com o telefone em riste. A mulher finalmente chegou, cruzou a roleta, telefone numa mão, bolsa na outra, meio emperiquitada. Sentou perto do cara, ombro a ombro, ambos disseram tchau ao aparelho.

E passaram o resto da viagem em silêncio mudo.

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Alguma reflexão sobre relacionamentos (fechados ou abertos).

25 agosto, 2009 at 17:21 (Uncategorized)

Ana Maria ama Alexandre mais que tudo nessa vida. Eles se conheceram há muito tempo e têm certeza que querem ficar juntos por mais tempo ainda, quem sabe pra sempre. De repente, Ana Maria conheceu um cara que tinha uma moto, mais velho, mais bonito, cheio de sacadas inteligentes, de uma arrogância encantadora, em quase tudo diferente de Alexandre. Ana Maria continuou amando muito Alexandre, mas sentiu vontade de ser beijada pelo Cara da Moto, porque era ele quem fazia o coração dela querer sair pela boca, e suas pernas suarem. Como ela mantem um namoro convencional com o Alexandre, Ana Maria se viu numa encruzilhada.

Caminho à direita.

Ana Maria pode pegar o caminho à direita, que significa subir na garupa do Cara da Moto, abraçá-lo forte pela cintura, sentir aquele ventinho de aventura no rosto, viver, enfim, uma paixão sem prazo de validade, sem culpa ou remorso. Uma coisa que ela sempre quis, e que o Alexandre não pode dar, porque o Alexandre é diferente do Cara da Moto em quase tudo. É uma escolha legítima, que vai trazer, a curto prazo, grande felicidade à Ana Maria. E o Alexandre, que ama muito a Ana Maria, não pode se transformar num obstáculo à felicidade dela. Mas pegar o caminho da direita implica em deixar o Alexandre comendo poeira na encruzilhada.

Caminho à esquerda.

Ana Maria pode sufocar seus desejos pelo Cara da Moto, em nome de seu amor maior por Alexandre. Nesse caso, ela se convence que não ama o Motoqueiro como ama o Alexandre, e não valeria a pena trocar uma aventura passional pela possibilidade de nunca mais ter o cara da sua vida. É uma escolha legítima: Ana Maria estaria trocando uma felicidade de curto prazo com o Motoqueiro, pela estabilidade do amor Alexandrino, o homem que ela apresentou pra mãe, seu príncipe sobre o cavalo branco, o pai que ela quer pros seus filhos, etc. Esse caminho implica em mandar o Cara da Moto pastar em outras freguesias e Ana Maria ficar com uma pergunta insistente na cabeça: “como seria se fosse?”.

You can’t have your cake and eat it.

Já ficou claro que Ana Maria precisa colocar as pessoas e os sentimentos numa balança. A partir dessa medição de valores, tomar uma decisão que, automaticamente, exclui a possibilidade de ter a coisa oposta. Como diz um ditado inglês: você não pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. OU você tem o bolo, OU você o come. OU Alexandre, OU o Motoqueiro.

Existe, como sempre, o caminho do meio. A pior coisa que Ana Maria pode fazer é tomar o caminho do meio. Pelo caminho do meio, ela ignora o problema que há na existência mútua de Alexandre e do Motoqueiro em sua vida, e passa a ter o que cada um tem de melhor. Em palavras pobres, Ana Maria trairia o Alexandre com o Cara da Moto, teria a aventura de um e a estabilidade do outro ao mesmo tempo. Claro que o Alexandre não poderá saber disso e Ana Maria, se for uma pessoa boa, terá muita dificuldade em conviver com a própria consciência a partir de então.

O imperativo ético: contar a verdade a quem merece sabê-la.

Tomar o caminho da direita ou o da esquerda é uma decisão baseada num imperativo ético: Ana Maria ama Alexandre e se importa muito com os sentimentos dele, qualquer decisão que ela tomar levará em conta também o que ele, Alexandre, achará disso tudo. Como vivem numa relação a dois, o que os dois esperam é que tudo que afete a vida de ambos seja compartilhado. Portanto, se quiser ser justa, ser quiser manter a fidelidade que deve a Alexandre, Ana Maria precisa contar a ele tudo que anda acontecendo. Inclusive, o que ela sente pelo Cara da Moto. Por isso que tomar o caminho do meio, que implica em esconder a verdade do Alexandre, que ela respeita tanto, é a pior coisa a fazer (apesar de ser o caminho quea maioria, na situação de Ana Maria, resolve tomar). Vai ser duro para Alexandre ouvir que existe o Cara da Moto? Sem dúvida. Mas vai ser pior ainda ele não saber logo, da boca dela, e saber depois, e viver com a sensação de que Ana Maria, algum dia, o enganou. A confiança se esvai. E confiança não se conquista fácil de novo.

Fidelidade x Exclusividade.

Quando duas pessoas têm uma relação afetivo-amorosa de compromisso (evitarei o “namoro” da terminologia corrente, que me parece um tanto limitadora), elas fazem um pacto, um acordo tácito: as partes só podem se envolver amorosamente entre si. O envolvimento sexo-emocional com terceiros é considerado, portanto, traição a esse pacto. A meu ver, porém, existe outro acordo que precede o da monogamia: o da fidelidade, que não quer dizer, necessariamente, exclusividade. Ser fiel significa, antes de qualquer coisa, ser sincero com o outro: abrir o jogo sempre que um assunto, por mais espinhoso que seja, incomode. Se Ana Maria ama Alexandre, mas sente atração pelo Motoqueiro a ponto de o querer para si, será fiel se contar ao namorado sobre essa atração.

Uma relação afetivo-amorosa não vive sem fidelidade. A fidelidade pressupõe tudo aquilo que nós esperamos das pessoas que estão mais perto da gente: compromisso, preocupação, cuidado, sensibilidade. O pacto da fidelidade é imprescindível a qualquer relação: você não quer conviver com alguém que mente ou omite sentimentos e atitudes de você. O pacto da exclusividade, no entanto, pode ser negociado. Eu digo pode, consciente de todas as ressalvas e cuidados que esse verbo sinaliza. Pode, num mundo ideal e hipotético, em que as pessoas são melhores do que são nesse mundo real, de carne, osso e grilos. Ainda não conheci uma relação feliz sem a obersvância do pacto de exclusividade, nem sei se eu conseguiria viver numa coisa louca dessa. A não-exclusividade significa, basicamente, que seu parceiro pode se envolver com outras pessoas, e você também, desde que vocês sejam fiéis a ponto de contarem para o outro que isso acontece. (E que recebam a anuência do outro quanto a isso, obviamente)

Voltando ao nosso triângulo amoroso. Ana Maria pode escolher ficar com um OU com outro, desde que conte ao namorado tudo que está acontecendo. É direito dele saber. É direito dele ser sujeito do próprio sofrimento. Deixá-lo à margem é torná-lo agente passivo dos acontecimentos. É quebrar o necessário pacto da fidelidade, sem o qual, nenhuma relação é feliz.

A alternativa.

Também é legítimo da parte do Alexandre conceder à Ana Maria uma alternativa: se aventurar com o Motoqueiro (e quebrar o pacto da exclusividade) e, MESMO ASSIM, manter a relação com o Alexandre (já que, abrindo o jogo, ela não rompe o imprescindível pacto da fidelidade). Ou seja, Ana Maria teria os dois e saberia exatamente qual é o papel de cada um em sua vida. Eu acho isso muito, mas muito difícil de acontecer, mas é ainda uma opção, que eu considero bastante válida. Ana Maria viveria a aventura com o Motoqueiro sem perder de vista que o amor da vida dela é o Alexandre. E por que não? Há que se considerar essa alternativa. Muitas bobagens que só atrapalham a vida na Terra teriam, claro, que ser rediscutidas e elaboradas, como ciúmes, excesso de orgulho, baixa auto-estima, etc. E pra quê estamos aqui se não pra aprender a ser melhor?

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pseudo-literatura explícita, perdões.

23 agosto, 2009 at 04:04 (Uncategorized)

No espelho a superficie dura de uma tragédia. A mulher tentou se posicionar até perceber que a luz não era adequada, ajeitou a lâmpada em forma de pêra luminosa sobre os seus cabelos e passou a penteá-los com um pente alguns anos desdentado. Não eram tantos os cabelos, menos ainda a necessidade de se embelezar. O espelho era companheiro discreto: jamais revelaria o segredo que ela escondia. Passou uma, duas vezes, da raiz às pontas duplas, triplas, ressecadas, ressentidas. As sombras da mão ossuda, e dos dedos dela, arranhavam a parede, arranhavam a cortina e a porta do armário.

Aí ela largou o pente velho e pegou uma escovinha, no criado mudo que abriu a boca, mas permaneceu em silêncio confidente. Escovinha pequena, dessas de pentear boneca, pendurada pela pinça dos dedos, carinhou com cuidado aquele bigode espesso, cor de noite, com um ou outro fiozinho branco. Que ela, cuidadosamente e resignamente, escondeu por trás dos irmãos morenos. Esfregou uma, duas, três vezes, quantas fossem necessárias para deixar tudo em ordem. Faina finda, manuseou a lâmpada para ver melhor a obra: cabelos, bigodes, todos os pêlos do rosto em cuidadosa harmonia. Era uma mulher respeitável afinal.

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Comédia romântica é coisa séria.

17 agosto, 2009 at 03:52 (Uncategorized)


Sandra ameaçando Ryan de casamento.

Assisti à Proposta ao lado de uma mulher linda, inteligente, articulada, dona de dois estágios e uma monografia por fazer, que vai se formar com 21 anos e, aparentemente, não deve nada a ninguém. Antes disso, ela já tinha me dito que os afazeres acadêmicos desse último semestre a obrigavam a abandonar algumas outras atividades mais… lúdicas. O que, naturalmente, não a impediu de permanecer linda, inteligente e articulada.

Mais ou menos como a Sandra Bullock, protagonista da Proposta, cuja personagem apesar de linda, inteligente e articulada, não conseguia ter uma vida social, amigos, namorados, tampouco simpatia nem vontade de dar bom dia às pessoas que cruzavam seu caminho. Talvez por tudo isso, ela era chamada de vadia e megera pelos colegas de trabalho, seus subordinados.

Questão Tostines: ela era apupada pelos colegas pelo fato de ser mulher, chefe, rica e bem sucedida profisionalmente, ou simplesmente por ser arrogante? Não é exatamente uma questão Tostines, mas é a questão fundamental.


vende mais porque é fresquinho?

Porque tão dizendo por aí que A Proposta é misógino, que todos odeiam a Sandra Bullock porque ela é chefe E mulher, que é como se os roteiristas dissessem “olha, mulherada, quem quiser ascender profissionalmente e abdicar de maridos, filhos, lares e essas coisas todas tão femininas, vai acabar assim como a Sandra mal-amada e turrona, odiada por todos, sem vida pessoal e infeliz”. Quase como a história de ir ficar pra titia, versão moderna e workaholic.

Mas eu não sei. Passei o filme rindo demais de (quase) todas as piadas, porque entrei ali com a despretensiosa missão de me divertir, sabendo que não seria um filme que me ensinaria coisas sérias ou que me pudesse fazer tomar algum posicionamento. E saí leve, com a sensação de que nada tinha acontecido. Aí me vem a Lola Aronovich, feminista que eu respeito muito, dizer que fui alvo de uma caralhada de coisas machistas que eu nem percebi.

E eu acho que é MUITO, mas MUITO fácil nos ensinarem coisas feias e depreciativas sem a gente perceber. É assim que funciona com o racismo. Porque eu passei minha infância toda e parte da minha adolescência sendo alvo de pedagogia racista que eu SEQUER suspeitava que me atacava, mas atacava e deixou marcas profundas, inapagáveis talvez. Não vou ser bobo de achar que com o discurso machista é diferente. Deve ser negocinho silencioso e eficaz, que a gente nem percebe e acha graça, naturaliza.

Mas na verdade, desse filme especificamente, eu não posso falar muito. Não de possível misóginia do roteiro. A única coisa que realmente me incomodou foi o dançarino de strip-tease LATINO, sendo mote de piada simplesmente por EXISTIR, por ESTAR ALI, vivendo junto com os americanos normais, mostrando que numa sociedade anglo-saxã, um latino só serve mesmo pra fazer o papel do ridículo bobo da corte, o café-com-leite.

Eu acuso o filme disso, mas de misoginia não, até porque o estereótipo que a Sandra cumpre só é inaceitável pelos outros porque ela é arrogante, antipática, insensível, tudo de ruim. Não por ser rica, chefe E mulher. Foi a impressão que eu tive. (Não que ser rica, chefe E mulher, no mundo real machista, não seja motivo pra muitas serem odiadas, atacadas, vilipendiadas, covidadas a fazer sexo para resolver seus imagináveis problemas etc)

Eu só queria fechar o raciocínio dizendo que. Minha parceira de pipoca, para ficar ainda mais linda do que já deve ser, chegou 15 minutos atrasada ao cinema, porque ficou ajeitando o cabelo, escolhendo a melhor roupa, borrifando perfumes, se olhando no espelho, essas coisas que as mulheres fazem e os homens fazem ou dizem fazer menos porque foram ensinados. E, pra justificar o atraso (que nos custou um bom lugar na plateia), usou toda sua articulação pra sacar alguma piadinha inteligente sobre gênero, tempo e o corre-corre da modernidade. E eu fiquei feliz e satisfeito, e desfiz o bico de macho-alfa-contrariado que já se formava no meu rosto, por eu ter ficado 15 minutos esperando contra a minha vontade.

Ela também ficou feliz com o filme, e todos viveram felizes para sempre (até segunda ordem) como numa boa e genérica comédia romântica.

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Danilo Gentili, do CQC, explica que ser racista é legal.

6 agosto, 2009 at 05:48 (Uncategorized)

Só não façam piadas sobre idiotas que aí eu me ofendo.
Só não façam piadas sobre idiotas que aí eu me ofendo.

Danilo Gentili é descendente de italianos, branco, classe-média, famoso, profissionalmente bem sucedido. Ele provavelmente não teve oportunidade de ser vítima de preconceito, ao longo de sua vida. Por ser humorista, ele acha que o riso deve estar acima de qualquer coisa. O mesmo que acham os jornalistas da liberdade de expressão, os publicitários da de criação etc. Pra fazer rir, vale tudo. Até ser racista. Ele escreveu um texto ironizando a questão racial no Brasil, um assunto que eu, e tanta gente mais séria que ele, achamos fundamental. Pior: foi previsível, como geralmente são os racistas que bradam contra o que eles chamam de “patrulha do politicamente correto”. Porque agora, dizem os racistas, o legal é ser politicamente incorreto, falar o que quiser, ofender as minorias, fazer pouco dos oprimidos. Com as palavras, como se as palavras não machucassem, como se fossem inofensivas. Ora bolas, nós que lidamos com palavras, sabemos o poder que elas têm. Para o bem e para o mal. Já o Danilo Gentili acha que o humor dele é mais importante que tudo, que fazer piada sobre a condição do negro não é reproduzir o preconceito ancestral contra essas pessoas. É só ser engraçado. E ser engraçado é o que há. Porque se é piada, tá valendo, não é sério mesmo.

Lá no textinho, o humorista, além de demonstrar toda sua ingenuidade, desfila aqueles velhos argumentos que nós já estamos cansados de rebater:

1) que não existem raças, logo classificar as pessoas por raças é racismo
(e o incrível desdobramento disso: negros não deviam se ofender quando comparados a macacos).

Eu já disse isso. Biologicamente não existem raças. Socialmente, ou seja, no mundo real em que eu e vc vivemos, existem, e são classificadas em escalas hierárquicas, em que o negro está quase sempre subordinado ao branco. Ignorar essa hierarquia e essa desigualdade é justamente o que pretende o “racismo à brasileira”: se negar para se perpetuar. Somos todos humanos, dizem seus ideólogos, não existem raças, quem fala de raça, quem se entende parte de uma (no nosso caso, a negra) é racista. (diz Gentili: Se você me disser que é da raça negra preciso dizer que você tambem é racista) Esse discurso pretende tornar a questão da raça uma não-questão e botar a culpa do problema na vítima. E nós, que não gostamos de nos calar, somos vistos como  racistas, por sempre trazermos à tona esses problemas. Como hoje em dia é feio parecer racista, usa-se o humor para perpetuar a ideia de que, ora bolas, essa galera que fica aí acusando preconceito, se fazendo de vítima, reclamando de racismo, são eles os próprios racistas. Porque todo mundo sabe que chamar um negro de macaco é pejorativo, remetemo-nos ao tempo em que se negava condição humana ao negro, que assemelhavam-no a um “ser inferior”. Mas o Gentili não, quer pagar de legal, de politicamente incorreto, e fica fazendo piadinha dizendo que, SE FOSSE COM ELE, adoraria ser chamado de macaco. Mas, oi, não é com vc. Sorte sua. Você provavelmente não teve que lidar com problemas de auto-estima por causa da cor da sua pele, e de seus traços físicos. Problemas que não decorrem necessariamente da cor e dos traços em si, mas do julgamento que o mundo faz deles. Porque, alô, traços negróides tão num nível inferior na escala estética ocidental. São quase os mesmos traços do macaco, segundo o senso comum. E é muito daí que vem a comparação entre os negros e os símios. Ignorar isso é desonestidade intelectual, ou falta de intelecto, não sei o que é pior.

2) não há problema em chamar um preto de preto.

É feio se fazer de desentendido. É claro, óbvio e evidente que existe uma diferença abissal entre as palavras preto e negro. Uma rápida consulta à gramática mais próxima sobre sentidos conotativo e denotativo talvez resolva o problema. Preto foi, é, e pelo visto, sempre será usado num sentido pejorativo, em geral com vistas a ofender ou demonstrar uma valoração inferior ao que tá em volta da palavra. “Preto safado”, “coisa de preto”, “preto de merda” etc reforçam a ideia. Negro não, é mais neutro, não traz consigo a carga ofensiva que seu sinônimo carrega. Ora porra, não é um problema com as palavras em si, mas em como elas foram e são usadas ao longo da história. A escolha de preto ou negro nos diz muito sobre o sentido que o falante quis empregar no enunciado. E eu me sinto um idiota explicando isso a um brasileiro, a alguém que convive com essas palavras desde sempre, que sabe, com toda a clareza que elas são muito mamuito diferentes, que dizem coisas diferentes. E que não são apenas palavras, como piadas não são apenas piadas. Tudo isso tá carregado de conteúdo simbólico, muitas vezes preconceitos que, travestidos do riso e de “simples palavras” se reproduzem e não são questionados.

3) ser politicamente correto é ser imbecil e superficial.

E eu acho que devem ser questionados sim, evitados e combatidos. Eu acho que as palavras e atitudes nossas devem sim ser politicamente corretas. E por que não seriam? Pensar sobre as palavras que usamos e deixar de usá-las se não forem adequadas é louvável, é hábito que devemos cultivar. Se rimos da piada racista, homofóbica e discriminatória é porque carregamos em nós um pouco desse conteúdo nefasto. Conscientemente é difícil perceber isso, principalmente se fazemos parte do outro lado, dos que não sofrem com o preconceito na pele. E aí “politicamente correto” vira coisa de maluco, de gente preciosista que não tem nada o que fazer e fica enchendo o saco. Mas da feita que nos colocamos no lugar do outro, no lugar do ofendido, passamos a perceber a carga destruidora que uma simples piada pode ter na vida de alguém. Porque é feio ficar fazendo piadinha com o sofrimento alheio.

Por fim, a observação do seu Gentili no final do post racista:
Antes que diga “Não devemos fazer piadas com negros, nem com gordos, nem com gays, nem com ninguém” Te digo: “Pode colocar meu nome aí nas páginas brancas da sua lista negra, mas te acho chato pra caralho”.

Claro, porque fazer piada com negros, gordos e gays é só uma brincadeira inofensiva né? Quem não gosta disso é só “chato pra caralho”. Quem vive da reprodução do preconceito é que é legal, porque se furta ao debate e ainda fica repetindo asneiras em rede nacional e recebendo aplausos. Impunemente. Que tal perguntar pros negros, pros gordos e pros gays o que eles acham das piadas? Não né? Na plateia do circo nunca estão os parentes do elefante que se equilibra ridicularmente nas tábuas e esferas. Engraçados são os outros.

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O diploma morreu. Graças a Deus!

26 junho, 2009 at 21:40 (Uncategorized)

(com metonímia, o diploma pela obrigatoriedade)

Agora é em todo lugar que eu vou. As pessoas me olham solidárias como se eu tivesse recebido um soco no estômago. Porque eu mudei de curso, né, e agora é como se me tivessem passado uma rasteira. Esse negócio de diploma de novo. Desde que eu entrei no curso de Jornalismo pela primeira vez, em 2007, ouço essa chatice de diploma. E já naquela época não fazia sentido. Hoje menos ainda, claro. E eu fico chocado. Porque as pessoas que querem fazer Jornalismo e acham tão essencial receber um diploma no final do curso, já deveriam ter pesquisado sobre isso. Saberiam que a queda da obrigatoriedade já é assunto velho. Crônica de uma morte anunciada, como diria Gabo. Que não precisa de diploma pra ser bom.

Tem gente dizendo que agora qualquer mendigo poderá ser jornalista. Quem nos dera! Felizes seremos nós quando até os mendigos puderem ser jornalistas. Eu vejo isso como uma coisa boa, sabe. Porque quando todos os cidadãos tiverem a formação intelectual que esses jornalistas de diploma querem fazer parecer que têm, então seremos uma sociedade feliz. Infelizmente nem mendigos, nem camelôs poderão fazer jornalismo assim, sem mais nem menos. E a decisão do STF não desprivilegia, nem diz que jornalista não deve ter formação. Isso é o que os alarmistas querem que a gente pense. E são jornalistas, bem preparados, que estudam teoria, ética bla bla bla, os alarmistas. E são míopes. Não sei se sinceramente ou de propósito. Porque também são muito arrogantes, viu. Ficaram ofendidinhos em ser comparados a cozinheiros. Devem achar que jornalista é a última bolacha do pacote, coisa e tal. E agora estão com medo de competir com gente não-formada em comunicação. Dizem que é por pensar na sociedade, em como ela pode ser prejudicada por maus jornalistas e tal. Mas na verdade, na verdade mesmo, tem um pouco de corporativismo aí. Tão defendendo a reserva de mercado que a lei da ditadura criou. E não querem que os salários baixem. Porque eles consultaram a Mãe Dinah e viram que, selado, os salários vão baixar.

Não faz sentido, né. Porque esse negócio de obrigatoriedade de diploma nunca foi respeitado na prática. E ainda bem. Eu não consigo deixar de pensar. Que a obrigatoriedade só servia pra manter jornalista formado e medíocre no emprego. Porque o bom jornalista fazia o trabalho, mostrava que era bom e, só em último caso, mostrava o diploma. E aquela ong minúscula queria fazer um informativo pra comunidade e não queria contrariar a lei. Chamava um jornalista de aluguel só pra assinar o negócio. A ong fazia tudo, claro, entrevistava, escrevia, tirava fotos, digramava porcamente. O jornalista só recebia e assinava. Porque a lei idiota dizia: jornalista mesmo só com diploma.

O que eu acho mais incrível é alguém estar numa universidade e ficar dizendo que a universidade é essa maravilha toda. Que jornalista pra ser bom tem que passar pela universidade. Que a universidade é suficiente pra formar um bom jornalista. A verdade é que. Grandes merdas, a universidade. Fiz História numa universidade federal por dois anos. E vi com esses olhos aqui. Gente sendo aprovado sem conseguir escrever duas frases coerentes. Gente defendendo monografia sem pé nem cabeça. E recebendo regular, bom. Os excelentes só recebiam quem era bom mesmo. Mas R e B era pra todo mundo. Porque se os professores fossem rígidos, as turmas de colandos seriam de cinco, seis alunos. Por ano. Porque os professores não querem assinar o atestado da própria incompetência, né. E saem distribuindo atestado de competência incompetente pros outros. Os diplomas. Que agora todo mundo tá defendendo. Como se fosse o retrato ipsis litteris da formação do cara.

Eu falo de História. Mas em Comunicação não deve ser diferente. A julgar pela primeira prova. Colegas dizendo que não leram os textos, enrolaram, inventaram. E tiraram 8,5. O que é bom. A verdade é que a universidade não é condição suficiente pra ser jornalista competente. No máximo, ela possibilita essa boa formação. Mas não garante. É por isso que tá cheio de diplomado medíocre em todas as áreas. E também, não é condição necessária pra ser bom jornalista. Porque a ética do jornalista é a ética do cidadão. Quem disse foi o Eugênio Bucci. Que é formado na USP. Em Comunicação e Direito. Outros cursos de graduação ajudam o jornalista a ter a formação intelectual necessária.

Pra ilustrar tudo isso. Só dois exemplos. Sônia Abrão, que entrevistou ao vivo o seqüestrador da Eloá (a contribuiu para o desfecho trágico do caso), é formada na Cásper Líbero. Que é só a mais antiga escola de Jornalismo do país. E teve aula de ética. Mas deve ter gazetado. Já Lúcio Flávio Pinto, que é só o maior jornalista do Pará, nunca freqüentou a faculdade de Comunicação. Como aluno. Se formou em Ciências Sociais.

Mas isso é assunto pra outro texto. Como o modelo de universidade que usamos não funciona. O fato é que essa história de não obrigarem o jornalista a ter diploma, se não vai mudar nada, pode até ser bom. Porque agora a galera que faz Jornalismo pelo glamour da profissão (?), vai pensar mais cinco vezes antes de cometer esse crime contra si. E eu disse que. Quem tá pensando em desistir do curso por causa da decisão do STF, não deveria nem ter entrado. Que dê lugar a alguém que veja sentido em estudar Jornalismo. Principalmente nós. Que estamos usando o dinheiro de vocês pra estudar. A universidade pública não pode ser a fábrica de diploma que são algumas faculdades particulares. E nessas, o caso é ainda pior. Porque eu não sei o que elas ensinam que dois ou três meses em qualquer redação não ensinem melhor. Se o diferencial do curso público é a formação ética, humanística, a discussão teórica bla bla bla… e se isso não tem ou tem pouco na escola particular, eu não sei sinceramente qual a grande coisa do curso particular. Mas divago.

O que pessoal dos sindicatos, da fenaj, dos partidos não quer deixar os desavisados verem é que. Agora o diploma não é suficiente. E isso é lindo. Primeiro porque sempre foi assim, exceto quando algum bom samaritano respeitou uma lei que não fazia sentido. Segundo que. O jornalista vai ter que provar com o próprio trabalho que pode pegar o trabalho. Os diplomados medíocres vão ter que correr pra deixarem de ser medíocres. E as escolas vão ter que melhorar, né. Ou ninguém vai querer pagar 800 reais mensais pra aprender o que pode fazer sozinho.

Só pra constar: essa lenga-lenga de diploma não é, nem de longe, o grande problema da imprensa atualmente. O buraco é, claro, mais embaixo. Pela decisão do STF, não há motivo pra pânico, pra acusar golpe, pra entrar de luto, pra ficar de mimimi reclamando em como somos vítimas do sistema. Isso e aquilo. A gente tem é que se preparar pra notícia que nenhum jornal vai dar: a morte do jornal como o conhecemos. Quem falou muito bem dela foi o Rafael Galvão.Que alíás é publicitário. E deixou muito jornalista diplomado comendo poeira.

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Quando não se sabe articular palavras, articulam-se os músculos.

3 junho, 2009 at 06:38 (Uncategorized)

Professor de jonalismo é agredido por parentes do vice-governador do Amazonas. Motivo: estava dando aula. Quando você não conseguir rebater um argumento, use a força física, diz a cartilha de políticos truculentos.

Gilson Monteiro é professor do curso de Jornalismo e estava dando sua aula ordinária quando uma de suas alunas se levanta, dirige algumas palavras indignadas a ele e sai, batendo a porta. Minutos depois entram no auditório a aluna, Samara Aziz, e mais dois homens, Mansur e Amin Aziz. Um dos homens pergunta: “Você é o professor dessa disciplina?”. Sim, responde Gilson. Foi uma senha. Imediatamente, o homem avança contra Gilson e desfere-lhe um murro no rosto. O professor cai. O agressor então começa a chutá-lo e aplica mais dois socos. Os alunos esboçam uma reação, se dirigem ao professor que tenta se defender. Mas o outro homem olha para eles e faz um sinal para que não se movimentem, ou também serão alvo de violência.

Antes de sair, Amim Aziz aponta o professor com o indicador, levanta o polegar e dispara um revólver imaginário. “Estou marcado para morrer”, diria o professor depois. “Pela forma como me olhou, Aziz teria descarregado completamente a arma em mim.” Samara Aziz, a aluna que se sentiu ofendida pela aula de Gilson e ligou para seus pai e tio para que resolvessem a situação, escreveria depois, comentando sobre o caso: “respeito é bom e mantém os dentes no lugar”.

A cena é real. Aconteceu no dia 11 de maio de 2009 no auditório Rio Negro da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), durante aula da disciplina Tópicos Especiais de Jornalismo I, para uma turma de calouros. O professor doutor Gilson Monteiro, que é também coordenador do curso de Comunicação Social e já foi candidato a reitor da UFAM, falava sobre a cobertura jornalística de escândalos políticos, que movida por interesses, acaba informando à sociedade menos do que deveria. Para ilustrar seu ponto, citou o caso do vice-governador do Amazonas Omar Aziz (à época, do PFL) que teve seu nome retirado de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigava exploração sexual de menores, por pressão de aliados políticos.

O caso ocorreu em 2004. A relatora da CPMI, deputada Maria do Rosário (PT-RS) arrolou diversos nomes de políticos envolvidos em casos de pedofilia, incluindo o do vice-governador Omar Aziz. O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), no entanto, convencido da inocência do conterrâneo pediu para que seu nome fosse tirado da lista de envolvidos. Foi feita uma votação. E por um voto, o de minerva, dado pelo senador Nei Suassuna (PMDB-PB), o nome de Omar Aziz foi retirado do relatório da CPMI. Nesta ata, de 7 de julho de 2004, é possível conferir que o senador Arthur Virgílio efetivamente pediu a retirada do nome de Aziz, no que foi atendido por seus nobres colegas.

Gilson Monteiro, portanto, não dizia mentira alguma, tampouco ofendia a honra de ninguém. Mas ele não sabia que Samara Aziz, sobrinha do vice-governador, assistia sua aula. Indignada, a moça de 17 anos, levantou-se e chamou os parentes para defender a honra da família. A truculência dos irmão do governador invadiu uma universidade federal e agrediu um funcionário público no exercício de sua profissão. Gilson Monteiro comunicou a reitoria sobre o acontecido, registrou queixa na Polícia Federal e fez exame de corpo de delito. Sente-se ameaçado. “Só espero que a Polícia Militar (do Governador) garanta minha integridade física e dos meus filhos. Caso sofra algum atentado daqui para a frente não tenho dúvidas de que, se não foi a mando, foi um ato do meu agressor, irmão do vice-governador do Estado”.

As justificativas.

Com a cabeça fria, Amim Aziz se desculpou e se disse arrependido: “Eu fiz uma coisa errada. Até peço desculpas. Ela é minha sobrinha e crio ela desde criança. Era seu primeiro dia de aula na UFAM. O sonho dela era fazer jornalismo na universidade federal. Perdi a cabeça sem querer. Cometi um grave erro ao ter entrado lá.”

Em coletiva de impresa, o vice-governador, agora filiado ao PMN (Partido da Mobilização Nacional) condenou a atitude do irmão: “O Amin cometeu um ato irracional e condenável e vai responder por isso”. No entanto, o político prometeu processar Gilson por ter dito que seu nome foi retirado do relatório da CPMI por pressão política.

Consequências.

Samara Aziz começou mal sua carreira no jornalismo. Logo na primeira aula, por uma atitude impensada e infantil, se transformou em alvo do repúdio de seus colegas e de pessoas que nem a conhecem. Uma pesquisa por seu nome no Orkut resulta em comunidades como “Porrada na Samara Aziz”, em que os membros planejam formas de receber a estudante quando de sua volta às atividades universitárias. Além de xingamentos, piadas de mau gosto e protestos, os alunos da UFAM sugerem um corredor polonês para receber a moça. Em vão. Segundo informações de usuário do próprio Orkut, Samara já estaria em outra faculdade, privada, cursando Direito. Tanto melhor para ela. Com um início de carreira como esse, seria difícil desvincular seu nome dessa história absurda.

Mas nem tão absurda. Agressões a jornalistas, infelizmente, já se tornaram até comuns em lugares tão provincianos como a Amazônia. É impossível não relacionar a violência dos Aziz à dos Maiorana contra Lúcio Flávio Pinto, em 2005, em Belém. O jornalista, editor do Jornal Pessoal, publicara um artigo em que dizia que o poder dos Maiorana era maior até que o do Governo do Pará. E que os veículos de mídia pertecentes à família eram usados como um balcão de negócios, a serviço de seus interesse. A resposta veio, como se sabe, em forma de socos e pontapés. Lúcio Flávio foi ousado e pagou com sangue. Gilson Monteiro disse muito menos que isso e teve o mesmo tratamento.

Alguns links.

da Folha de São Paulo
do Portal da MTV
da Revista O Avesso
do blog de Gilson Monteiro, em que o professor comenta o caso.
do blog o Malfazejo, comentando que não foi a primeira vez que Omar Aziz esteve envolvido com caso de cerceamento de liberdade de expressão através de truculência.
da Agência Câmara, sobre a CPMI da Exploração Sexual de Menores e o pedido de Virgílio.

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Frustração na não-escolha de Belém como cidade-sede da Copa de 2014.

1 junho, 2009 at 20:06 (Uncategorized)

Não deu pra Belém. Apenas uma cidade vai representar a Amazônia como sede da Copa de 2014 no Brasil. A FIFA escolheu Manaus. Saiba como foi a “festa” em Belém que comemoraria a eleição da cidade, mas que acabou apenas marcando o brilho de uma tragédia anunciada.

A primeira coisa que se via ao chegar à Praça da República, no centro de Belém, eram bolas coloridas voando. Era uma tradição da quadra nazarena, os dias que giram em torno do Círio de Nazaré, realizado em outubro na capital paraense. Aquelas bolas coloridas, de plástico brilhante, fazem a diversão das crianças que vão ao arraial de Nazaré, acompanhadas dos pais devotos da Virgem. Mas não era outubro. Era maio, e o motivo de aquelas bolas pularem e serem tantas era outro. 31 de maio de 2009 foi o dia escolhido pela FIFA (Federação Internacional de Futebol e Associados) para anunciar as cidades sede da Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil. Belém estava no páreo, junto com outras fortíssimas candidatas. Era um domingo, e os pais foram à praça com a expectativa do resultado que viria direto das Bahamas, da boca de Joseph Blatter, presidente da FIFA. As crianças, talvez alheias à importância da data, simplesmente brincavam com as bolas. Uma delas fugiu ao controle de um menino, escorregou à rua que circunda a Praça da República e quase foi estourada por um carro. O menino engoliu um choro seco, até que um taxista atento salvou seu brinquedo colorido. Mais tarde, seria a vez de seus pais engolirem o choro seco. Porque dali a algumas horas Belém seria preterida como uma das sedes pela FIFA. E nem o menino, nem seus pais, veriam a Copa de perto, em sua cidade.

Há vários motivos para pensar que a escolha das sedes, sendo um evento essencialmente ligado ao futebol, não se limita ao futebol, como costuma acontecer às coisas relacionadas a esse esporte. Chegando à praça, a segunda coisa que saltava logo aos olhos era a abundância de bandeiras do estado do Pará, indicando que ali se processava um nacionalismo nem sempre visto por essas bandas. Porque a principal concorrente de Belém a sede da Copa do Mundo, Manaus, capital do vizinho Amazonas, já alimenta há algum tempo uma rivalidade em relação aos paraenses, sentimento correspondido pelos paraenses em momentos capitais, como este. Após o anúncio oficial que dava Manaus como uma das sedes, e não Belém, um jovem ao meu lado se lamentou: “É como perder pra Argentina”. E Manaus era considerada favorita por jornalistas como Ancelmo Gois e Juca Kfouri. Sinal disso é a comparação entre as festas promovidas pelas duas cidades para o dia do anúncio. Em Manaus tivemos a banda Jota Quest, consagrada nacionalmente, oferta do grupo Coca-cola, um dos principais cabos-eleitorais dos manauras. Em Belém, um show básico com artistas da terra, de proporções apenas um pouco maiores às normalmente encontradas nos fins-de-semana ordinários. E bastante desorganizado, a julgar pela ausência de telões que indicassem o motivo maior da festa – o anúncio das cidades-sedes – e a sensação de que ninguém no palco informava nada, nem estava muito interessado no que acontecia nas Bahamas. Da sacada do Teatro da Paz, a imprensa esperava tudo com paciência de Jó, a cinco minutos do anúncio que selaria facetas importante de seu próprio futuro profissional. A multidão se reunia em grupinhos, bebia cerveja em baldes, comia o tradicional churrasquinho de gato de frente de estádio, todos com cara de paisagem, nem nervosos nem confiantes. Uma charanga tentava competir com o trio elétrico. Era uma disputa desleal. Os muitos decibéis do trio elétrico contra os pulmões e os braços de alguns senhores que tocavam por bebida. Mas o som da charanga era melhor. Algumas crianças tinham uma visão privilegiada do alto das mangueiras. Não sei se viam algo de anormal. Resolvi desistir da instalação de um possível telão. Olhei para os repórteres e vi as câmeras imediatamente apontando para um local perto do trio. Uma movimentação diferente havia ali. 15h e 30m, o anúncio devia estar começando.

Além das bandeiras do Pará, ornamento essencial desse dia, que começou chuvoso e terminou triste, era um chapéu de palha com fitinhas coloridas penduradas na aba, uma referência aos chapéus da “marujada”, tradicional festa do interior do Pará. O adereço é bastante utilizado pelo “Arraial do Pavulagem”, um grupo de música da terra, que faria a festa dos belenenses naquele domingo de praça. Faria, se Joseph Blatter não estragasse tudo. O que Joseph Blatter jogou por terra depois que falou, direto das Bahamas, nem o Arraial do Pavulagem conseguiu levantar.

O anúncio em ordem alfabética.

Foi bem rápido. Do trio elétrico saía apenas o áudio da transmissão. Encontrei a barraquinha de um vendedor de côco, com uma televisão 14 polegadas, sinal errante, plateia disputando espaço, um bom ângulo de visão. Outro ambulante comentou comigo: “Se já é desorganizado agora, imagina como será na Copa! Tinha um telão ali”, e apontou a parede do Teatro da Paz. “Não sei por que tiraram”. Não deu tempo para imaginar. Blatter falou e alguém traduziu: “Direi as cidades escolhidas por ordem alfabética”. E disse a primeira: “Belo Horizonte”. Alguns perceberam logo. Belém estava fora da Copa, sem nunca ter estado dentro.

Não demorou a aparecerem os engenheiros de obra pronta: “Eu já sabia!”, disse para mim um rapaz com a camisa da Seleção. “Belém não está preparada, falta muita coisa, infra-estrutura, transporte, dinheiro…” As pessoas se dividiram: umas já tinham certeza que Belém seria preterida, de fato não tínhamos condições; outras culpavam o governo, a prefeitura, os políticos pelo fracasso. Alguém disse, do meu lado: “Acabou meu dia”. O animador do palco, o vocalista da banda que foi paga para tocar, estufou o peito: “É uma pena que isso tenha acontecido. Mas nós fomos chamados para fazer a festa, e vamos continuar a fazer a festa”. Mas a festa demorou para recomeçar. E quando o som voltou a se fazer ouvir, ninguém pareceu dar muita bola. Escolheram tocar (já tinham tocado antes) Belém – Pará – Brasil, música da banda paraense Mosaico de Ravena, que faz parte da identidade local e cujo refrão convida, ironicamente: “Quem quiser venha ver, mas só um de cada vez. Não queremos nossos jacarés tropeçando em vocês”. Parecia uma música escolhida especialmente para responder ao anúncio da FIFA. Começou-se a ouvir gritos de ordem contra a governadora e o prefeito, considerados os principais responsáveis por aquela derrota. Como no futebol, houve os que culparam a arbitragem, fazendo o tradicional gesto manual de “roubalheira”. “A credibilidade da FIFA e da CBF está abalada. Como é que eles deixam vazar as cidades escolhidas antes do tempo?”, perguntou um homem. O discurso de um senhor revoltado, a uma câmera de televisão, me chamou atenção: “O que vão fazer com estádio que vão construir em Manaus, depois da Copa? O futebol de lá é fraco, não movimenta tanto público quanto aqui. A FIFA devia ter pensado nisso também”. E aqui abro um pequeno parêntese.

Remo e Paysandu.

A rivalidade entre os dois principais clubes de Belém é uma das maiores do Brasil. Sem sombra de dúvidas, é a maior rivalidade do Norte do país. Os meninos jogando bola, desde cedo, na praça, encenam a paixão que o torcedor paraense nutre pelo futebol em geral, e pelos dois clubes, em particular. Eram incontáveis as camisetas listradas em azul celeste e branco, na Praça da República, camisetas do Paysandu, que disputa a Série C do campeonato brasileiro. As em azul marinho, lisas, do Remo, eram mais tímidas, reflexo da má fase por que o clube passa. Mesmo assim, a torcida ensaiava, entre uma música e outra, um coro de “Remo, Remo, Remo”. Os torcedores azulinos e bicolores continuavam as tradicionais gozações clubísticas, aqui batizadas “encarnações”, pela capacidade que algumas têm de deixar o rosto do sujeito alvo ruborizado, pintado de encarnado. Assim é que o Remo, por não ter conseguido classificação sequer à Série D do Campeonato Brasileiro, vira o time kitnet: aquele que não tem divisão. E o Paysandu, depois de passar por um tabu de 33 jogos sem vencer o maior rival, virou filho de pescador: só apanha de Remo. A rivalidade clubística toma conta da cidade em dia de RExPA, alimentando o amor que o paraense nutre pelos dois times em especial, e por tabela, pelo futebol. Numa grande faixa na Praça da República, lia-se: “Todas as torcidas numa só paixão”, convidando bicolores e azulinos a torcerem juntos pela Copa no Pará. Do ponto de vista comparativo, no quesito torcida, Manaus perdia de goleada de Belém, já que os mais tradicionais clubes amazonenses, São Raimundo e Nacional, não movimentam pessoas e emoções tanto quanto Remo e Paysandu. Mas torcida, como se viu, não ganha jogo. Um bom projeto, vontade e competência política, e capacidade de atração de investimento, ganham. A torcida paraense, então, enrola as bandeiras, sufoca o grito, e se contenta em ver a bola rolar de longe, pela televisão.

Fim de festa.

Festa finda, o Arraial do Pavulagem subiu ao palco e tentou fazer o impossível: reanimar quem havia passado por uma grande decepção. Alguns corpos balançavam, outros esboçavam sorrisos amarelos. Quem acompanha aquele tipo de festa há algum tempo tem certeza: nunca a animada música paraense soou tão mal. Repórteres percorriam a multidão em busca de captar a indignação e frustração das pessoas. Ambulantes lamentavam o decréscimo do movimento, como deviam lamentar o fim do imaginável consumo extra de possíveis visitantes em 2014. Não havia quem estivesse satisfeito. Mesmo os pessimistas (auto-denominados ‘realistas’), guardavam uma pontinha de esperança pela escolha de Belém, por mais que Manaus parecesse a favorita. Há prêmios de consolação, claro. É possível que algumas cidades preteridas sejam sub-sedes para treinamento de seleções, no período pré-Copa. É possível ainda que cidades escolhidas não consigam cumprir os encargos necessários para receber jogos do Mundial, e a FIFA tenha que trocá-las por outras. Essa não é uma esperança que sirva de consolo, não sara a sensação de orgulho ferido. Porque a FIFA não disse a Belém apenas um “não” à possibilidade de sediar jogos de futebol, logo Belém que tem um dos estádios mais modernos do país e um povo que respira futebol. É como se tivesse dito um “não” também à capacidade de organizar eventos em nível mundial, o que soa como um tapa na auto-estima da população que foi à praça a espera de um “sim”. A sensação, claro, era de completa decepção. Só faltou chover.

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