A função do jornalista é vender bombom.

24 maio, 2010 at 22:08 (Uncategorized)

Há muito tempo eu venho refletindo sobre isso. E ontem conclui que pra ser bom jornalista é preciso ter um dia exercido a profissão de bombonzeiro. Explico com uma história.

Dias atrás incubiram a turma de Radiojornalismo da universidade da produção de pautas para reportagens radiofônicas de 1 minuto. Os alunos deveriam sair atrás de informações preliminares sobre qualquer assunto e agendariam entrevistas. Mais tarde essas informações orientariam e seriam subsidio ao repórter na produção de seu texto. Antes de ir pra rua, dei uma olhada nas ideias dos colegas: um marcaria entrevista com o diretor do Instituto de Letras e Comunicação sobre as eleições próximas daquele colegiado, outra levantaria informações sobre os cursos livres de línguas estrangeiras com o coordenador deles, outro pretendia entrevistar o diretor da Faculdade sobre algum assunto relevante. Eu considerei que, no meio de tão ilustres figuras, nosso ficctício Jornal do Rádio se ressentia da voz de alguém com menos entradas no Lattes: fui entrevistar o bombonzeiro que trabalha a 30 metros da faculdade.

Eu não sabia exatamente o que eu queria saber dele. Nessas situações é sempre muito dificil interagir com uma fonte, porque você não sabe o que perguntar. Comecei com o básico, expliquei por que estava ali, perguntei o nome dele (Marcos), há quanto tempo trabalhava ali, com que tipo de produto trabalhava. Notei que enquanto conversava comigo, Marcos mexia em seus pacotes de doces, aparentemente preocupado com alguma coisa que eu não conseguia ver. Foi então que notei as formigas, minúsculas, infestando um de seus pacotes de icekiss.

Tinha achado minha pauta. As formigas. Marcos me contou que elas eram um problemão: faziam furos nos pacotes e inutilizavam quilos e quilos de doces. Contra elas, ele já tinha tentado quase tudo, de variados tipos de inseticida à suspensão do carrinho nos sustentáculos do corredor, mas elas sempre arranjavam um jeito de alcançar o néctar que recheia os babaloos. Por causa da praga, Marcos calculava uma perda mensal de, em média, 40 reais. Até soluções caseiras  – e engenhosas -, como o uso de potes d’água como base dos pés do carrinho de doces, falhavam ante a perspicácea dos artrópodes que, divinamente, andavam sobre as águas em fila indiana a procura de glicose. Marcos reclamava que a prefeitura devia tornar mais frequentes as detetizações do campus, única ação capaz de abater as hordas do exército de várias patas, contra o qual lutava o bombonzeiro todo dia.

Tenho razões para acreditar que é dever do jornalismo trazer o problema das formigas para a pauta do dia. Para tanto, é necessário pensar como um bombonzeiro, se colocar no lugar dele, vender um big big se calhar.

poucas coisas são mais medíocres que esse ideal de vida-formiga

Para a maioria das pessoas, a formiga é apenas personagem de parábolas infantis sobre trabalho duro; para o bombonzeiro é um fator importantíssimo na equação que define sucesso ou fracasso comercial. Podem dizer que para nós, que normalmente não vendemos bombons, trata-se de um problema menor. O problema dos outros é sempre menor. Mas também depende de que espécie é o outro. Somos mais sensíveis aos infortúnios de um homo lattes, por exemplo, que de um homo bombonis. Porém, as mesmas noites de sono perdidas pelo professor-doutor que não conseguiu financiamento para sua pesquisa foram perdidas pelo bombozeiro que não conseguiu dar um jeito nas formigas. São problemas de proporções iguais, mas as formigas deveriam merecer mais atenção jornalística porque o professor-doutor tem mais condições que o bombonzeiro de publicizar seu desconforto. O bombonzeiro é invisível, pra muitas pessoas se faz mudo. Os problemas do bombonzeiro raramente são um problema da coletividade, enquanto nos sentimos, nós acadêmicos, diretamente envolvidos quando uma pesquisa pára por falta de financiamento.

O jornalismo precisa trazer os problemas das minorias, dos silenciados, pra as rodas de discussão da maioria que não os quer ver. O jornalismo precisa tirar a capa de invisibilidade que nós colocamos sobre muitas pessoas que convivem conosco. Isso significa humanizar o jornal, ver as pessoas – todas elas – como seres humanos complexos, com anseios, pretensões e expectativas. O jornalista precisa ver a realidade a partir de baixo – como aliás os historiadores já fazem, substituindo a história dos grandes feitos, datas e nomes, por uma “história vista de baixo”, contada sob a ótica de homens comuns.

Não se trata de fazer panfleto, mas apenas sensibilizar o leitor pra uma realidade diferente e equivalente à sua. Se eu conseguir mostrar a um designer gráfico que o lançamento do novo Photoshop é tão importante pra ele quanto o lançamento de um novo insetícida é para o Marcos, já vai ter valido a pena. Empatia e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

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3 Comentários

  1. kamila said,

    quase não chego aqui!
    aquela coisa de ‘amanhã, eu procuro’ ehehhehehe

    bom, como talvez futura médica,
    só alerto para o consumo excessivo desses bombons =]

  2. Juliana said,

    Gostei muito, Drico!
    Admiro sua paixão pelo que fazes, mas acima de tudo admira sua ética e sua sensibilidade.

    Obs.: Aê! Lembraste da “história vista de baixo”! – rsrs…

  3. camila engler said,

    oi bombonzeiro, mande um de abacaxi com recheio de pessego pra mim
    bjos

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