Depois de defender a pena de morte, jornalista do Diário do Pará escreve sobre piriguetes sem saber o que é piriguete.

19 abril, 2010 at 16:57 (Uncategorized)

Jornalistas perdem a razão de existir quando escrevem bobagem.

Do Diário:

“Piriguetes” roubam para ter dinheiro para festa

Para o delegado Arnaldo Mendes, de plantão na Seccional Urbana da Cremação, a prisão de Ruan Carlos Brito Pereira, 21 anos, e Jânio da Silva Costa, 20, mostra que determinados elementos perderam a razão de existir quando colocam em risco a vida de outros.

Esse lead (nome técnico para o primeiro parágrafo das notícias) seria um excelente exemplo de como não fazer um lead, numa primeira aula do curso de Jornalismo. Eu quase consigo ver: a professora zelosa, contendo a euforia dos calouros, apontando uma projeção na parede (porque agora os professores estão viciados em datashow) e explicando: olha gente o primeiro parágrafo tem que ser assim, assado… mas não façam desse jeito que fez o repórter do Diário, a menos que vocês queiram trabalhar o resto da vida lá.

Vejam só a confusão que o escrevente fez. A gente sabe o que ele quis dizer, e sabe o que ele efetivamente disse. O chato é que as duas coisas se contradizem. Dissequemos o texto nas suas estruturas fundamentais:

“Para o delegado x, a prisão de y e z mostra que determinados elementos perderam a razão de existir quando colocam em risco a vida de outros.”

Ou seja, para o autor da ação (o delegado), a sua própria ação (a prisão) mostraria que as pessoas merecem morrer quando põem em risco a vida das outras. Evidentemente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Seria como eu fazer um manifesto pela não-extinção dos golfinhos e algum analfabeto funcional escrever no jornal que: para Adriano, escrever um texto pela não-extinção dos golfinhos mostra que eles não estão extintos.

É óbvio que o aprendiz de Machado de Assis aí em cima quis dizer outra coisa, gravíssima: que criminosos que roubam por motivo considerado fútil perdem o direito à vida ou, eufemisticamente falando, sua “razão de existir”. Pena de morte contra a minoria marginalizada, amiguinhos! Isso vindo da boca de um delegado de polícia, por definição alguém vergonhosamente reacionário, não é nenhuma surpresa. O chato é ler isso num jornal que se proclama “orgulho do Pará”, num texto não-editoral. (mesmo num texto opinativo seria chato).

Não preciso nem dizer que colocar a opinião de um alguém no primeiro parágrafo de um texto cuja razão de existir nem é essa opinião é ridículo. Seria como eu escrever uma notícia assim:

Massacre de golfinhos pinta de vermelho a costa da Islândia

Para o ambientalista Heinz Stephen-Carlisson, diretor da Casa do Cetáceo de Reiquiavique, o derramento de sangue mostra que, até prova em contrário, Moby Dick é baleia cachalote e não golfinho.

Ufa!

Sem contar que, implicitamente, o repórter acaba fazendo sua, a opinião do delegado, editorializando a notícia.

Como se não bastasse ser a favor da matança de ladrões de celular, nosso nobel de Literatura do Diário, ainda usa no título uma palavra que ele parece não entender muito bem. Piriguete, como qualquer inteligência mediana desconfia, é o termo pejorativo (e machista) usado pra mulheres que frequentam festas de aparelhagem, bailes funks etc, atrás de parceiros sexuais. Os criminosos a que se referem a notícia usariam o dinheiro do assalto para conquistar as tais piriguetes, exatamente o contrário do que diz a manchete.

A gente nem se surpreende mais. Desde Eva, a culpa é sempre das mulheres.

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4 Comentários

  1. Bianca said,

    Na verdade, isso acontece com muita frequência nos impressos porque quem escreve as manchetes não são os repórteres, mas os editores. Muitas vezes, eles não leem direito do que a notícia se trata. Moral da história: mesmo quando não sobra para a “piriguete”, sobra para o repórter que, no caso em questão, não falou em nenhum momento que alguma “piriguete” roubou alguma coisa. Mas, de fato, esse “elementos perderam a razão de existir quando colocam em risco a vida de outros” não se justifica por nada. Bjs.

    • Bianca said,

      E, de fato, a utilização do termo “piriguete” pelo editor mostra como o machismo está naturalizado na nossa sociedade…

  2. Aline Alves said,

    Adriano, gostei muito de seu blog! Texto ótimo, leve e de uma crítica totalmente pertinente.

    Sobre a matéria, não é somente o lead que está ruim… todo o restante também – fiz questão de abrir o link que nos leva ao site do Diário. A respeito do título é complicado julgar, porque sabemos que – na maioria das vezes – o responsável na escolha é o editor. E, na verdade, acredito que para essa matéria foi exatamente isso que aconteceu: o editor não leu/”teve tempo de ler” e pôs o título de qualquer jeito. Feio!

    • Adriano Fernandes said,

      Estão certíssimas.
      Voltem sempre e obrigado pelas considerações 😉

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