A necessidade da prova

8 novembro, 2009 at 22:31 (Uncategorized)

Então que eu fui fazer o ENADE. “Fazer” é modo de dizer. Foi a prova mais fácil de todos os tempos. Porque a gente passa vida toda se preparando pra ela. Basta assinar o nome. E entregar a prova em branco. O que. Desde que você seja alfabetizado, você tira. De letra [/trocadilho]

Eu entrei na onda do boicote. Eu até resisti, sabe. Porque, né. É chato ficar fazendo o que todo mundo manda fazer. Se um punhado de integrantes do Movimento Estudantil te diz pra fazer uma coisa. Bem. O mínimo que uma pessoa sensata pensa é. Em fazer exatamente o oposto. Porque esse pessoalzinho, vocês sabem. Vivem numa lógica de. Hay gobierno, soy contra. O que não é totalmente ruim. Longe disso. Mas você precisa ficar atento.

E nós temos um centro acadêmico de comunicação bem legal. Na ufpa. Cheio de gente que não quer catequizar mentes alheias em prol da libertação estudantil. O que é de praxe nos centros acadêmicos. Eu tenho uma opinião sobre isso. Que um movimento estudantil. Pra dar certo. Tem que mudar de nome. Porque esse nomezinho, sei não, carrega toda uma aura negativa e anacrônica. Então se um certo tipo de estudante vem dizer pra maioria boicotar o ENADE. Não é surpresa que boa parte da gente que não gosta desses estudantes. Faça o quê? O ENADE. Boicote o boicote.

E eu fico pensando. Como as pessoas querem um bom motivo pra não fazer a prova. Quando o óbvio é justamente o contrário: você precisa ter um excelente motivo pra fazê-la. A diferença é sutil. Mas existe. Porque veja bem. Nós estamos acostumados a ser avaliados por provas. Nosso sistema educacional, em todos os níveis, está contaminado por isso. Absolutamente. Pela lógica da prova. A ideia de que.

weed box

Você está aqui!

Você é uma caixinha. Você vai para escola. Onde vão te colocar uma série de conteúdos. E depois vão medir (provar) o quanto a caixinha conseguiu guardar de conteúdo. E o resultado dessa medição é. Atenção: o reflexo fiel do seu desempenho escolar. O ENADE é o Exame Nacional do Desempenho Estudantil. Ele serve pra isso. Medir o desempenho estudantil. Através de uma prova. Quando existe uma caralhada de outras formas. Mais inteligentes. De medir esse desempenho. E todo mundo só pensa em fazer prova. Como se fosse natural.

Mas eu nem me espanto. Sabe por quê? Porque somos, naturalmente, seres inerciais. Sabe? Do tipo que se acostuma fácil? Que tem aversão ao novo, ao experimental? Então a gente passa a nossa vida toda fazendo provas. De tudo que é tipo. Em qualquer situação. E quando chegamos na universidade. O lugar de onde pretendemos sair formados. Ou seja. Dentro de uma fôrma. Que já tava lá antes de chegarmos. E vamos deixar do mesmo jeito quando sairmos. Quando chegamos lá. Não conseguimos nos livrar da lógica da prova. É prova pra todo lado, pra todos os gostos, de todos os sabores.

É difícil, eu sei. Mas aí a gente fica procurando um motivo pra não fazer a prova. E não percebe que. O grande motivo pra não fazer a prova é justamente não ter motivo algum para fazê-la. Nenhuma Prova. Ué.

Simples assim.

Senão vejamos. Cada pessoa é única, correto? No sentido de que. Tem suas particularidades, vícios, virtudes, vantagens, desvantagens etc. Tudo isso. Ninguém é igual a ninguém. Isso é ponto pacífico. Mas uma prova, dessas que passam a tia Raimundinha e o MEC, faz o quê? Padroniza tudo. Nivela. É uma única prova dedicada a vários seres tão diferentes. O que só podia dar merda. É claro que não é um problema apenas da prova. É do sistema educacional como um todo. Essa história de professores. Um professor pra 50 alunos. Não tem como isso dar certo. Porque o professor trabalha sempre pensando num tipo médio de aluno. E se você foge um pouco dessa média, o professor não está preparado pra você. Se você foge muito dessa média, o sistema educacional não servirá a você. E ainda fará todo mundo acreditar que. É você que não serve a ele.

E não tô nem falando em acessibilidade e inclusão nas escolas. Em ela estar preparada para receber pessoas com as mais diversas deficiências. Que podem se transformar em eficiência, dependendo da situação. Estou falando apenas em talentos e aptidões diferentes. Desses que um professor mediano não consegue enxergar e ajudar a desenvolver. Desses que uma prova. ENADE, vestibular, simulados, testes etc. Não consegue medir. Mas existem.

Então. Não é que o ENADE não seja o melhor jeito de avaliar o desempenho estudantil. É que uma prova não é. Uma prova, tomada no sentido tradicional. De um questionário de múltipla escolha sobre assuntos genéricos e específicos e algumas questões discursivas. Isso não avalia a criatividade, o bom uso da linguagem, o empreendedorismo, o senso de oportunidade, a articulação, o senso crítico, estético e um quinquilhão de outras qualidades necessárias ao bom universitário, estudante de uma boa instituição. Uma prova, como ENADE, no máximo avalia se o sujeito sabe ler e escrever. E se ele depositou. Na caixinha. O que passaram pra ele em sala de aula. E isso está longe de ser. Um “desempenho estudantil”.

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8 Comentários

  1. Priscila Costa said,

    Porra, Adriano. Quanto PONTO! hahaha.

    Creio ENADE não avaliar nada. Fim..

  2. Camila Barros said,

    me sinto contemplada! \o/

  3. Natasha Valente said,

    Ok! O excesso de pontos foi proposital,rs.
    Provas e mais provas… Sempre achei que essa não é a melhor formar para avaliar ninguém, mas é praticamente impossível irmos de contra com sistema “educacional” do nosso país. Veja só… o novo enem está aí, foi imposto para todos, é quase obrigatório, e o aluno do ensino médio que se vire tentando fazer em um curto tempo mais de 180 questões e uma redação. Que tipo de avaliação é essa?
    Eles preferem criar meios de ”testar” os conhecimentos a melhorar a educação. Enquanto isso, façamos as provas… Um dia melhora, tenha fé! (Podemos nem estar mais nesse mundo, mas a mudança chegará, hehe).

  4. Reflexões Piagetianas « jáDikas said,

    […] pouco tempo li no blog de um amigo meu algumas considerações acerca de avaliação (avaliação escolar mesmo), naquele […]

  5. Dika said,

    Como sabes, concordo com tudo o que tu dissse. Só não concordo com a sabotagem.
    O meu lado pragmático diz que a avaliação é necessária, tah certo que como é feita não é mesmo lá grande coisa. Mas precisamos ter uma idéia, ainda que rasteira, do nível dos universitários.

  6. Anônimo said,

    fato é q o ENADE não era assim. O antigo provão contnha bem mais deficiências e lacunas ao avaliar o aluno. O que é avaliado é o desempenho em relação apenas aos conteúdos programáticos, ainda que isso seja o que não necessita ser avaliado.
    A questão q eu vejo é que todos os itens que expuseste (criatividade, o bom uso da linguagem, o empreendedorismo, o senso de oportunidade, a articulação, o senso crítico, estético etc) simplesmente não são avaliados, pq é contra o bom senso humano avaliar esse tipo de coisa. São fatores que não podem em hipótese alguma ser testados. Um sistema educativo não pode testar em um aluno aquilo q o próprio sistema não oferece. E ainda que oferecesse, não é necessário pôr à prova o aluno, que não precisa provar sua criatividade, seu empreendedorismo, senso estético e sei lá mais o que a ninguém. Só quem cobra todas essas coisas são empresas, instituições privadas que necessitam avaliar o seu funcionário, que é, afinal, quem vai sustentar a instituição.

    A avaliação não é boa pq não ajuda o aluno em nada. O resultado vai apenas para estatísticas, nada é feito em relação a isso. Um aluno tira zero e, se não for por incentivo dos pais ou pressão da escola ou maturidade própria, vai continuar tirando zero. Pq os professores não olham para esses alunos, a escola não olha. A educação perde o sentido. Não fosse isso, a avaliação seria a melhor coisa de um bom sistema educativo.

  7. Adriano Fernandes said,

    aqueles fatores de que eu falei podem sim ser avaliados. eu acho que a avaliação não serve pra nada pq ela é um fim em si mesma. Deveríamos dizer aos nossos universitários: baseados no que vcs aprederam em sala, façam alguma coisa que preste pra comunidade em que vcs estão inseridos. E esse trabalho seria avaliado de acordo com os critérios que eu falei.

    Se é pra ter avaliação, que ela não seja um fim em si mesma. Curso de jornalismo. Manda-se o aluno produzir um jornal pra comunidade acadêmica. Baseado no desempenho dos alunos na produção desse jornal, vc mede se a universidade é boa ou não. Claro que vc vai ter que estabelecer parametros objetivos e essas chatices todas. Mas seria uma avaliação inteligente que, além de tudo, traria um benefício pra comunidade: informação.

    Avaliação conteudista não leva a lugar nenhum. É apenas preguiçosa.

  8. Eduardo Santos said,

    É claro que provas assim não são a melhor forma de avaliar a capacidade do aluno, mas de fato já se tornaram um senso comum apesar da extrema imperfeição.
    P.s.: Acompanho seu blog já tem algum tempo, mas nunca postei aqui, porém considero realmente muito bom este espaço criado, tanto que o recomendei lá no meu!

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