Sagrado e profano na academia

16 novembro, 2009 at 06:46 (Uncategorized)

Claro que esse caso do mini-vestido na Uniban é um absurdo. Mas tem um ponto que sempre me chama muita atenção. Ele está presente em vários discursos de gente que caracteriza a atitude da moça como provocativa ou imoral. E está, também, na nota que Uniban usou para justificar a expulsão da estudante (expulsão logo depois revogada). Diz a Uniban:

“Foi constatado que a atitude provocativa da aluna […] buscou chamar atenção para si por conta de gestos e modos de expressar, o que resultou numa ação coletiva de defesa do ambiente escolar

Leia a íntegra da nota.

A Uniban também argumenta que os trajes que a moça usava “indicavam uma atitude incompatível com o ambiente da universidade“.

Essa ideia muito comum de que a universidade é um lugar sagrado e que, portanto, não pode ser profanado tem sua razão de ser. A metáfora da universidade como o Templo do Conhecimento encontra raízes na própria formação dessa instituição que, no Ocidente, nasceu comandada por clérigos. Por outro lado, por ser um lugar onde vivem as grandes mentes do nosso tempo, por produzir conhecimento, por ser a casa natural da ciência e dos altos estudos, esse templo se coloca bem acima da vida dos pobres mortais que somente o circundam, apenas eventualmente adentrando suas muralhas do saber. E constatando, sob a arrogância habitual dos acadêmicos, que esses seres iluminados realmente estão acima da vil ralé que cospe no chão.

Esse lugar privilegiado reveste o ambiente acadêmico de uma aura sacra que não pode ser profanada pelos pecados do mundo ordinário. Esse tipo de raciocínio, consciente ou não, acaba fundamentando o argumento de que Geyse, ao se vestir de maneira a sugerir uma sensualidade, age de modo “incompatível com o ambiente da universidade”, o que leva os colegas a assumirem posturas “de defesa do ambiente escolar”.

Desconsiderando o fato de que esse argumento – exposto dessa forma pela Uniban – possivelmente é apenas uma estratégia retórica que procura deslocar a culpa do algoz para sua vítima, há que se considerar que esse tipo de pensamento – o de que a pura sugestão de sensualidade macula o ambiente do saber – é bastante comum, e está ligado à percepção de que 1) a universidade é sagrada, e 2) o sexo é pecaminoso, logo, o sexo rompe a sacralidade da universidade, que precisa ser defendida pelos paladinos da justiça divina. Estes, nesse caso, agem com a eficiente estratégia de gritar com incansável frequência puta! puta! puta! a uma moça com um vestido acima do joelho.

Uma parte da explicação pra essa formulação absurda está na separação entre razão x instinto, espírito x corpo, racionalidade x passionalidade. Essa dicotomia, tão cara à nossa civilização, quase sempre estabelece uma hierarquização do primeiro pólo sobre o segundo. De maneira que é tanto mais civilizado aquele que sobrepõe sua razão sobre seus instintos, o que se preocupa mais com os problemas do espírito que com os do corpo, o que age de maneira mais racional que passional. No caso Uniban, a universidade se relaciona, obviamente, ao primeiro conjunto de valores, enquanto Geyse, representa tudo do segundo. Repare que passionais, instintivos e violentos foram, na verdade, os promotores do linchamento moral, mas revestidos da capa de paladinos em defesa da “moral civilizatória”, acabam por querer tornar racional um comportamente que, em tudo, tem características primitivas.

Imagino que todos estejam por dentro da saga da Uniban e naturalmente já devam ter adotado algum posicionamento sobre o caso. Mas acredito que essa história, além do absurdo que ela encena, nos conta muito sobre como nossa sociedade – laica, libertária, científica etc etc – articula suas noções do sexo e do saber, da mulher e da universidade, do pecado e do conhecimento.

Não esqueçam a lição fundamental da nossa tradição: quem comeu o fruto proibido foi Adão, mas a culpada pela destruição do paraíso foi Eva.

Em Brasília

Na UNB, os estudantes protestaram nus, em defesa de Geyse. Mas uma reportagem do Correio Braziliense deixa claro que, entre os universitários da capital federal consultados, a questão do tamanho do vestido é fundamental. Mesmo os que defendem Geyse costumam argumentar que o vestido não era tão curto assim.

A dúvida: se ela fosse de biquini à aula, a agressão se justificaria?

 

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Como escrever uma manchete sensacionalista

14 novembro, 2009 at 02:41 (Uncategorized)

Do Portal BOL:

“Mulheres bonitas, ou são burras ou são vagabundas”, diz Megan Fox

dito assim, parece que a bonita Megan Fox deu um tiro no próprio pé com a declaração.

Mas eis que a fonte original da notícia, a Folha Online, vem com um título mais apropriado:

“Mulheres bonitas são consideradas burras ou vagabundas”, diz Megan Fox

note que o acréscimo de uma palavra – consideradas – muda todo, mas todo mesmo, sentido da frase. É como se Megan Fox dissesse uma coisa oposta ao que o Portal Bol disse que ela disse.

Claro que a notícia repercute uma entrevista em que a atriz reclama do preconceito que diz sofrer de algumas mulheres, que a consideram ou burra ou vagabunda, só porque ela é bonita. E o óbvio ululante é que ela discorda dessa opinião das mulheres, discordância que a manchete do Portal BOL ignora.

Mas veja o mais engraçado: eu soube do fato através do BOL, apesar de ter lido a manchete na primeira página da Folha e passado direto. Ou seja, a editoria do Portal BOL, enganadora, atingiu seu objetivo, que era fazer o leitor da manchete clicar no link e visualizar a notícia completa. Coisa que a Folha, por refletir em sua manchete a verdade dos fatos, não conseguiu.

Acontece que:

A Folha fala de um cachorro que mordeu um homem.

O BOL fala de um homem que mordeu um cachorro.

Em qual manchete você clicaria?

Em busca do novo, do inusitado, da notícia que tem o potencial de mudar um pouco sobre o que a gente pensa do mundo, a gente clica, claro, na manchete que diz que uma mulher bonita declarou que mulheres bonitas são burras ou vagabundas.

E aí que, quando a gente percebe que foi enganado, a e anotíca não diz nada do que anuncia, resta comentar que:

1) Megan Fox reproduz o discurso misógino segundo o qual “as mulheres estraçalham umas às outras” e “O instinto que prevalece entre as mulheres é atacar a jugular”. Aquele papinho besta de que homens são amigões e mulheres são invejosas e só querem se destruir.

2) Megan Fox é incoerente: ao mesmo tempo que vive o infortúnio feminino de estar sempre sendo observada, julgado por sua aparência, objetificada enquanto um ser que serve apenas pra ser apreciado etc; ao mesmo tempo, se diz “satisfeita com sua capacidade de manipular a mídia, aproveitando-se da imagem de mulher sexy que tem”. Ora, ou você é linda, sexy e expõe seu corpo ao mundo como uma embalagem muito bem acabada, e agarra todos as benesses e deconfortos que isso traz, ou faz o contrário, e vive (ou tenta viver) como um ser completo.

Não se pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.

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Traição se paga com quê?

12 novembro, 2009 at 23:04 (Uncategorized)

Da Folha:

STJ diz que marido traído não deve receber indenização do amante da ex-mulher

O marido afirma que seu casamento durou nove anos, mas que era traído, possivelmente, desde o terceiro ano de relacionamento. No período nasceu uma menina, que ele diz ter registrado em seu nome achando ser uma filha legítima. Ao constatar a traição e a falsa paternidade, o marido diz ter sofrido dano moral, pois “anda cabisbaixo, desconsolado e triste”.

Deixa eu ver se eu entendi.

O cara é casado com uma mulher que o trai safadamente desde o terceiro ano do matrimônio e a culpa é…

do amante?

Joinha

Sério que o marido achou que isso ia colar?

Daqui a pouco também tão querendo culpar os carros pelos atropelamentos, a água pelos afogamentos, as mulheres pelos estupros, os negros pelo racismo e… opa, isso já fazem né.

A infidelidade (e todas as neuras que dela decorrem) é a principal causa do fim dos relacionamentos. Obviamente, infiel é quem rompe o contrato: nesse caso, a esposa. O amante, que não assinou contrato, não trocou votos, não fez juras de exclusividade, não pode ser responsabilizado por nada. Mesmo que tenha sido ele quem seduziu e conveceu a mulher a chifrar o corno.

E mesmo assim é engraçado que: nas novelas, na literatura, nas piadas, no cinema… quando o marido encontra o ricardão dentro do armário, sua primeira atitude é: partir pra cima do amante. Idem no caso de mulheres traídas. Só muito raramente o senso comum confere a culpa da traição a quem realmente a tem.

Quanto ao corno, quis dar uma de esperto depois de cometer a maior barbeiragem de sua vida: casar.

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A necessidade da prova

8 novembro, 2009 at 22:31 (Uncategorized)

Então que eu fui fazer o ENADE. “Fazer” é modo de dizer. Foi a prova mais fácil de todos os tempos. Porque a gente passa vida toda se preparando pra ela. Basta assinar o nome. E entregar a prova em branco. O que. Desde que você seja alfabetizado, você tira. De letra [/trocadilho]

Eu entrei na onda do boicote. Eu até resisti, sabe. Porque, né. É chato ficar fazendo o que todo mundo manda fazer. Se um punhado de integrantes do Movimento Estudantil te diz pra fazer uma coisa. Bem. O mínimo que uma pessoa sensata pensa é. Em fazer exatamente o oposto. Porque esse pessoalzinho, vocês sabem. Vivem numa lógica de. Hay gobierno, soy contra. O que não é totalmente ruim. Longe disso. Mas você precisa ficar atento.

E nós temos um centro acadêmico de comunicação bem legal. Na ufpa. Cheio de gente que não quer catequizar mentes alheias em prol da libertação estudantil. O que é de praxe nos centros acadêmicos. Eu tenho uma opinião sobre isso. Que um movimento estudantil. Pra dar certo. Tem que mudar de nome. Porque esse nomezinho, sei não, carrega toda uma aura negativa e anacrônica. Então se um certo tipo de estudante vem dizer pra maioria boicotar o ENADE. Não é surpresa que boa parte da gente que não gosta desses estudantes. Faça o quê? O ENADE. Boicote o boicote.

E eu fico pensando. Como as pessoas querem um bom motivo pra não fazer a prova. Quando o óbvio é justamente o contrário: você precisa ter um excelente motivo pra fazê-la. A diferença é sutil. Mas existe. Porque veja bem. Nós estamos acostumados a ser avaliados por provas. Nosso sistema educacional, em todos os níveis, está contaminado por isso. Absolutamente. Pela lógica da prova. A ideia de que.

weed box

Você está aqui!

Você é uma caixinha. Você vai para escola. Onde vão te colocar uma série de conteúdos. E depois vão medir (provar) o quanto a caixinha conseguiu guardar de conteúdo. E o resultado dessa medição é. Atenção: o reflexo fiel do seu desempenho escolar. O ENADE é o Exame Nacional do Desempenho Estudantil. Ele serve pra isso. Medir o desempenho estudantil. Através de uma prova. Quando existe uma caralhada de outras formas. Mais inteligentes. De medir esse desempenho. E todo mundo só pensa em fazer prova. Como se fosse natural.

Mas eu nem me espanto. Sabe por quê? Porque somos, naturalmente, seres inerciais. Sabe? Do tipo que se acostuma fácil? Que tem aversão ao novo, ao experimental? Então a gente passa a nossa vida toda fazendo provas. De tudo que é tipo. Em qualquer situação. E quando chegamos na universidade. O lugar de onde pretendemos sair formados. Ou seja. Dentro de uma fôrma. Que já tava lá antes de chegarmos. E vamos deixar do mesmo jeito quando sairmos. Quando chegamos lá. Não conseguimos nos livrar da lógica da prova. É prova pra todo lado, pra todos os gostos, de todos os sabores.

É difícil, eu sei. Mas aí a gente fica procurando um motivo pra não fazer a prova. E não percebe que. O grande motivo pra não fazer a prova é justamente não ter motivo algum para fazê-la. Nenhuma Prova. Ué.

Simples assim.

Senão vejamos. Cada pessoa é única, correto? No sentido de que. Tem suas particularidades, vícios, virtudes, vantagens, desvantagens etc. Tudo isso. Ninguém é igual a ninguém. Isso é ponto pacífico. Mas uma prova, dessas que passam a tia Raimundinha e o MEC, faz o quê? Padroniza tudo. Nivela. É uma única prova dedicada a vários seres tão diferentes. O que só podia dar merda. É claro que não é um problema apenas da prova. É do sistema educacional como um todo. Essa história de professores. Um professor pra 50 alunos. Não tem como isso dar certo. Porque o professor trabalha sempre pensando num tipo médio de aluno. E se você foge um pouco dessa média, o professor não está preparado pra você. Se você foge muito dessa média, o sistema educacional não servirá a você. E ainda fará todo mundo acreditar que. É você que não serve a ele.

E não tô nem falando em acessibilidade e inclusão nas escolas. Em ela estar preparada para receber pessoas com as mais diversas deficiências. Que podem se transformar em eficiência, dependendo da situação. Estou falando apenas em talentos e aptidões diferentes. Desses que um professor mediano não consegue enxergar e ajudar a desenvolver. Desses que uma prova. ENADE, vestibular, simulados, testes etc. Não consegue medir. Mas existem.

Então. Não é que o ENADE não seja o melhor jeito de avaliar o desempenho estudantil. É que uma prova não é. Uma prova, tomada no sentido tradicional. De um questionário de múltipla escolha sobre assuntos genéricos e específicos e algumas questões discursivas. Isso não avalia a criatividade, o bom uso da linguagem, o empreendedorismo, o senso de oportunidade, a articulação, o senso crítico, estético e um quinquilhão de outras qualidades necessárias ao bom universitário, estudante de uma boa instituição. Uma prova, como ENADE, no máximo avalia se o sujeito sabe ler e escrever. E se ele depositou. Na caixinha. O que passaram pra ele em sala de aula. E isso está longe de ser. Um “desempenho estudantil”.

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Sobre a didática

1 novembro, 2009 at 01:02 (Uncategorized)

Então agora eu sou professor.

E fico lembrando de uma professora que eu tive.

Dessas que sentam na cadeira ao lado, e viram professoras só quando o vizinho não entende bulhufas de um assunto aleatório.

numeros

Era aquela chatice de conjuntos, matemática elementar. Quando o conjunto é fechado o último número está contido nele; quando, ao contrário, ele é aberto, o último número não participa.

Então eu não conseguia entender isso de jeito nenhum. Toda vez num colchete aberto/fechado era aquela confusão. Não havia lógica aristotélica que me fizesse ligar a participação do número com a abertura ou não do colchete.

E seguiria nesse infortúnio não fosse a didática fina da mestra, com carinho.

Ela pegou um lápis/caneta/corretivo/borracha, qualquer coisa em cima da mesa. Abraçou com a palma da mão ossuda (de colchetes), como se um número fosse, e disse:

– Fechado, o número participa. Suspenso no ar, aquele número-caneta realmente participava.

Abriu a mão, lançando o número-amante para longe de si, vencendo a inexorável atração que sua presença de ressaca exercia sobre tudo ao redor.

E sobre mim.

Então o número-borracha caiu. Do alto, a mão aberta da professora apreciava a tristeza melancólica da borracha. Ela concluiu:

– Aberto, não participa. Não participava mesmo, me convenci.

E foi com essa sutileza que eu aprendi a relação entre colchetes e números, essa dinâmica de conjuntos matemáticos.

Era uma manhã de fevereiro e talvez chovesse.

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