Alguma reflexão sobre relacionamentos (fechados ou abertos).

25 agosto, 2009 at 17:21 (Uncategorized)

Ana Maria ama Alexandre mais que tudo nessa vida. Eles se conheceram há muito tempo e têm certeza que querem ficar juntos por mais tempo ainda, quem sabe pra sempre. De repente, Ana Maria conheceu um cara que tinha uma moto, mais velho, mais bonito, cheio de sacadas inteligentes, de uma arrogância encantadora, em quase tudo diferente de Alexandre. Ana Maria continuou amando muito Alexandre, mas sentiu vontade de ser beijada pelo Cara da Moto, porque era ele quem fazia o coração dela querer sair pela boca, e suas pernas suarem. Como ela mantem um namoro convencional com o Alexandre, Ana Maria se viu numa encruzilhada.

Caminho à direita.

Ana Maria pode pegar o caminho à direita, que significa subir na garupa do Cara da Moto, abraçá-lo forte pela cintura, sentir aquele ventinho de aventura no rosto, viver, enfim, uma paixão sem prazo de validade, sem culpa ou remorso. Uma coisa que ela sempre quis, e que o Alexandre não pode dar, porque o Alexandre é diferente do Cara da Moto em quase tudo. É uma escolha legítima, que vai trazer, a curto prazo, grande felicidade à Ana Maria. E o Alexandre, que ama muito a Ana Maria, não pode se transformar num obstáculo à felicidade dela. Mas pegar o caminho da direita implica em deixar o Alexandre comendo poeira na encruzilhada.

Caminho à esquerda.

Ana Maria pode sufocar seus desejos pelo Cara da Moto, em nome de seu amor maior por Alexandre. Nesse caso, ela se convence que não ama o Motoqueiro como ama o Alexandre, e não valeria a pena trocar uma aventura passional pela possibilidade de nunca mais ter o cara da sua vida. É uma escolha legítima: Ana Maria estaria trocando uma felicidade de curto prazo com o Motoqueiro, pela estabilidade do amor Alexandrino, o homem que ela apresentou pra mãe, seu príncipe sobre o cavalo branco, o pai que ela quer pros seus filhos, etc. Esse caminho implica em mandar o Cara da Moto pastar em outras freguesias e Ana Maria ficar com uma pergunta insistente na cabeça: “como seria se fosse?”.

You can’t have your cake and eat it.

Já ficou claro que Ana Maria precisa colocar as pessoas e os sentimentos numa balança. A partir dessa medição de valores, tomar uma decisão que, automaticamente, exclui a possibilidade de ter a coisa oposta. Como diz um ditado inglês: você não pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. OU você tem o bolo, OU você o come. OU Alexandre, OU o Motoqueiro.

Existe, como sempre, o caminho do meio. A pior coisa que Ana Maria pode fazer é tomar o caminho do meio. Pelo caminho do meio, ela ignora o problema que há na existência mútua de Alexandre e do Motoqueiro em sua vida, e passa a ter o que cada um tem de melhor. Em palavras pobres, Ana Maria trairia o Alexandre com o Cara da Moto, teria a aventura de um e a estabilidade do outro ao mesmo tempo. Claro que o Alexandre não poderá saber disso e Ana Maria, se for uma pessoa boa, terá muita dificuldade em conviver com a própria consciência a partir de então.

O imperativo ético: contar a verdade a quem merece sabê-la.

Tomar o caminho da direita ou o da esquerda é uma decisão baseada num imperativo ético: Ana Maria ama Alexandre e se importa muito com os sentimentos dele, qualquer decisão que ela tomar levará em conta também o que ele, Alexandre, achará disso tudo. Como vivem numa relação a dois, o que os dois esperam é que tudo que afete a vida de ambos seja compartilhado. Portanto, se quiser ser justa, ser quiser manter a fidelidade que deve a Alexandre, Ana Maria precisa contar a ele tudo que anda acontecendo. Inclusive, o que ela sente pelo Cara da Moto. Por isso que tomar o caminho do meio, que implica em esconder a verdade do Alexandre, que ela respeita tanto, é a pior coisa a fazer (apesar de ser o caminho quea maioria, na situação de Ana Maria, resolve tomar). Vai ser duro para Alexandre ouvir que existe o Cara da Moto? Sem dúvida. Mas vai ser pior ainda ele não saber logo, da boca dela, e saber depois, e viver com a sensação de que Ana Maria, algum dia, o enganou. A confiança se esvai. E confiança não se conquista fácil de novo.

Fidelidade x Exclusividade.

Quando duas pessoas têm uma relação afetivo-amorosa de compromisso (evitarei o “namoro” da terminologia corrente, que me parece um tanto limitadora), elas fazem um pacto, um acordo tácito: as partes só podem se envolver amorosamente entre si. O envolvimento sexo-emocional com terceiros é considerado, portanto, traição a esse pacto. A meu ver, porém, existe outro acordo que precede o da monogamia: o da fidelidade, que não quer dizer, necessariamente, exclusividade. Ser fiel significa, antes de qualquer coisa, ser sincero com o outro: abrir o jogo sempre que um assunto, por mais espinhoso que seja, incomode. Se Ana Maria ama Alexandre, mas sente atração pelo Motoqueiro a ponto de o querer para si, será fiel se contar ao namorado sobre essa atração.

Uma relação afetivo-amorosa não vive sem fidelidade. A fidelidade pressupõe tudo aquilo que nós esperamos das pessoas que estão mais perto da gente: compromisso, preocupação, cuidado, sensibilidade. O pacto da fidelidade é imprescindível a qualquer relação: você não quer conviver com alguém que mente ou omite sentimentos e atitudes de você. O pacto da exclusividade, no entanto, pode ser negociado. Eu digo pode, consciente de todas as ressalvas e cuidados que esse verbo sinaliza. Pode, num mundo ideal e hipotético, em que as pessoas são melhores do que são nesse mundo real, de carne, osso e grilos. Ainda não conheci uma relação feliz sem a obersvância do pacto de exclusividade, nem sei se eu conseguiria viver numa coisa louca dessa. A não-exclusividade significa, basicamente, que seu parceiro pode se envolver com outras pessoas, e você também, desde que vocês sejam fiéis a ponto de contarem para o outro que isso acontece. (E que recebam a anuência do outro quanto a isso, obviamente)

Voltando ao nosso triângulo amoroso. Ana Maria pode escolher ficar com um OU com outro, desde que conte ao namorado tudo que está acontecendo. É direito dele saber. É direito dele ser sujeito do próprio sofrimento. Deixá-lo à margem é torná-lo agente passivo dos acontecimentos. É quebrar o necessário pacto da fidelidade, sem o qual, nenhuma relação é feliz.

A alternativa.

Também é legítimo da parte do Alexandre conceder à Ana Maria uma alternativa: se aventurar com o Motoqueiro (e quebrar o pacto da exclusividade) e, MESMO ASSIM, manter a relação com o Alexandre (já que, abrindo o jogo, ela não rompe o imprescindível pacto da fidelidade). Ou seja, Ana Maria teria os dois e saberia exatamente qual é o papel de cada um em sua vida. Eu acho isso muito, mas muito difícil de acontecer, mas é ainda uma opção, que eu considero bastante válida. Ana Maria viveria a aventura com o Motoqueiro sem perder de vista que o amor da vida dela é o Alexandre. E por que não? Há que se considerar essa alternativa. Muitas bobagens que só atrapalham a vida na Terra teriam, claro, que ser rediscutidas e elaboradas, como ciúmes, excesso de orgulho, baixa auto-estima, etc. E pra quê estamos aqui se não pra aprender a ser melhor?

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6 Comentários

  1. Vito Ramon said,

    Adorei o texto, sem um final prolixo e normal. Bem sugestivo e pensante.
    Muito bom. É estilo marca Adriano msm.

  2. Natasha said,

    Assunto polêmico. Ainda não tinha refletido melhor sobre fidelidade e pacto de exclusividade. Acho que todos nós gostamos de exclusividade, ser o centro da atenção do outro é o que procuramos, na verdade. A maioria dos relacionamentos não dá certo por esse “egoísmo”, queremos tudo do outro, mas nao fazemos nada pela pessoa, nem parar para pensar direito, num caso desses, paramos, vamos logo ao que interessa.
    Eu sou a favor de que se você chega ao ponto de querer trair é melhor terminar o relacionamento. O “ficar” existe para isso, curtir o outro sem compromisso estabelecidos, se você não é capaz de agir como um namoro/casamento pede, não assuma nada, se quer, saiba das tentações que virão e aja com consciência (não com o órgão de baixo).
    Postagem excelente. Beijos.

  3. cassiarosa said,

    curioso ler esse texto, depois de passar os ultimos dias pensando sobre isso.

    mais curioso ainda é perceber que o texto é excelente e termina com as mesmas dúvidas que eu tenho agora

    bjo!

  4. Fernanda Isobe said,

    Refletir sobre relacionamentos envolvendo o “sentimento romântico” é uma constante em minha vida. Tanto, que além das 3 propostas postas por ti, Adriano, ainda vejo outra: Ana Maria poderia escolher ficar sozinha. O porquê posso elucidar em uma outra oportunidade ou até em algum texto de meu blog, mas isto é assunto para o próximo capítulo.

  5. amortecedor said,

    […] infidelidade (e todas as neuras que dela decorrem) é a principal causa do fim dos relacionamentos. Obviamente, […]

  6. Daniela said,

    Gostei muito do texto. E por q será que fidelidade (em geral) implica em exclusividade? Isso me faz até suspirar… depende do lado em que estamos. “Se vc é que chifra ou é chifrado”.
    No trecho “A fidelidade pressupõe tudo aquilo que nós esperamos das pessoas que estão mais perto da gente: compromisso, preocupação, cuidado, sensibilidade.”, resume-se tudo mesmo sobre o termo e acho que nortei o por q da exclusividade: voltar-se para o outro integralmente (no amor-romântico). É isso q esperamos do companheiro, então é isso que devemos oferecer.

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