pseudo-literatura explícita, perdões.

23 agosto, 2009 at 04:04 (Uncategorized)

No espelho a superficie dura de uma tragédia. A mulher tentou se posicionar até perceber que a luz não era adequada, ajeitou a lâmpada em forma de pêra luminosa sobre os seus cabelos e passou a penteá-los com um pente alguns anos desdentado. Não eram tantos os cabelos, menos ainda a necessidade de se embelezar. O espelho era companheiro discreto: jamais revelaria o segredo que ela escondia. Passou uma, duas vezes, da raiz às pontas duplas, triplas, ressecadas, ressentidas. As sombras da mão ossuda, e dos dedos dela, arranhavam a parede, arranhavam a cortina e a porta do armário.

Aí ela largou o pente velho e pegou uma escovinha, no criado mudo que abriu a boca, mas permaneceu em silêncio confidente. Escovinha pequena, dessas de pentear boneca, pendurada pela pinça dos dedos, carinhou com cuidado aquele bigode espesso, cor de noite, com um ou outro fiozinho branco. Que ela, cuidadosamente e resignamente, escondeu por trás dos irmãos morenos. Esfregou uma, duas, três vezes, quantas fossem necessárias para deixar tudo em ordem. Faina finda, manuseou a lâmpada para ver melhor a obra: cabelos, bigodes, todos os pêlos do rosto em cuidadosa harmonia. Era uma mulher respeitável afinal.

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