Comédia romântica é coisa séria.

17 agosto, 2009 at 03:52 (Uncategorized)


Sandra ameaçando Ryan de casamento.

Assisti à Proposta ao lado de uma mulher linda, inteligente, articulada, dona de dois estágios e uma monografia por fazer, que vai se formar com 21 anos e, aparentemente, não deve nada a ninguém. Antes disso, ela já tinha me dito que os afazeres acadêmicos desse último semestre a obrigavam a abandonar algumas outras atividades mais… lúdicas. O que, naturalmente, não a impediu de permanecer linda, inteligente e articulada.

Mais ou menos como a Sandra Bullock, protagonista da Proposta, cuja personagem apesar de linda, inteligente e articulada, não conseguia ter uma vida social, amigos, namorados, tampouco simpatia nem vontade de dar bom dia às pessoas que cruzavam seu caminho. Talvez por tudo isso, ela era chamada de vadia e megera pelos colegas de trabalho, seus subordinados.

Questão Tostines: ela era apupada pelos colegas pelo fato de ser mulher, chefe, rica e bem sucedida profisionalmente, ou simplesmente por ser arrogante? Não é exatamente uma questão Tostines, mas é a questão fundamental.


vende mais porque é fresquinho?

Porque tão dizendo por aí que A Proposta é misógino, que todos odeiam a Sandra Bullock porque ela é chefe E mulher, que é como se os roteiristas dissessem “olha, mulherada, quem quiser ascender profissionalmente e abdicar de maridos, filhos, lares e essas coisas todas tão femininas, vai acabar assim como a Sandra mal-amada e turrona, odiada por todos, sem vida pessoal e infeliz”. Quase como a história de ir ficar pra titia, versão moderna e workaholic.

Mas eu não sei. Passei o filme rindo demais de (quase) todas as piadas, porque entrei ali com a despretensiosa missão de me divertir, sabendo que não seria um filme que me ensinaria coisas sérias ou que me pudesse fazer tomar algum posicionamento. E saí leve, com a sensação de que nada tinha acontecido. Aí me vem a Lola Aronovich, feminista que eu respeito muito, dizer que fui alvo de uma caralhada de coisas machistas que eu nem percebi.

E eu acho que é MUITO, mas MUITO fácil nos ensinarem coisas feias e depreciativas sem a gente perceber. É assim que funciona com o racismo. Porque eu passei minha infância toda e parte da minha adolescência sendo alvo de pedagogia racista que eu SEQUER suspeitava que me atacava, mas atacava e deixou marcas profundas, inapagáveis talvez. Não vou ser bobo de achar que com o discurso machista é diferente. Deve ser negocinho silencioso e eficaz, que a gente nem percebe e acha graça, naturaliza.

Mas na verdade, desse filme especificamente, eu não posso falar muito. Não de possível misóginia do roteiro. A única coisa que realmente me incomodou foi o dançarino de strip-tease LATINO, sendo mote de piada simplesmente por EXISTIR, por ESTAR ALI, vivendo junto com os americanos normais, mostrando que numa sociedade anglo-saxã, um latino só serve mesmo pra fazer o papel do ridículo bobo da corte, o café-com-leite.

Eu acuso o filme disso, mas de misoginia não, até porque o estereótipo que a Sandra cumpre só é inaceitável pelos outros porque ela é arrogante, antipática, insensível, tudo de ruim. Não por ser rica, chefe E mulher. Foi a impressão que eu tive. (Não que ser rica, chefe E mulher, no mundo real machista, não seja motivo pra muitas serem odiadas, atacadas, vilipendiadas, covidadas a fazer sexo para resolver seus imagináveis problemas etc)

Eu só queria fechar o raciocínio dizendo que. Minha parceira de pipoca, para ficar ainda mais linda do que já deve ser, chegou 15 minutos atrasada ao cinema, porque ficou ajeitando o cabelo, escolhendo a melhor roupa, borrifando perfumes, se olhando no espelho, essas coisas que as mulheres fazem e os homens fazem ou dizem fazer menos porque foram ensinados. E, pra justificar o atraso (que nos custou um bom lugar na plateia), usou toda sua articulação pra sacar alguma piadinha inteligente sobre gênero, tempo e o corre-corre da modernidade. E eu fiquei feliz e satisfeito, e desfiz o bico de macho-alfa-contrariado que já se formava no meu rosto, por eu ter ficado 15 minutos esperando contra a minha vontade.

Ela também ficou feliz com o filme, e todos viveram felizes para sempre (até segunda ordem) como numa boa e genérica comédia romântica.

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