Falando no celular…

29 agosto, 2009 at 02:18 (Uncategorized)

Eu entrei no ônibus e o rapaz já tava falando. Olhando rápido, ele falava sozinho, um louco moderno de capuz e boné. Olhando um pouco mais, dava-se crédito à razão: se via um celular, desses pequenos, escondido entre a orelha e o cabelo. Falava com uma moça, escondida do outro lado da linha.

(Fala-se de linhas, apesar de os celulares, por imperativo de sua natureza, terem-nas aposentado há muito tempo).

Que era moça eu ainda não sabia, soube depois. No começo, era apenas um cara falando coisas ao telefone, coisas que é estranho a gente falar ao telefone, por exemplo: Vou abrir a janela que tá calor, peraí. Tá muito engarrafada a rua, pensei que o ônibus fosse cortar caminho. É, tá meio nublado, será que vai chover? etc.


ahn?

(Parênteses para quem é de outro planeta, tempo ou não usa celular: conversas intermediadas pelo dito aparelho obedecem a uma lógica diferente: a etiqueta pede que sejam curtas, sintéticas e precisas; banalidades, portanto, devem ser evitadas. A razão é que, quanto mais se fala, mais se paga, e em geral, não se paga pouco. Ver alguém debatendo o sexo dos anjos ao celular, em plena luz do dia, no banco de um coletivo, é uma sutil quebra de expectativa a que não estamos, terráqueos, acostumados)

Resolvi sentar logo atrás do cara de maneira a tentar perceber aquela conversa desinteressante. Como um diálogo de verdade, aquele alternava momentos em que o interlocutor daqui apenas assentia, e momentos em que ele tecia comentários sobre a vida, a que a interlocutora invisível provavelmente prestava sua anuência. Às vezes debatiam, discordavam, brigavam consigo pra não discutir com o outro. Um homem sentou ao lado dele, e ele baixou o tom de voz, como se a preservar sua intimidade. O homem saiu, e ele ficou mais à vontade. Esticou o braço sobre o banco e tudo. Tudo dava sono, até que aconteceu.

O cara tirou o telefone da orelha e olhou pela janela. Pareceu sorrir, embora a única parte do corpo dele que eu via – a nuca – não pudesse sinalizar com certeza. Falou baixo coisas que eu não entendi, ajeitou a camisa, abotoou o penúltimo botão perto da gola. Ficou em silêncio com o telefone em riste. A mulher finalmente chegou, cruzou a roleta, telefone numa mão, bolsa na outra, meio emperiquitada. Sentou perto do cara, ombro a ombro, ambos disseram tchau ao aparelho.

E passaram o resto da viagem em silêncio mudo.

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Alguma reflexão sobre relacionamentos (fechados ou abertos).

25 agosto, 2009 at 17:21 (Uncategorized)

Ana Maria ama Alexandre mais que tudo nessa vida. Eles se conheceram há muito tempo e têm certeza que querem ficar juntos por mais tempo ainda, quem sabe pra sempre. De repente, Ana Maria conheceu um cara que tinha uma moto, mais velho, mais bonito, cheio de sacadas inteligentes, de uma arrogância encantadora, em quase tudo diferente de Alexandre. Ana Maria continuou amando muito Alexandre, mas sentiu vontade de ser beijada pelo Cara da Moto, porque era ele quem fazia o coração dela querer sair pela boca, e suas pernas suarem. Como ela mantem um namoro convencional com o Alexandre, Ana Maria se viu numa encruzilhada.

Caminho à direita.

Ana Maria pode pegar o caminho à direita, que significa subir na garupa do Cara da Moto, abraçá-lo forte pela cintura, sentir aquele ventinho de aventura no rosto, viver, enfim, uma paixão sem prazo de validade, sem culpa ou remorso. Uma coisa que ela sempre quis, e que o Alexandre não pode dar, porque o Alexandre é diferente do Cara da Moto em quase tudo. É uma escolha legítima, que vai trazer, a curto prazo, grande felicidade à Ana Maria. E o Alexandre, que ama muito a Ana Maria, não pode se transformar num obstáculo à felicidade dela. Mas pegar o caminho da direita implica em deixar o Alexandre comendo poeira na encruzilhada.

Caminho à esquerda.

Ana Maria pode sufocar seus desejos pelo Cara da Moto, em nome de seu amor maior por Alexandre. Nesse caso, ela se convence que não ama o Motoqueiro como ama o Alexandre, e não valeria a pena trocar uma aventura passional pela possibilidade de nunca mais ter o cara da sua vida. É uma escolha legítima: Ana Maria estaria trocando uma felicidade de curto prazo com o Motoqueiro, pela estabilidade do amor Alexandrino, o homem que ela apresentou pra mãe, seu príncipe sobre o cavalo branco, o pai que ela quer pros seus filhos, etc. Esse caminho implica em mandar o Cara da Moto pastar em outras freguesias e Ana Maria ficar com uma pergunta insistente na cabeça: “como seria se fosse?”.

You can’t have your cake and eat it.

Já ficou claro que Ana Maria precisa colocar as pessoas e os sentimentos numa balança. A partir dessa medição de valores, tomar uma decisão que, automaticamente, exclui a possibilidade de ter a coisa oposta. Como diz um ditado inglês: você não pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. OU você tem o bolo, OU você o come. OU Alexandre, OU o Motoqueiro.

Existe, como sempre, o caminho do meio. A pior coisa que Ana Maria pode fazer é tomar o caminho do meio. Pelo caminho do meio, ela ignora o problema que há na existência mútua de Alexandre e do Motoqueiro em sua vida, e passa a ter o que cada um tem de melhor. Em palavras pobres, Ana Maria trairia o Alexandre com o Cara da Moto, teria a aventura de um e a estabilidade do outro ao mesmo tempo. Claro que o Alexandre não poderá saber disso e Ana Maria, se for uma pessoa boa, terá muita dificuldade em conviver com a própria consciência a partir de então.

O imperativo ético: contar a verdade a quem merece sabê-la.

Tomar o caminho da direita ou o da esquerda é uma decisão baseada num imperativo ético: Ana Maria ama Alexandre e se importa muito com os sentimentos dele, qualquer decisão que ela tomar levará em conta também o que ele, Alexandre, achará disso tudo. Como vivem numa relação a dois, o que os dois esperam é que tudo que afete a vida de ambos seja compartilhado. Portanto, se quiser ser justa, ser quiser manter a fidelidade que deve a Alexandre, Ana Maria precisa contar a ele tudo que anda acontecendo. Inclusive, o que ela sente pelo Cara da Moto. Por isso que tomar o caminho do meio, que implica em esconder a verdade do Alexandre, que ela respeita tanto, é a pior coisa a fazer (apesar de ser o caminho quea maioria, na situação de Ana Maria, resolve tomar). Vai ser duro para Alexandre ouvir que existe o Cara da Moto? Sem dúvida. Mas vai ser pior ainda ele não saber logo, da boca dela, e saber depois, e viver com a sensação de que Ana Maria, algum dia, o enganou. A confiança se esvai. E confiança não se conquista fácil de novo.

Fidelidade x Exclusividade.

Quando duas pessoas têm uma relação afetivo-amorosa de compromisso (evitarei o “namoro” da terminologia corrente, que me parece um tanto limitadora), elas fazem um pacto, um acordo tácito: as partes só podem se envolver amorosamente entre si. O envolvimento sexo-emocional com terceiros é considerado, portanto, traição a esse pacto. A meu ver, porém, existe outro acordo que precede o da monogamia: o da fidelidade, que não quer dizer, necessariamente, exclusividade. Ser fiel significa, antes de qualquer coisa, ser sincero com o outro: abrir o jogo sempre que um assunto, por mais espinhoso que seja, incomode. Se Ana Maria ama Alexandre, mas sente atração pelo Motoqueiro a ponto de o querer para si, será fiel se contar ao namorado sobre essa atração.

Uma relação afetivo-amorosa não vive sem fidelidade. A fidelidade pressupõe tudo aquilo que nós esperamos das pessoas que estão mais perto da gente: compromisso, preocupação, cuidado, sensibilidade. O pacto da fidelidade é imprescindível a qualquer relação: você não quer conviver com alguém que mente ou omite sentimentos e atitudes de você. O pacto da exclusividade, no entanto, pode ser negociado. Eu digo pode, consciente de todas as ressalvas e cuidados que esse verbo sinaliza. Pode, num mundo ideal e hipotético, em que as pessoas são melhores do que são nesse mundo real, de carne, osso e grilos. Ainda não conheci uma relação feliz sem a obersvância do pacto de exclusividade, nem sei se eu conseguiria viver numa coisa louca dessa. A não-exclusividade significa, basicamente, que seu parceiro pode se envolver com outras pessoas, e você também, desde que vocês sejam fiéis a ponto de contarem para o outro que isso acontece. (E que recebam a anuência do outro quanto a isso, obviamente)

Voltando ao nosso triângulo amoroso. Ana Maria pode escolher ficar com um OU com outro, desde que conte ao namorado tudo que está acontecendo. É direito dele saber. É direito dele ser sujeito do próprio sofrimento. Deixá-lo à margem é torná-lo agente passivo dos acontecimentos. É quebrar o necessário pacto da fidelidade, sem o qual, nenhuma relação é feliz.

A alternativa.

Também é legítimo da parte do Alexandre conceder à Ana Maria uma alternativa: se aventurar com o Motoqueiro (e quebrar o pacto da exclusividade) e, MESMO ASSIM, manter a relação com o Alexandre (já que, abrindo o jogo, ela não rompe o imprescindível pacto da fidelidade). Ou seja, Ana Maria teria os dois e saberia exatamente qual é o papel de cada um em sua vida. Eu acho isso muito, mas muito difícil de acontecer, mas é ainda uma opção, que eu considero bastante válida. Ana Maria viveria a aventura com o Motoqueiro sem perder de vista que o amor da vida dela é o Alexandre. E por que não? Há que se considerar essa alternativa. Muitas bobagens que só atrapalham a vida na Terra teriam, claro, que ser rediscutidas e elaboradas, como ciúmes, excesso de orgulho, baixa auto-estima, etc. E pra quê estamos aqui se não pra aprender a ser melhor?

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pseudo-literatura explícita, perdões.

23 agosto, 2009 at 04:04 (Uncategorized)

No espelho a superficie dura de uma tragédia. A mulher tentou se posicionar até perceber que a luz não era adequada, ajeitou a lâmpada em forma de pêra luminosa sobre os seus cabelos e passou a penteá-los com um pente alguns anos desdentado. Não eram tantos os cabelos, menos ainda a necessidade de se embelezar. O espelho era companheiro discreto: jamais revelaria o segredo que ela escondia. Passou uma, duas vezes, da raiz às pontas duplas, triplas, ressecadas, ressentidas. As sombras da mão ossuda, e dos dedos dela, arranhavam a parede, arranhavam a cortina e a porta do armário.

Aí ela largou o pente velho e pegou uma escovinha, no criado mudo que abriu a boca, mas permaneceu em silêncio confidente. Escovinha pequena, dessas de pentear boneca, pendurada pela pinça dos dedos, carinhou com cuidado aquele bigode espesso, cor de noite, com um ou outro fiozinho branco. Que ela, cuidadosamente e resignamente, escondeu por trás dos irmãos morenos. Esfregou uma, duas, três vezes, quantas fossem necessárias para deixar tudo em ordem. Faina finda, manuseou a lâmpada para ver melhor a obra: cabelos, bigodes, todos os pêlos do rosto em cuidadosa harmonia. Era uma mulher respeitável afinal.

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Comédia romântica é coisa séria.

17 agosto, 2009 at 03:52 (Uncategorized)


Sandra ameaçando Ryan de casamento.

Assisti à Proposta ao lado de uma mulher linda, inteligente, articulada, dona de dois estágios e uma monografia por fazer, que vai se formar com 21 anos e, aparentemente, não deve nada a ninguém. Antes disso, ela já tinha me dito que os afazeres acadêmicos desse último semestre a obrigavam a abandonar algumas outras atividades mais… lúdicas. O que, naturalmente, não a impediu de permanecer linda, inteligente e articulada.

Mais ou menos como a Sandra Bullock, protagonista da Proposta, cuja personagem apesar de linda, inteligente e articulada, não conseguia ter uma vida social, amigos, namorados, tampouco simpatia nem vontade de dar bom dia às pessoas que cruzavam seu caminho. Talvez por tudo isso, ela era chamada de vadia e megera pelos colegas de trabalho, seus subordinados.

Questão Tostines: ela era apupada pelos colegas pelo fato de ser mulher, chefe, rica e bem sucedida profisionalmente, ou simplesmente por ser arrogante? Não é exatamente uma questão Tostines, mas é a questão fundamental.


vende mais porque é fresquinho?

Porque tão dizendo por aí que A Proposta é misógino, que todos odeiam a Sandra Bullock porque ela é chefe E mulher, que é como se os roteiristas dissessem “olha, mulherada, quem quiser ascender profissionalmente e abdicar de maridos, filhos, lares e essas coisas todas tão femininas, vai acabar assim como a Sandra mal-amada e turrona, odiada por todos, sem vida pessoal e infeliz”. Quase como a história de ir ficar pra titia, versão moderna e workaholic.

Mas eu não sei. Passei o filme rindo demais de (quase) todas as piadas, porque entrei ali com a despretensiosa missão de me divertir, sabendo que não seria um filme que me ensinaria coisas sérias ou que me pudesse fazer tomar algum posicionamento. E saí leve, com a sensação de que nada tinha acontecido. Aí me vem a Lola Aronovich, feminista que eu respeito muito, dizer que fui alvo de uma caralhada de coisas machistas que eu nem percebi.

E eu acho que é MUITO, mas MUITO fácil nos ensinarem coisas feias e depreciativas sem a gente perceber. É assim que funciona com o racismo. Porque eu passei minha infância toda e parte da minha adolescência sendo alvo de pedagogia racista que eu SEQUER suspeitava que me atacava, mas atacava e deixou marcas profundas, inapagáveis talvez. Não vou ser bobo de achar que com o discurso machista é diferente. Deve ser negocinho silencioso e eficaz, que a gente nem percebe e acha graça, naturaliza.

Mas na verdade, desse filme especificamente, eu não posso falar muito. Não de possível misóginia do roteiro. A única coisa que realmente me incomodou foi o dançarino de strip-tease LATINO, sendo mote de piada simplesmente por EXISTIR, por ESTAR ALI, vivendo junto com os americanos normais, mostrando que numa sociedade anglo-saxã, um latino só serve mesmo pra fazer o papel do ridículo bobo da corte, o café-com-leite.

Eu acuso o filme disso, mas de misoginia não, até porque o estereótipo que a Sandra cumpre só é inaceitável pelos outros porque ela é arrogante, antipática, insensível, tudo de ruim. Não por ser rica, chefe E mulher. Foi a impressão que eu tive. (Não que ser rica, chefe E mulher, no mundo real machista, não seja motivo pra muitas serem odiadas, atacadas, vilipendiadas, covidadas a fazer sexo para resolver seus imagináveis problemas etc)

Eu só queria fechar o raciocínio dizendo que. Minha parceira de pipoca, para ficar ainda mais linda do que já deve ser, chegou 15 minutos atrasada ao cinema, porque ficou ajeitando o cabelo, escolhendo a melhor roupa, borrifando perfumes, se olhando no espelho, essas coisas que as mulheres fazem e os homens fazem ou dizem fazer menos porque foram ensinados. E, pra justificar o atraso (que nos custou um bom lugar na plateia), usou toda sua articulação pra sacar alguma piadinha inteligente sobre gênero, tempo e o corre-corre da modernidade. E eu fiquei feliz e satisfeito, e desfiz o bico de macho-alfa-contrariado que já se formava no meu rosto, por eu ter ficado 15 minutos esperando contra a minha vontade.

Ela também ficou feliz com o filme, e todos viveram felizes para sempre (até segunda ordem) como numa boa e genérica comédia romântica.

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Danilo Gentili, do CQC, explica que ser racista é legal.

6 agosto, 2009 at 05:48 (Uncategorized)

Só não façam piadas sobre idiotas que aí eu me ofendo.
Só não façam piadas sobre idiotas que aí eu me ofendo.

Danilo Gentili é descendente de italianos, branco, classe-média, famoso, profissionalmente bem sucedido. Ele provavelmente não teve oportunidade de ser vítima de preconceito, ao longo de sua vida. Por ser humorista, ele acha que o riso deve estar acima de qualquer coisa. O mesmo que acham os jornalistas da liberdade de expressão, os publicitários da de criação etc. Pra fazer rir, vale tudo. Até ser racista. Ele escreveu um texto ironizando a questão racial no Brasil, um assunto que eu, e tanta gente mais séria que ele, achamos fundamental. Pior: foi previsível, como geralmente são os racistas que bradam contra o que eles chamam de “patrulha do politicamente correto”. Porque agora, dizem os racistas, o legal é ser politicamente incorreto, falar o que quiser, ofender as minorias, fazer pouco dos oprimidos. Com as palavras, como se as palavras não machucassem, como se fossem inofensivas. Ora bolas, nós que lidamos com palavras, sabemos o poder que elas têm. Para o bem e para o mal. Já o Danilo Gentili acha que o humor dele é mais importante que tudo, que fazer piada sobre a condição do negro não é reproduzir o preconceito ancestral contra essas pessoas. É só ser engraçado. E ser engraçado é o que há. Porque se é piada, tá valendo, não é sério mesmo.

Lá no textinho, o humorista, além de demonstrar toda sua ingenuidade, desfila aqueles velhos argumentos que nós já estamos cansados de rebater:

1) que não existem raças, logo classificar as pessoas por raças é racismo
(e o incrível desdobramento disso: negros não deviam se ofender quando comparados a macacos).

Eu já disse isso. Biologicamente não existem raças. Socialmente, ou seja, no mundo real em que eu e vc vivemos, existem, e são classificadas em escalas hierárquicas, em que o negro está quase sempre subordinado ao branco. Ignorar essa hierarquia e essa desigualdade é justamente o que pretende o “racismo à brasileira”: se negar para se perpetuar. Somos todos humanos, dizem seus ideólogos, não existem raças, quem fala de raça, quem se entende parte de uma (no nosso caso, a negra) é racista. (diz Gentili: Se você me disser que é da raça negra preciso dizer que você tambem é racista) Esse discurso pretende tornar a questão da raça uma não-questão e botar a culpa do problema na vítima. E nós, que não gostamos de nos calar, somos vistos como  racistas, por sempre trazermos à tona esses problemas. Como hoje em dia é feio parecer racista, usa-se o humor para perpetuar a ideia de que, ora bolas, essa galera que fica aí acusando preconceito, se fazendo de vítima, reclamando de racismo, são eles os próprios racistas. Porque todo mundo sabe que chamar um negro de macaco é pejorativo, remetemo-nos ao tempo em que se negava condição humana ao negro, que assemelhavam-no a um “ser inferior”. Mas o Gentili não, quer pagar de legal, de politicamente incorreto, e fica fazendo piadinha dizendo que, SE FOSSE COM ELE, adoraria ser chamado de macaco. Mas, oi, não é com vc. Sorte sua. Você provavelmente não teve que lidar com problemas de auto-estima por causa da cor da sua pele, e de seus traços físicos. Problemas que não decorrem necessariamente da cor e dos traços em si, mas do julgamento que o mundo faz deles. Porque, alô, traços negróides tão num nível inferior na escala estética ocidental. São quase os mesmos traços do macaco, segundo o senso comum. E é muito daí que vem a comparação entre os negros e os símios. Ignorar isso é desonestidade intelectual, ou falta de intelecto, não sei o que é pior.

2) não há problema em chamar um preto de preto.

É feio se fazer de desentendido. É claro, óbvio e evidente que existe uma diferença abissal entre as palavras preto e negro. Uma rápida consulta à gramática mais próxima sobre sentidos conotativo e denotativo talvez resolva o problema. Preto foi, é, e pelo visto, sempre será usado num sentido pejorativo, em geral com vistas a ofender ou demonstrar uma valoração inferior ao que tá em volta da palavra. “Preto safado”, “coisa de preto”, “preto de merda” etc reforçam a ideia. Negro não, é mais neutro, não traz consigo a carga ofensiva que seu sinônimo carrega. Ora porra, não é um problema com as palavras em si, mas em como elas foram e são usadas ao longo da história. A escolha de preto ou negro nos diz muito sobre o sentido que o falante quis empregar no enunciado. E eu me sinto um idiota explicando isso a um brasileiro, a alguém que convive com essas palavras desde sempre, que sabe, com toda a clareza que elas são muito mamuito diferentes, que dizem coisas diferentes. E que não são apenas palavras, como piadas não são apenas piadas. Tudo isso tá carregado de conteúdo simbólico, muitas vezes preconceitos que, travestidos do riso e de “simples palavras” se reproduzem e não são questionados.

3) ser politicamente correto é ser imbecil e superficial.

E eu acho que devem ser questionados sim, evitados e combatidos. Eu acho que as palavras e atitudes nossas devem sim ser politicamente corretas. E por que não seriam? Pensar sobre as palavras que usamos e deixar de usá-las se não forem adequadas é louvável, é hábito que devemos cultivar. Se rimos da piada racista, homofóbica e discriminatória é porque carregamos em nós um pouco desse conteúdo nefasto. Conscientemente é difícil perceber isso, principalmente se fazemos parte do outro lado, dos que não sofrem com o preconceito na pele. E aí “politicamente correto” vira coisa de maluco, de gente preciosista que não tem nada o que fazer e fica enchendo o saco. Mas da feita que nos colocamos no lugar do outro, no lugar do ofendido, passamos a perceber a carga destruidora que uma simples piada pode ter na vida de alguém. Porque é feio ficar fazendo piadinha com o sofrimento alheio.

Por fim, a observação do seu Gentili no final do post racista:
Antes que diga “Não devemos fazer piadas com negros, nem com gordos, nem com gays, nem com ninguém” Te digo: “Pode colocar meu nome aí nas páginas brancas da sua lista negra, mas te acho chato pra caralho”.

Claro, porque fazer piada com negros, gordos e gays é só uma brincadeira inofensiva né? Quem não gosta disso é só “chato pra caralho”. Quem vive da reprodução do preconceito é que é legal, porque se furta ao debate e ainda fica repetindo asneiras em rede nacional e recebendo aplausos. Impunemente. Que tal perguntar pros negros, pros gordos e pros gays o que eles acham das piadas? Não né? Na plateia do circo nunca estão os parentes do elefante que se equilibra ridicularmente nas tábuas e esferas. Engraçados são os outros.

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