Quando não se sabe articular palavras, articulam-se os músculos.

3 junho, 2009 at 06:38 (Uncategorized)

Professor de jonalismo é agredido por parentes do vice-governador do Amazonas. Motivo: estava dando aula. Quando você não conseguir rebater um argumento, use a força física, diz a cartilha de políticos truculentos.

Gilson Monteiro é professor do curso de Jornalismo e estava dando sua aula ordinária quando uma de suas alunas se levanta, dirige algumas palavras indignadas a ele e sai, batendo a porta. Minutos depois entram no auditório a aluna, Samara Aziz, e mais dois homens, Mansur e Amin Aziz. Um dos homens pergunta: “Você é o professor dessa disciplina?”. Sim, responde Gilson. Foi uma senha. Imediatamente, o homem avança contra Gilson e desfere-lhe um murro no rosto. O professor cai. O agressor então começa a chutá-lo e aplica mais dois socos. Os alunos esboçam uma reação, se dirigem ao professor que tenta se defender. Mas o outro homem olha para eles e faz um sinal para que não se movimentem, ou também serão alvo de violência.

Antes de sair, Amim Aziz aponta o professor com o indicador, levanta o polegar e dispara um revólver imaginário. “Estou marcado para morrer”, diria o professor depois. “Pela forma como me olhou, Aziz teria descarregado completamente a arma em mim.” Samara Aziz, a aluna que se sentiu ofendida pela aula de Gilson e ligou para seus pai e tio para que resolvessem a situação, escreveria depois, comentando sobre o caso: “respeito é bom e mantém os dentes no lugar”.

A cena é real. Aconteceu no dia 11 de maio de 2009 no auditório Rio Negro da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), durante aula da disciplina Tópicos Especiais de Jornalismo I, para uma turma de calouros. O professor doutor Gilson Monteiro, que é também coordenador do curso de Comunicação Social e já foi candidato a reitor da UFAM, falava sobre a cobertura jornalística de escândalos políticos, que movida por interesses, acaba informando à sociedade menos do que deveria. Para ilustrar seu ponto, citou o caso do vice-governador do Amazonas Omar Aziz (à época, do PFL) que teve seu nome retirado de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigava exploração sexual de menores, por pressão de aliados políticos.

O caso ocorreu em 2004. A relatora da CPMI, deputada Maria do Rosário (PT-RS) arrolou diversos nomes de políticos envolvidos em casos de pedofilia, incluindo o do vice-governador Omar Aziz. O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), no entanto, convencido da inocência do conterrâneo pediu para que seu nome fosse tirado da lista de envolvidos. Foi feita uma votação. E por um voto, o de minerva, dado pelo senador Nei Suassuna (PMDB-PB), o nome de Omar Aziz foi retirado do relatório da CPMI. Nesta ata, de 7 de julho de 2004, é possível conferir que o senador Arthur Virgílio efetivamente pediu a retirada do nome de Aziz, no que foi atendido por seus nobres colegas.

Gilson Monteiro, portanto, não dizia mentira alguma, tampouco ofendia a honra de ninguém. Mas ele não sabia que Samara Aziz, sobrinha do vice-governador, assistia sua aula. Indignada, a moça de 17 anos, levantou-se e chamou os parentes para defender a honra da família. A truculência dos irmão do governador invadiu uma universidade federal e agrediu um funcionário público no exercício de sua profissão. Gilson Monteiro comunicou a reitoria sobre o acontecido, registrou queixa na Polícia Federal e fez exame de corpo de delito. Sente-se ameaçado. “Só espero que a Polícia Militar (do Governador) garanta minha integridade física e dos meus filhos. Caso sofra algum atentado daqui para a frente não tenho dúvidas de que, se não foi a mando, foi um ato do meu agressor, irmão do vice-governador do Estado”.

As justificativas.

Com a cabeça fria, Amim Aziz se desculpou e se disse arrependido: “Eu fiz uma coisa errada. Até peço desculpas. Ela é minha sobrinha e crio ela desde criança. Era seu primeiro dia de aula na UFAM. O sonho dela era fazer jornalismo na universidade federal. Perdi a cabeça sem querer. Cometi um grave erro ao ter entrado lá.”

Em coletiva de impresa, o vice-governador, agora filiado ao PMN (Partido da Mobilização Nacional) condenou a atitude do irmão: “O Amin cometeu um ato irracional e condenável e vai responder por isso”. No entanto, o político prometeu processar Gilson por ter dito que seu nome foi retirado do relatório da CPMI por pressão política.

Consequências.

Samara Aziz começou mal sua carreira no jornalismo. Logo na primeira aula, por uma atitude impensada e infantil, se transformou em alvo do repúdio de seus colegas e de pessoas que nem a conhecem. Uma pesquisa por seu nome no Orkut resulta em comunidades como “Porrada na Samara Aziz”, em que os membros planejam formas de receber a estudante quando de sua volta às atividades universitárias. Além de xingamentos, piadas de mau gosto e protestos, os alunos da UFAM sugerem um corredor polonês para receber a moça. Em vão. Segundo informações de usuário do próprio Orkut, Samara já estaria em outra faculdade, privada, cursando Direito. Tanto melhor para ela. Com um início de carreira como esse, seria difícil desvincular seu nome dessa história absurda.

Mas nem tão absurda. Agressões a jornalistas, infelizmente, já se tornaram até comuns em lugares tão provincianos como a Amazônia. É impossível não relacionar a violência dos Aziz à dos Maiorana contra Lúcio Flávio Pinto, em 2005, em Belém. O jornalista, editor do Jornal Pessoal, publicara um artigo em que dizia que o poder dos Maiorana era maior até que o do Governo do Pará. E que os veículos de mídia pertecentes à família eram usados como um balcão de negócios, a serviço de seus interesse. A resposta veio, como se sabe, em forma de socos e pontapés. Lúcio Flávio foi ousado e pagou com sangue. Gilson Monteiro disse muito menos que isso e teve o mesmo tratamento.

Alguns links.

da Folha de São Paulo
do Portal da MTV
da Revista O Avesso
do blog de Gilson Monteiro, em que o professor comenta o caso.
do blog o Malfazejo, comentando que não foi a primeira vez que Omar Aziz esteve envolvido com caso de cerceamento de liberdade de expressão através de truculência.
da Agência Câmara, sobre a CPMI da Exploração Sexual de Menores e o pedido de Virgílio.

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4 Comentários

  1. Anônimo said,

    cara aconteçe isso mes
    mo

  2. Alan said,

    O Tribunal de Justiça do Estado do Pará condenou hoje o jornalista Lúcio Flávio Pinto a pagar aos irmãos Ronaldo e Romulo Maiorana a indenização de 30 mil reais, por danos morais, em uma das quatro ações indenizatórias que os irmãos movem contra o jornalista, depois da publicação de artigos no Jornal Pessoal, em 2005, a respeito da trajetória do pai deles, o empresário Romulo Maiorana. Além da multa, a Justiça acatou o pedido dos irmãos de não terem mais seu nome veiculado no Jornal Pessoal.
    7 de julho de 2009 / QUE PAÍS É ESSE? O agredido foi condenado…

  3. nilton de souza moraes said,

    itapeba

  4. nilton de souza moraes said,

    maricá terra querida sou feliz porque te amo

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