Às favas com o respeito à opinião alheia.

29 maio, 2009 at 03:19 (Uncategorized)

Porque tem hora que cansa né. O cara defeca pelos dedos, escreve num tom de quem espera receber um Nobel, teoriza sobre o brilho da supernova e não sabe diferenciar uma anã branca de outra vermelha. Em tempos de Google e Wikipedia? Informação a um clique de distância, e o cara se permite publicar merda na internet. Num veículo que a gente tá levando a sério. Todo mundo percebe a imensa cagada. Mas os mais velhos olham pro sujeito, como se ele tivesse feito alguma tolice, passam a mão na cabeça dele e dizem: “Olha, tão bonitinho ele jogando a papinha no ventilador!”

Aí eu mando se foder, né. Internamente. Porque como eu sou um cara muito educado, escrevo e publico apenas: “Olha, sei não, mas isso aí é um monte de BOBAGEM, acho que não é bem assim”. Tá. Eu fui um pouco mais irônico que isso. Mas foi porque eu escrevi “bobagem”, ó horror dos horrores. Eu disse que um argumento bobo era.. bobo. E aí todo mundo me olhou como se eu tivesse cuspido na cara da minha mãe. Porque aparentemente não respeitar a opinião dos outros, mesmo que ela seja a mais idiota possível, é a coisa mais feia que alguém pode fazer nessa vida. É quase como mijar no altar de um templo no meio da celebração de um ritual. “Mais respeito com a opinião dele, seu imundo”, gritam os sacerdotes o seu dogma.

Depois ninguém entende porque todo mundo odeia jornalista. É muito simples. O cara passa a vida toda estudando a dinâmica dos corpos celestes, dialoga com Newton, Copérnico, Galileu, Kepler e daí pra cima. Escreve teses, apresenta trabalhos, faz experiências, critica, é criticado, produz conhecimento. Aí vem o jornalistazinho, pesquisa sobre o mesmo assunto durante dois dias, dialoga com Google, Wikipedia, Superinteressante e escreve um texto contrariando tudo o que o especialista já disse sobre a dinâmica dos corpos celestes. E é mais lido. E fala como se tivesse absoluta certeza. E sequer LEVA EM CONSIDERAÇÃO que tenha gente mais gabaritada que ele pra falar daquilo. Aí é de foder, né.

Não dá pra confiar em (mau) jornalista não. Menos ainda em projeto de jornalista que já começa com os vícios e a arrogância da profissão. Porque, porra, se tu vai falar que pedras e aerolitos são a mesma coisa, primeiro tem que perguntar pro Seu Madruga o que ele acha sobre assunto. E não pode escrever sobre pedras e aerolitos ignorando a existência de gente como o Seu Madrugado que têm o estudo sobre esse tema como profissão. Aí o cara que fala a merda vem usar o discurso da liberdade de expressão e do respeito à opinião contrária como maquiagem da própria preguiça e preconceito sobre o tema. Como se falar bobagem em público fosse direito de jornalista no exercício do metiér.

Respeito é bom e todo mundo gosta. Mas ninguém fala o que quer impunemente. Antes de pedir respeito, bora respeitar quem já acumulou mais conhecimento que nós. Bora respeitar o leitor, que não é besta de não saber identificar um texto sem aprumo e cheio de preconceitos. Bora respeitar o assunto de que a gente está tratando, que é sempre mais complexo do que a gente pensa. E acima de tudo bora respeitar a própria inteligência, né. Eu confio de que conseguiremos ser grandes, um dia.

Mas quem ficar de preconceitozinho intelectual, quem tiver preguiça de pesquisar sobre o assunto abordado, ou não souber ouvir críticas boas ou más, guarde desde já meu desrespeito acadêmico e jornalístico. Não vale a poeira que se esconde nesse teclado.


como a roupa do rei, a motivação desse texto só os inteligentes (e os privilegiados) podem ver.

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Como alimentar os filhos do seu flanelinha e barão do petróleo preferidos.

12 maio, 2009 at 01:04 (Uncategorized)

Praticamente todo proprietário de carro que eu conheço reclama de flanelinhas. Alguns até os odeiam. Argumentam que, além de terem comprado o carro, pagado todos os impostos anualmente, comprarem combustível a preços cada vez mais altos, gastarem rios de dinheiro na manutenção sempre necessária por causa das ruas esburacadas, ainda devem uma taxa arbitrária aos “donos do meio fio”, que é como se referem aos trabalhadores que vivem como guarda-carros. E ai deles se não pagarem. Corre-se o risco de ter a lataria da carranca arranhada ou coisa pior. É quase um consenso que ter carro hoje em dia no Brasil é caro e que a culpa toda é do governo, com sua sanha por impostos e deszelo com as questões referentes ao transporte (público ou privado).

Essa semana fui atacado por um spam em forma de corrente conclamando a classe média a boicotar a Petrobrás. Mostravam-se dados (sem fontes) do preço da gasolina em países da América Latina, onde o Brasil desponta como o-mais-caro-de-todos-ever, a despeito de ser auto-suficiente na produção de petróleo. Como a maquiavélica Petrobrás só quer lucrar a custa de nós, ó pobre povo brasileiro, deveríamos nos unir e mostrar nossa força contra a arbitrariedade dos preços altos. Dizia o e-mail bocó que a estratégia, se massificada, reduziria os preços dos combustíveis em todo o país, haja vista que os postos BR, sentindo no bolso a retração em suas bombas, reduziriam o preço do combustível, forçando uma queda de preços generalizada, segundo as leis de mercado. A missiva concluia, em tom de quem está prestes a ganhar um Nobel, que se o receptor reenviasse a mensagem pra 30 amiguinhos e estes pra mais 30, e assim sucessivamente, todos os problemas de quem tem carro nesse Brasilzão estariam praticamente resolvidos. Afinal, o povo unido é gente pra c*ralho.

Eu acho que sequer passou pela cabeça de quem propôs essa ideia de jerico que a alta dos preços da gasolina pode estar associada a outras causas, que não a ganância dos porcos capitalistas petrolíferos. Por exemplo, o fato de que já se tornou parte da identidade do brasileiro médio o desejo de ter um carro. Alguns podem, a maioria não. Os que podem aprendem desde cedo: “Meu filho na nossa vida é assim: a gente nasce, cresce, tem um carro, se reproduz e morre, tá?”. Aos que não podem, resta a esperança de um dia ter dinheiro e poder comprar. Porque andar de ônibus, deus me livre, é ruim, incômodo, demorado, ineficiente.

Mas é barato. MUITO mais barato. Uma pesquisa da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTT) já confirmou, em setembro de 2008, que no Brasil andar de ônibus é infinitamente mais barato que andar de carro. R$1,96 é o que se gasta, em média, pra andar 7 Km de ônibus nas capitais brasileiras, enquanto o mesmo percurso pra quem vai de carro custa em média até R$4,84. Em Belém, cidade que eu conheço bem, andar de ônibus em 2008 era até mais barato que andar de moto, sempre considerado o modelo de economia no trânsito. Hoje, se houve reajuste nas tarifas do ônibus, também deve ter havido nas tarifas das motos e automóveis, o que torna a pesquisa ainda válida, principalmente pela distância abismal que existe entre os custos de um usuário de ônibus e os custos de um dono de carro. Porque a diferença entre os dois valores deve ser multiplicada pela frequência de uso dos veículos: quanto mais se usa, claro, mais se paga. Isso sem contar que a pesquisa da ANTT não leva em conta alguns “gastos extras” que quem tem carro precisa enfrentar: lavagem, flanelinhas, estacionamentos, vaga de garagem etc.

E o custo não é só do indivíduo que tem o carro. O custo é, sobretudo, social e ambiental. Mais carros significa, invariavelmente, mais poluição, maiores riscos de acidente (inclusive envolvendo quem não tem carro), trânsito caótico, barulho, estresse, queda na qualidade de vida da população como um todo. Pesquisas ao redor do mundo apontam, sem medo de errar: a solução para o trânsito das grande cidades está no transporte público eficiente. Na Europa, já deram um passo a frente: bicicletas, limpas, responsáveis e saudáveis já são os meios mais usados para determinadas distâncias. O resultado é que lá, além de cidades mais limpas e tranquilas, teremos em breve velinhos mais saudáveis, ciclistas. É claro, óbvio, evidente e cristalino que essa não é nossa realidade, e nem está perto de ser, tanto por falta de ciclovias nas ruas, quanto porque o transporte público não funciona como deveria. Mesmo Curitiba, considerada por muitos modelo de transporte público eficiente no Brasil, apresenta problemas apontados pelos usuários. É possível listar várias dificuldades enfrentados por quem depende de coletivos, seja trem, ônibus ou metrô, dependendo da cidade e da modalidade do transporte. Mesmo assim, arrisco dizer que na maioria das situações, para a maioria das pessoas, é possível, sim, substituir o carro pelo ônibus, nem que seja por um ou dois dias da sua semana. Muitas pessoas não fazem isso por alguns motivos:

1) Não veem necessidade, já que não entendem a relação entre os problemas da cidade e o seu pobre fusquinha envenenado.
2) Inércia. Aprenderam a se locomover com carro, se acomodaram, simplesmente não sabem qual ônibus pegar pra ir aos lugares e têm preguiça de aprender.
3) Medo da violência, esquecendo que dentro de um carro, e dependendo do carro, são tão ou mais alvos de assaltos e sequestros, que alguém sentado de bobeira no ônibus.
e o 4) que é o que eu mais gosto e talvez a causa primeira de tudo isso:

A mística do carro. Sim, há uma mística em torno dessa caixa de metal contorcido ambulante. Alimentada, entre outras coisa, pela mídia. Afinal, se “você é apaixonado por carro como todo brasileiro”, sabe disso. Se você foi adolescente e é homem, provavelmente já ouviu lamuriações como “se pelo menos eu tivesse um carro, teria chance com ela”., como se carros e mulheres estabelecessem uma relação direta de causa e efeito entre si. Se viveu a década de 90, ouviu a Ivete Sangalo cantar que se “quiser andar de carro velho, amor, que venha” pois andar a pé era lenha (sic). Se é mulher e tem um carro pra sair à noite com as amigas, provavelmente se sente independente e livre, completamente diferente da sua avó na sua idade, que tinha que pedir permissão pro marido até pra ir ali na esquina comprar absorvente. Se é homem, provavelmente sente o carro como uma extensão do seu pênis, algo que te deixa mais forte e invencível. Porque carro é sinônimo de liberdade, confere um status positivo. Porque quem tem um carro à sua disposição a qualquer hora do dia e da noite, acha que está exercendo melhor o seu direito de ir e vir do que quem tem que esperar o coletivo passar, lotado, sujo, devagar.

E realmente está. O problema é que essa liberdade vem da dependência a uma máquina que, como já vimos, custa caro, e muito. Para quem tem, para quem não tem, pro país e pro planeta. Ter e usar carro com frequência é um privilégio cruel. Mas quem está envolto nessa liberdade, também está, parodoxalmente, preso nela. Porque tem dificuldade de questioná-la, para perceber que seus hábitos podem ser revistos. Por isso que não me espantei, em momento algum, com o fato de que o autor do e-mail que recebi, querendo baixar o preço da gasolina, sequer pensou numa redução do consumo como um todo. Sequer pensou que o combustível tá caro porque tem muita gente comprando. E que a indústria não pensa em baixar o preço porque sabe que tem consumidores fiéis, que pagarão quanto for preciso pelo privilégio de ir ao trabalho no ar-condicionado, ouvindo música, em menos tempo. E que muito desse consumo é desnecessário e pode ser substituído por algumas passagens de ônibus ao longo da semana.

Reclamar dos preços todo mundo adora. Largar o carro, ninguém quer. Concessionárias, donos de postos, oficinas mecânicas, assaltantes de sinal e flanelinhas agradecem.

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