Apologia do Cecê.

30 abril, 2009 at 06:52 (Uncategorized)

nhacaEntão eu levantei a discussão de que o mau-cheiro também é uma construção cultural. Porque o valor que nós damos aos cheiros que exalam do corpo só pode ser medido a partir de uma construção simbólica, que tem pouco ou quase nada a ver com a natureza. Afinal, os animais completos, os que são em grande parte o que chamamos natureza, nunca precisaram de perfumes ou cuidados com a higiene pessoal para serem aceitos por seus iguais. Pelo contrário, o cheiro que sai de seus poros carrega os tais ferormônios, responsáveis, entre outras coisas, por comunicar e atrair o parceiro sexual à presença de um indivíduo especial pronto a dar amor, carinho e proteção. Na espécie humana, o suor (ou o cheiro dele), pelo contrário, é sinônimo de desleixo, falta de higiene e dificulta a obtenção de parceiro sexuais. Para homens terem sucesso com os mulheres e as mulheres com os homens, eles devem lançar mão de uma série de artificios (Minâncora, polvilho, limão?) para disfarçar o cheiro do corpo. Os perfumes, nada mais são que simulações de cheiros que não são os humanos. Em outras palavras, quando borrifamos perfumes e desodorantes nas axilas, estamos nada menos que sufocando nossa natureza em nome de um estado inumano.

Sufocar é termo forte. Quando eu usei, não gostaram. Mas é que é difícil mesmo perceber que um tipo de comportamento que nos ensinaram desde sempre, e tínhamos como natural, pode ser questionado, posto à prova e, em casos extremos, negado. Houve algumas reações. Um colega discordou. Disse que o cheiro forte (eufemismo para mau-cheiro) é responsabilidade do hormônio testosterona, eminentemente masculino, razão pela qual mulheres que os carreguem seriam preteridas por homens heterosexuais. Sim, porque nenhum macho vai querer uma fêmea que parece mais macho que ele. É um bom argumento, em favor da naturalidade do mau-cheiro. Mas não explica o fato de que mesmo homens com suor que fede, e portanto com mais testosterona e mais másculos, são preteridos por fêmeas que preferem os usuários de Avanço (afinal, com Avanço elas avançam). A própria palavra “desodorante” explica a utilidade de um produto assim: tirar o odor do suor, que, a principio, recebe valor negativo. O cheiro artificial do desodorante ou o não-cheiro do suor são positivos, em oposição à nhaca, ao CeCê (cheiro do corpo), que é negativo, praticamente em todas as situações.

Outro colega também discordou. Disse que o mau-cheiro incomoda o nariz, causa desconforto aos nossos sensores olfativos, nossas células responsáveis por captar e interpretar cheiros estariam naturalmente predispostas a “avisar” ao cérebro que aquele odor é ruim e a sua fonte não é confiável, não merece aproximação. Está praticamente correto, menos por um ponto que eu considero essencial: naturalmente predisposto. Pouca coisa nesse mundão de meu deus está naturalmente predisposta a algo. A construção dos valores de negativo e positivo para os objetos do universos passa por um processo de mediação simbólica. É portanto uma construção histórica e cultural. Foi aí que alguém pediu a palavra e disse o seguinte:

“[a cultura] tende a absolutizar as suas formas expressivas e as suas regras, até o ponto de quase se transformar numa segunda natureza.”
Deu um exemplo e completou:
“[esse exemplo que eu citei] tende a ser esquecido na sua qualidade de produto cultural: está tão interiorizado através do processo de socialização que passa a ser sentido como qualquer coisa de natural, ou seja, é assumido como um dado adiquirido, ao ponto de provocar um sentimento espontâneo de repugnância…”*

Era Franco Crespi, autor do texto que discutíamos, falando de como é difícil nos desvencilharmos de noções que sempre tomamos como absolutas, como o clássico exemplo do incesto, grande tabu das sociedades humanas. A verdade de que o suor causa um mau cheiro não é um fato biológico como nossas células somáticas terem 46 cromossomos, mas social, historicamente construído, marcado no tempo. A repugnância espontânea que sentimos frente ao cheiro do suor é fruto antes de uma motivação cultural que natural. Usar Boticário é um hábito socialmente aceitável, mas ter catinga não é biologicamente reprovável (não ter higiene é biologicamente reprovável, mas cheiro de suor não é sinônimo de falta de higiene). Acontece que suor todo mundo produz, é barato e não tem valor de mercado. E a indústria de produtos de higiene, beleza e perfumaria precisa comprar o leite das crianças, afinal. E acaba nos convencendo de que suor fede. Eu, por exemplo, estou absolutamente convencido disso. Deus me livre de estar numa situação importante e as pessoas sentirem o cheiro do meu suor, torçam a cara, se afastem e me olhem torto, ó horror dos horrores!

Mas me parece inegável que se um dia bombas atômicas destruirem todas as fábricas de perfumes e desodorantes do mundo, reclamaríamos muito, talvez até em desespero, mas ninguém morreria ou entraria em crise por simplesmente sentir o cheiro do corpo. Do nosso corpo, afinal.

*
CRESPI, Franco. “Manual de Sociologia da Cultura”. Lisboa: Editora Estampa, 1997. p. 23.
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2 Comentários

  1. Pedro Henrique Thomaz said,

    Essa maldita indústria cultural, sempre modelando os pensamentos e atitudes humanas. Nada, nesse mundo de hoje, pode ser considerado espontâneo. Tudo é previsível. Tudo se compra. Os que bradam “Revolução!” estão, de certa forma, aderindo àquela parcela da sociedade em que todos conhecem como os “estranhos, rebeldes”. Virou convenção. Toda sociedade que se preze, deve ter essa parcela de pessoas. “Se não tiver, ah, perde a graça da coisa.”. Nada mais é levado à sério. Ninguém se questiona. Aceitamos passivamente, mesmo que a coisa seja contra nossos príncípios porque não temos a cara de pau de revelarmos nossa posições em tal assunto por ir contra a “lei natural da sociedade moderna”. Essa comunicação nos aprisiona e, por excelência, incutem a idéia do belo nessa atrocidade.
    Algo extremamente complexo de se explicar. Talvez eu acabe de me encaixar em uma parte da sociedade.
    Enfim, bacana o teu texto, Adriano!

  2. Bianca said,

    Finalmente vou concordar 100% contigo, acreditas?! Huhauhauahuah
    Eu sempre falo isso e todo mundo me avacalha. Apesar de ser apaixonada por perfumes, acho absurda a nossa intolerância ao nosso próprio cheiro. Adorei o post. Bjs.

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