Segredos

30 março, 2009 at 04:53 (Uncategorized)

aguaSempre tinha sido assim. Gabriela esperava eu me deitar e alinhava o rosto na fronteira entre meus pescoço e ombro, deitava um braço em algum lugar invisível entre nós dois e outro a passear pelas extremidades do meu corpo, vez ou outra seus dedos beijando minha boca. E ficávamos olhando as estrelas no céu e comentando que as nuvens roxas pareciam assustadoras, que se chovesses não moveríamos um centímetro dali e inventaríamos desculpas por estarmos molhados uma hora daquelas. De vez em quando Gabriela apontava a piscina e se admirava com a dança na superfície da água, vento e água vento e água e o reflexo das luzes ao longe, até que ela pegava um punhado de gotas e espargia sobre algum canto do nosso amor, nos fazendo querer cair e sonhar naquele oceano que era a piscina da casa dela. E num instante, eu segredava que aquele lugar só não era melhor que nosso cantinho ideal inexistente: um quarto redondo, sem paredes, macio e pequeno, o suficiente para que pudéssemos nos ser. E dizia, num sussurro que não precisávamos de mais nada e ríamos daquelas pessoas nos prédios altos, alheias a tudo, donas de tudo, mas ignorantes de amor. De tudo isso, restava outra certeza: Gabriela conhecia todos os meus segredos, ria da loucura que me consumia, contava cada curva de meus senões, sabia quando e por que eu chorava, conhecia que lado do meu corpo era maior que o outro, o que fazia eu odiar ou amar alguém, todas as minhas bobagens e preconceitos. Sabia tudo e queria saber mais. Só não sabia o prazer que eu tinha em ela saber tanto de mim, na mesma intensidade do desejo de se conhecer em função do outro… ela era o livro em que eu escrevia e lia a minha história, e quando Gabriela falava de nós, quando brigava, quando brincava, quando apontava na minha cara e dizia que eu estava errado, era como se recitasse um verso de um poema apócrifo sobre mim. Cada segredo revelado era um tijolo do muro que dizia em letras garrafais (rodeadas por flores, bonecas, sóis e todos os desenhos que Gabriela adorava fazer em vez de ouvir o que as pessoas lhe falavam): EU NUNCA VIVERIA SEM TI. E hoje, hoje estático, sem vida, sem água, sem nuvens roxas e os prédios que pareciam cair sobre nós no quintal de Gabriela, hoje que absolutamente vivo sem ela, hoje que provei ser possível viver com a sensação de estar incompleto (como é possível andar de bicicleta sem sentir o vento no rosto), hoje só me resta uma dúvida: o que Gabriela estará fazendo com os meus segredos?

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Eunice

21 março, 2009 at 16:18 (Uncategorized)

Eunice perdeu o pai muito jovem, ela e o pai. Soubemos da morte sem ela saber que sabíamos, ou sabendo, mas não fazendo parecer. Ela chorava e os que a conheciam consolavam e diziam pra ela ser forte, que uns vão pra outros virem. Mas Eunice não parecia entender ou não parecia aceitar e era linda como o céu, como soem ser as princesas da nossa infância. Cabelo amarelo, olho verde, uma européia nos trópicos a zombar da inveja das mestiças, latinas de índias e negras, normais, babando a anormalidade de Eunice. Ela não falava, ou falava pouco, só o necessário pra nos apaixonar, capricho de princesa. Era o grande amor da vida do meu amigo e, a despeito de nunca termos trocado uma palavra com ela, Eunice era o centro de quase todas as nossas conversas. Com o tempo foi ganhando uma beleza triste, até desaparecer por completo, e virar normal. Ou isso, ou crescemos e deixamos de acreditar no amor platônico antes mesmo de conhecer Platão. Reencontrei Eunice no lugar menos imaginável possível: num estádio de futebol, multidão concentrada nos destinos de uma pelota e nossos destinos se escrevendo numa fileira de arquibancada. Ela veio em minha direção, segurando a mão de um namorado (um idiota desprezível, pitboy, músculos a mostra na ausência da camisa, querendo trocar qualquer coisa por dez minutos de confusão) e me ignorou completamente. Eu a fiz que não vi. Talvez porque eu saiba mais do passado dela do que ela gostaria, e ela menos do meu presente do que deveria. E versa-vice.

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Quando o mundo não foi feito pra você.

7 março, 2009 at 09:48 (Uncategorized)

(cenas de um blog diarinho e alguma reflexão)

Relato literário de uma queda idiota.

Estava tudo terminando bem. Reunião com os amigos do ex-curso finda, restava imprimir um ofício a ser entregue na Faculdade impreterivelmente no dia seguinte. Era começo de noite, mas a Universidade em fim de férias, já fechava suas portas. Difícil achar uma impressora disponível. O bloco B, não havendo cybercafé, era inútil. Cyber do bloco D, já fechado. O mesmo com o do bloco F (do futuro curso). A última opção de impressora era uma casa azul, meio que entre a praça de alimentação e a biblioteca, único lugar do mundo cujo acesso não se dava por uma rampa segura como nos outros lugares. Aqui se devia desviar de uma enorme vala, 1 metro de profundidade, por 40 cm de largura. Um cálculo apressado atesta: uma passada mais longa e você está do outro lado.

Acresce que chovia (como no começo das memórias póstumas). Chovia e era escuro, as lâmpadas amarelas se escondendo atrás de suas próprias sombras. O colega do lado repetia o itinerário do dia seguinte, confirmando que eu não precisaria voltar à Universidade amanhã: a gente imprime o negócio hoje, amanhã fulana vem entregar, bem cedinho fica tudo certo. E eu calculando aquele metro sobre o abismo e quantidade de esforço necessário para chegar à casa azul. Perna esquerda no apoio do lado de cá, perna direita sobe, alcança o chão do outro lado, corpo transfere o peso todo para a perna direita, o corpo vai junto, descrevendo sua parábola no ar quase frio. Até que…

Um detalhe foi esquecido. Um detalhe que faria toda a diferença, que transformaria aquele gesto de rotina, feito tantas e tantas vezes inconscientemente, em objeto de vil literatura. Dessa vez, não havia pedra no meio do caminho, antes houvesse. Havia um degrau, desses pequenos, que se não houvesse também não fariam diferença. Mas havia o degrau, e fez toda a diferença. De repente o pé direito pestanejou, hesitou, pisou metade na parte alta do degrau, metade no chão abaixo dele, numa diferença de três, no máximo quatro centímetro. No mesmo momento em que oitenta quilos de gente se atiravam ao vazio e confiavam inteiramente naquele pé, que pisou em falso. Confiança abalada. O pé tombou para o lado, desequilibrado pelos oitenta quilos, pelos três, quatro centímetros, pela gravidade inexorável, pela geometria do acaso. O corpo respondeu e empurrou o pé, já torto, dobrado sobre si mesmo, contra o chão, torcendo-o, arrancando-o de seu estado de simetria consigo mesmo. Antes de a dor explodir, ainda havia uma ameaça a ser combatida: aquele metro de vala chamava eroticamente o corpo, o pé, o mundo, a vida, a se deitar com ele em sua profundeza. E o corpo obedeceria dolorosamente não fosse a prontidão de um braço solto, desesperado, a se agarrar no primeiro pedaço de matéria que pudesse restabelecer o equilíbrio daquele soneto bêbado, cuja emenda impediu que o estrago fosse ainda maior.

Desfeito o perigo da vala, restava a dor. E a dor veio, sem pedir licença, arrastando todo resquício de sobriedade que corajosamente se mantinha de pé. E aquele pé torto, caído sem vida para o lado, fez notar a presença de algo fora do lugar, dando o alarde mais convincente que podia: dor aguda, seca, desesperada, que tornava inútil qualquer tentativa de ignorá-la, daquelas que você deseja que o mundo acabe pra ela acabar junto, cujo único consolo é o de que ela, um dia, vai passar.

Porque o amor tece dor. E vice-versa.

Existem várias maneiras de descrever uma torcida de tornozelo. Eu escolhi essa. É possível, afinal, tirar algo de positivo da dor. Nem que sejam palavras pretensamente bem encaixadas umas às outras. Os quatro parágrafos acima, se resumiriam numa pobre linha, num post diarinho, que eu quis evitar. Afinal, tudo é uma questão de fazer amor tecer dor, ou vice-versa. Acontece que, de fato, torci o tornozelo de uma maneira bem idiota. E o que eu pensei que fosse uma lesão simples, dessas que passam de uma hora pra outra sem maiores cuidados, na verdade era uma lesão de grau 2 pra 3, numa escala cujo ponto máximo é 3. Isso foi o que me informou a traumatologista que me tratou. Apesar de não ter quebrado nenhum osso, aparentemente houve rompimento de algum ligamento, já que o negócio inchou imediatamente após o acidente.

Para salvar o post.

A dotôra também imobilizou minha perna por uns 8 dias, condição que me faz viver situações chatas e que permite algumas reflexões. Vamos a elas, pra salvar o post:

1) Com uma das pernas quase completamente inútil, não posso apoiar meu corpo no chão, o que me impede de praticar uma das ações mais naturais e velhas que a humanidade já teve a idéia de inventar: andar sobre duas pernas. Quem tem duas pernas funcionando perfeitamente tem dificuldades em medir o problema que alguém que não as têm enfrenta para simplesmente se locomover do ponto A ao ponto B. Quem tem duas pernas sequer pensa que está fazendo algum esforço em levantar do sofá e ir preparar o almoço. Aliás, a impressão que temos é o que o esforço está apenas nos extremos: em levantar do sofá e preparar o almoço. O caminho que nos leva de um ponto a outro, da sala à cozinha, caminho curto, 30 metros no máximo, raramente é levado em conta. Pois bem, quem tem uma perna a menos, amigo, pena, mais pena mesmo, pra ir do ponto A ao B, mesmo que a distância entre eles seja curta. Não consigo nem imaginar a dificuldade de alguém que não tenha nenhuma das duas pernas disponíveis. No meu caso, fazer qualquer deslocamento que exija uma postura ereta, só é possível caso eu me equilibre e vá pulando e uma perna só. Essa atividade é de risco, já que potencializa as possibilidades de um acidente mais grave. Mas infelizmente é a única forma de eu me movimentar, já que não possuo muletas ou cadeira de rodas, e tampouco pretendo passar esses oitos dias numa cama ou numa cadeira.

2) Fazer coisas simples do dia-a-dia se torna um verdadeiro quebra-cabeças, em que você fica matutando alguns minutos antes de começar uma tarefa que antes você fazia sem pensar muito. Por exemplo, fritar um ovo. Alguém já pensou em fritar um ovo, numa perna só? Ou arrumar a própria cama? Subir num banco pra alcançar um livro que tá na parte alta da estante? Se servir do almoço que tá no fogão e ir pulando até a mesa, com o prato na mão? Brincar de saci é legal quando você é criança. Quando é a única forma de você fazer as coisas, se torna bem decepcionante. Tomar banho é um problema. Além de ter que se equilibrar numa perna só, ainda há a recomendação expressa da dotôra de não molhar a calha e os esparadrapos que envolvem a perna direita, sob pena de umedecê-los e torná-los ambiente ideal para a proliferação de fungos, bactérias e todo tipo de coisa-feia-que-come-a-pele-da-gente. Por conta disso, tome banho num banquinho, com a perna ruim para o alto (pra não molhar) e faça o possível pra não destruir essa parafernália acidentalmente ao tirar uma cueca ou uma bermuda. Não consegue alcançar o xampu, já que você está sentado a prateleira onde ele se encontra está a pelo menos um metro do alcance máximo de seu braço esticado? Paciência, levante-se, vá pulando numa perna só sobre chão molhado e ensaboado (eu vou repetir, pra ficar bem claro: MOLHADO e ENSABOADO) e pegue o xampu, antes que você caia e torne sua situação mais lametável ainda.

E se o mundo não foi feito pra você?

Minha dificuldade de locomoção é temporária e, de certa forma até branda, porque apesar de não me aconselharem pisar com o pé doente, sob risco de agravar a lesão, pelo menos a perna está ali, o que me permite ter maior equilíbrio do que se ela não estivesse. Ainda assim, a situação causa transtornos. Agora pensemos em quem tem dificuldade de locomoção permanente e mais séria que a minha, e tem que se contentar com a triste constatação de que o mundo não foi feito para si. Além dos entraves que existem na maioria das casas (aparentemente não são muitos os arquitetos que se preocupam com os portadores de deficiência), existe o mundo lá fora, esse sim, quase completamente incompatível com quem tem dificuldade de locomoção. Eu deveria ir à UFPA esses dias e fiquei seriamente pensando nos obstáculos que alguém que se locomova com muletas ou cadeira de rodas teria, fazendo as mesmas coisas que eu faço todo dia lá, sem pensar muito.

Ônibus seria o primeiro deles. Eu já vi alguns veículos adaptados a pessoas com deficiência circulando por aí, mas sinceramente, nunca os vi parando no ponto em que eu geralmente pego ônibus, tampouco os vi funcionando. Nas poucas vezes que vi cadeirantes no coletivo, eles sempre precisaram da ajuda de alguém para subir ou descer: primeiro alguém o carrega no colo e o coloca num banco do ônibus, depois essa mesma pessoa desce, desmonta a cadeira e a deposita junto da pessoa com deficiência, que vai ter que contar com a solidariedade de alguém, quando chegar o seu destino, e o processo tiver que ser repetido. Isso, claro, caso o motorista tenha paciência de esperar tudo isso acontecer, sem desrespeitar o direito mais elementar de todo o cidadão: o de ir e vir.

Passado o ônibus, a locomoção dentro da UFPA também seria um problema, embora menor: as calçadas novas, construídas mais ou menos na época em que eu entrei lá (2007), aparentemente respeitam as normas internacionais de acessibilidade, já que privilegiam sempre rampas em vez de degraus, às vezes os dois. Mesmo assim, consigo pensar em pelo menos um ponto no meu itinerário diário (além daquele em que eu caí, que seria intransponível para um cadeirante) que está obstruído por pedaços de madeira, fixos, que dificultariam bastante a passagem de rodas. Na biblioteca, também, seria impossível chegar ao segundo andar com cadeira de rodas, já que o único acesso que eu conheço é feito através de escada, e eu não creio que haja algum elevador ali, e muito menos que funcione. Também, em todos os prédios administrativos dos cursos e faculdades que eu já visitei, você só consegue ter acesso aos andares superiores por escadas. Mas a principal dificuldade que eu consigo imaginar para alguém que tenha problemas de locomoção é almoçar no Restaurante Universitário. Aliás, equilibrar o bandejão, os talheres, e o copo de água, desviando das filas e das mesas mal dispostas, que impossibilitam um fluxo perfeito dos comensais, mesmo pra quem tem dois braços e duas pernas perfeitas é difícil. Imagina sem elas, numa cadeira de rodas ou sobre muletas. Nem todo mundo fez curso pra garçom ou equilibrista. Não me acho capaz de almoçar no RU sozinho, no estado em que eu estou.

E daí?

Essa sensação de incapacidade também deve se abater sobre pessoas portadoras de deficiência física, que constatam diariamente que o mundo não parece ter sido construído pra elas. Projetamos nossas coisas – espaços, sistemas, ocasiões etc – pensando em quem tem tudo certinho, simétrico, perfeito. E quem não tem, como fica? Nunca pensamos nas minorias, porque elas nos são invisíveis. Não consigo lembrar de nenhuma, nenhuminha ocasião em que eu tenha visto algum portador de deficiência física na fila do RU ou admirando a paisagem do rio que circunda a UFPA (porque mesmo aquela orla apresenta muitos obstáculos) e olha que eu já estudo lá há uns dois anos. A razão disso não é que portadores de deficiência não existam ou existam em número insignificante. A explicação é que muitos, olhando para o mundo lá fora e todos os seus obstáculos, devem agir como eu, que fico retardando a hora de tomar banho. Preferimos deixar pra depois, preferimos não sair de casa, não passar por todos esses problemas, não ser visto como diferente, não ser humilhado, mal-tratado, por tentar levar uma vida normal, como todo mundo.

O ciclo da invisibilidade das pessoas com deficiência.

Em vez disso, muito coerentemente, muitas pessoas com deficiência preferem levar uma vida alternativa, reclusa, já que, pelo menos em casa, elas podem adaptar o espaço que precisam percorrer, mesmo que grosseiramente. E se elas ficam em casa, nós, os “normais”, não as vemos, e nunca pensamos na existência delas, razão por que nunca projetamos nossas coisas pensando nelas. É preciso alguém vir reclamar de uma escada, de um degrau, de um anúncio, e pedir uma rampa, um texto em braile, qualquer coisa pra tornar o mundo mais acessível a quem tem dificuldade de se encaixar nele. Até que isso aconteça, completa-se um ciclo de invisibilidade: o mundo não se adapta para receber as pessoas com deficiência, elas não saem de casa, o mundo, crendo que não existem, continua sem se adaptar a elas…

E eu com isso?

Quanto a mim, vou seguir as orientações da dotôra e voltar logo às minhas atividades normais. Com o medo de ficar pra sempre suportando essa lógica do “cada um por si e Deus por todos”.

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