Bom filho à casa torna

23 fevereiro, 2009 at 06:40 (Uncategorized)

Juan Antonio Alvarez foi treinador do Paysandu na década de 60. Foi sob o seu comando que a esquadra alvi-celeste conquistou uma de suas maiores glórias, imortalizada no hino informal que toda torcida conhece e canta: vencer o Penãrol por 3 x 0, na Curuzu em 1965. Se “até o Penãrol veio aqui pra padecer”, Juan Alvarez veio a Belém para ser feliz. Pegou um time desmotivado na quase lanterna de um campeonato paraense, e o fez ser campeão. Tri-campeão. Uruguaio, havia sido goleiro do Nacional de Montevidéo e nunca em sua carreira vencera o arqui-rival Penãrol. Nunca, até aquele 18 de Julho de 65, quando um ex-derrotado uruguaio comandou um time (cujo nome é o de uma cidade uruguaia), e o levou a uma vitória incontestável ante o maior clube do Uruguai de então. Juan Alvarez se dizia eternamente grato ao Paysandu por proporcionar a ele a felicidade de vencer seu maior rival. A torcida bicolor, por sua vez, será eternamente grata a este homem que ajudou a construir a história do nosso amado clube, clube que ele continuou o amando mesmo longe da Curuzu, de volta ao Uruguai.

Dia desses, soube que a filha de Juan Alvarez, Amparo, mandou um e-mail para a diretoria do Paysandu. Transcrevo-o em tradução livre:

“Senhores diretores do querido Paysandu, Lhes estou enviando este e-mail para me comunicar com os senhores. Primeiro, me apresentar e lhes dizer que sou a filha de Juan Alvarez, Amparo. Talvez se lembrem ou já tenham escutado falar de meu pai. Uma das histórias do clube é de quando ganharam o Peñarol do Uruguai e lhes tiraram a invencibilidade. Meu pai era o técnico. Ele, hoje falecido, me deixou a herança do amor por este time e essa cidade tão amada por ele. É por isso que quero pedir-lhes autorização para depositar suas cinzas no campo da Curuzu, que era aonde ele mais queria voltar. Espero estar dirigindo-me às pessoas corretas para esse pedido. Espero ter uma resposta favorável e que marquem uma data para eu poder viajar. Sem mais e com um apertado abraço, mais uma fã do nosso grandioso Paysandu e de sua bendita terra e de Nossa Senhora de Nazaré, Amparo.”

É possível imaginar, mesmo de longe, o tipo de sentimento que leva alguém a expressar aos filhos o desejo de voltar, depois de morto, ao lugar onde mais foi feliz. Quem sabe o velho técnico não tinha esperanças de reencontrar a felicidade que o gramado esburacado da Curuzu um dia lhe concedera? É possível imaginar o tipo de lembrança que aqueles alambrados gastos, aquelas quatro linhas apagadas tão familiares a nós, bicolores, remetiam ao velho em seu exílio às avessas. Será, talvez, o mesmo tipo de lembranças que eu terei quando o velho for eu, e não mais puder acompanhar o time? Seria o mesmo tipo de lembranças que teve meu avô, bicolor apaixonado, que morreu acompanhando o clube apenas pela televisão? A idéia de voltar no tempo, de ter uma nova oportunidade, de reviver glórias do passado é universal e atemporal. Há algo de universal nas cinzas de Alvarez. O desejo de estar sempre perto de quem se ama, e não poder. O desejo de se juntar fisicamente à grama do estádio, onde a sua paixão clubística ficará eternizada, já que enquanto vivo lhe era impossível. Quando o objeto de nosso amor é inacessível nos resta a esperança de ser feliz em outro plano.

Como torcida fiel que somos, torceremos agora para que Alvarez esteja feliz em seu outro plano e para que a diretoria do clube autorize a união desse bicolor fiel a seu amor distante e jamais esquecido. Ele terá de novo sua chance de derrotar o imbatível Penãrol e nós teremos a oportunidade de nos encontrar outra vez com esse querido bicolor. Bem vindo de volta, professor!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: