O ovo

16 janeiro, 2009 at 16:57 (Uncategorized)

::texto escrito provavelmente em outubro de 2005, quando o futuro que ele precede não era nem uma hipótese::

dianam6

Dentro de um minúsculo compartimento cor-de-carne, duas formas indistintas permaneciam em unidade constante. Entrelaçavam-se de tal maneira que a perplexidade da cena, indubitavelmente, deixaria um espectador desatento atordoado. Mas ninguém podia vê-los porque a redoma havia sido construída exatamente para evitar que os vissem: as paredes ovaladas deixavam transparecer a luz de uma superfície à outra e refletiam a imagem de um vácuo profundo. Lá dentro, dois pontos luzidios forneciam toda a luz necessária para que os dois amontoados de matéria pudessem entrever-se. Um deles abriu os olhos e a visão foi instanta-neamente ofuscada pela luminescência do ambiente. Fechou-os e desta vez abriu-os compassadamente. O que viu era um reflexo de si mesmo.

– E então? – disse o outro num sussurro. Os dois puseram em exame as paredes lisas e curvilíneas do recinto. Elas se juntavam por algum tipo de liga invisível de modo que era impossível definir um vértice sequer na amplitude penumbral do lugar. Estavam estarrecidos por uma sensação inebriante: a pouca luz dava a impressão de que um espaço infinito se estendia a sua volta, vaidoso como uma ágata solitária, com minúsculos pontos fulgurantes, fazendo contas de estrelas. Permaneceram ébrios, fascinados com a magnificência de seu universo particular. Olharam-se, os olhos marejados.

– É lindo! – disse o primeiro – Não me lembrava de quão lindo era. Parece que… que finalmente estamos a sós. Mas também parece que há tudo aqui, todas essas estrelas e essa beleza, mas veja – arqueou um dos braços a esmo no vazio. O braço interrompeu seu movimento no exato instante em que encontrou uma resistência incrivelmente sólida

– A parede é bem aqui. Empertigaram-se e não hesitaram mais. Deram-se num abraço voluptuoso enquanto lágrimas reprimidas cascateavam das faces. Não sabiam transformar o que sentiam em palavras, de modo que apenas se abraçavam. Convergiam o vórtice de sentimentos numa maneira de fundir-se um no outro. Apertavam-se com força; com toda a força que seus corpos franzinos permitiam. Uma imagem osmótica fluía de uma mente à outra, complementando-se. Era um imenso quebra-cabeça de inúmeras peças congruentes, que eram peculiares a cada um dos dois seres. Flutuavam no espaço entre as duas cabeças e encontravam seus lugares na mente do outro. Lentamente, vagarosamente como o tempo que encontrava resistência naquele espaço peculiar, a imagem foi-se formando na concepção de cada um: a mesma imagem, os mesmos traços incertos ataviados de nanquim negro, que contrastavam com um fundo azul-pérola. Sobre um penhasco traiçoeiro, cravando a abóbada celeste, a lua como testemunha, dois gatos relutavam em se aproximar. Analisaram o quadro por alguns instantes e entenderam sua metáfora: aquela era a síntese de suas vidas, retratava o passado em todas as suas nuances, em cada pecinha do quebra-cabeça. Mas como seria o futuro? De nada sabiam além das dimensões do ovo. E faziam-se perguntas silenciosas, que não podiam ser respondidas, de modo que suas únicas respostas eram abraçar-se cada vez mais. E foi assim, roubando a unidade de cada um, que os dois pedaços de matéria viraram um só. E não se lembraram de mais nada até que outro ovo se formasse, depois que aquele estivesse destruído.


::depois de ovos, gatos, naquim negro, fundo azul e quadro na parede do quarto, chegamos ao fim da linha, sozinhos::

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3 Comentários

  1. ; said,

    Uma pena que o que escreveste “com muito carinho e (quase) tudo o que queria ME dizer” não tenha resistido a um mês. dois meses. três, quem sabe?
    A julgar pelos anos do texto do ovo, como podes ser tão… tão estraga tudo?
    E tu estás errado, e não queria que fosse eu quem tivesse de te dizer isso; mas já que tudo já está do jeito que está mesmo, não faz diferença. o nanquim não tem final da linha. os gatinhos ainda estão olhando a lua na parede. não é linear, não tem final. É oito deitado.

  2. srta. dramatica said,

    eu amo ve-los se amando… nao deixem de se amar…

  3. Priscila Costa said,

    O texto parece ter surgido das profundezas de seu âmago! Então, só posso dizer que está ótimo. E bem pessoal!

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