os índios

12 janeiro, 2009 at 17:25 (Uncategorized)

mulher_na_rede_1Hoje é aniversário de Belém, mas em vez de falar de todas as maravilhas da cidade, deixa eu lhes contar uma historinha:

Ontem eu tive que ir ao banco, no centro de Belém. Peguei minha senha, esperei na tradicional fila das 11, paguei minha conta e, saindo do banco, eu vi um índio. Ver índios andando pelas ruas de Belém é tão corriqueiro quanto ver prédios ou asfalto, mas esse índio, em especial, me chamou atenção por estar vestido de guerra. Seminu, pele pintada de urucu vermelho, arco, flecha e penas presas em cada orifício do corpo. Fui falar com ele: se houvesse uma guerra entre índios na rua da frente, era importante eu saber, pra pegar a rua de trás. “Tá em guerra, cacique?”, perguntei, com a familiaridade que todos os brancos daqui temos com os índios em geral. Ele não sabia muito português, devia estar se alfabetizando, balbuciou uma ou outra coisa, envergonhado, abaixando a cabeça. Eu entendi. Não havia guerra. Ele estava saindo à caça, constrangido com o fato de não ter dinheiro pra comprar um frango no supermercado. Não me pediu um tostão, apenas perguntou se eu sabia qual daquelas mangueiras da av. Presidente Vargas dava mais periquito. “Aqui não dá muito cara, mas ali na av. Nazaré, perto da basílica, tem uma samaumeira que é só periquito. Só toma cuidado pra flecha não cair nos carros estacionados, senão os caras vão ficar muito grossos contigo”. Ele agradeceu, foi embora e eu ainda o vi olhando faminto pro jacaré na coleira de uma madame que dobrava a esquina. Carne de jacaré é mais gostosa e rende mais que a de periquito. Índio sabe disso melhor do que eu. Infelizmente, o IBAMA não deixa matar jacaré urbano pra comer (quando eu era criança, eu queria ter um jacarezinho em casa, mas meus pais argumentavam que eram bonitinhos pequenos, mas quando crescessem fariam muita bagunça).

Tá, o parágrafo de cima é todo mentira. A historinha não aconteceu, a não ser na minha cabeça. Mas ela, na sua fantasia, serve pra ilustrar o que Belém tem de diferente da maioria das urbes desse brasilsão: a natureza que conseguiu resistir ao avanço da civilização. Vamos lá: não temos índios com suas roupas tradicionais de guerra andando por aí, mas todos somos índios e temos nossas guerras cotidianas pra vencer. “Mas, Adriano, pô, todo brasileiro é um pouco índio, negro e europeu, cara, olha só, eu sou pernambucano, meu avô baiano, meu tataravô devia ser índio também.” Certo, mas nós aqui do norte, somos mais índios que o pessoal de outros cantos. Muito mais. E não falo de sangue, falo de cultura mesmo. Desde a arte marajoara dos ônibus e as ruas com nome de tribos (eu moro na Mundurucus e vocês?) até o tacacá no fim da tarde, passando pelo açaí depois do almoço e o igarapé no quintal de casa. É impossível negar a herança indígena de Belém. É impossível negar que aquela morena de olhos puxados e cabelos negríssimos, que eu tô vendo agora, tem um parente distante que dormia numa rede à margem do rio Guamá. E ia caçar a própria comida, se pintava pra guerra, bebia cauim e dançava pra agradecer a chuva. Tem índio aqui por toda parte, em todo canto, no tempo e no espaço, tanto que a gente já nem percebe. Só não entendo, nunca entendi, a necessidade que têm os paraenses, e belenenses em especial, de ficar negando isso. Deve ser culpa do epíteto que deram à cidade: Metrópole da Amazônia, “metrópole” deu uma vaidade às avessas no paraense.

É lugar-comum. O paraense escuta alguém falar de Belém, imagina o conceito que essa pessoa tem da cidade e vai logo avisando: olha, não temos índios andando pela rua não, viu? Nem jacaré, ta? Pode vir sem medo que você não vai ser flechado ou fervido no caldeirão e servido com sopa. Pois eu digo, sem medo de errar: temos índios sim, muitos índios, de todo tipo, até dos brancos, como eu, alguns pacíficos outros nem tanto. Não temos jacarés soltos, mas temos periquitos, garças, flamingos e urubus (muitos urubus, no ver-o-peso). Tudo solto e vivendo bem com o homem. A pessoa que nega o jacaré parece que tá negando a própria natureza da cidade: o rio que a margeia, as árvores que a embelezam, refrescam e alimentam, a chuva que constroi a identidade do lugar, o peixe da caldeirada, o pato e o tucupi. A pessoa que nega a natureza é geralmente aquela que levanta a bandeira da civilização, que adora morar na “metrópole da Amazônia”: ruas asfaltadas, carros importados e prédios, muitos prédios. E prédios altos, desses que tapam o sol e a vista do horizonte. Belém comemora seus 393 anos cheia deles, infectada deles. As construtoras competem pelo que mais arranha o céu, e a cidade progressista fica na torcida. Enquanto isso, aqueles trinta e três andares, já vendidos, vão matar uma das pracinhas mais bonitas e arborizadas da capital.

Nesse aniversário da cidade querida, quero convidar meus conterrâneos que também a amam a parar de fazer essa anti-propaganda progressita de nós mesmos. Somos índios sim e é isso o que nós torna especialmente bonitos, o que nos diferencia da multidão. Não vejamos a herança indígena como um mal que deve ser extirpado. Não tremamos quando vierem nos dizer que índio é tudo burro, preguiçoso, selvagem e violento. Não tenhamos vergonha de nosso passado (e do nosso presente). Não temos jacarés, mas a natureza aqui é mais impressionante que qualquer outro advento da modernidade. Não nos envergonhemos quando nos acusarem de que aqui é “só mato”. Trabalhemos pra que nossos filhos ainda possam ver “mato” nas esquinas. E que sejam índios como nunca deixamos de ser.

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6 Comentários

  1. Nathália said,

    Grande parte da nossa natureza já foi riscada daqui, mas outra grande parte resiste e luta para se manter viva. Belém é assim: é chuva das duas, é chuva de mangas, chuva de cultura. Viva Belém!

  2. Lolita said,

    Nossa, gostei mesmo!

    Palmas á vc! Não são todos que sentem orgulho de onde vive.
    Conheço muita gente assim. E tenho pena. Pura e simples pena.
    Parabéns Belém!!!!!!!!!!!!!

    Tô chegandooooooooooooooooooooooooooo!

    O/

  3. Vanice said,

    Belo texto, Adriano.
    Gostei muito. Não só pela escrita, mas também porque compartilho da mesma idéia.
    Enquanto lia o texto, me lembrava de algumas expressões usadas até mesmo pelos belenenses, como “Isso é programa de índio”. Recordei que vi um comunidade no orkut chamada ” Paraense não é índio”. Lembro de um comentário que o prof. Mauro Coelho fez, uma vez. Disse que o projeto pombalino não deu certo na Amazônia, pois nosso fast food é o tacacá de fim de tarde. Acho que a fala dele resume teu texto.

  4. priscila monique said,

    nossa te encontrei do nada numa comunidade de blogueiros paraenses, e vou te contar.. ADOREI!! parabens pelos teus textos brilhantes, caso voce se sinta curioso, entra la no meu e dá uma ohadinha pela feichadura que tem uma unica senha, CURIOSIDADE, o link ta aí bjoooooooooo

  5. Jéssika said,

    falou dos pernambucanos né?
    haha
    belo texto, me parecer ser belém LINDA
    espero conhecê-la um dia 🙂

  6. Fernanda said,

    Bem, não preciso dizer que adorei o texto!

    As influências em nossa cultura são imensas. O andar descalço, o uso de pequenas vestimentas (que para muitos é uma prática insultuosa), os hábitos alimentares, a língua e linguagem, o artesanato e uma infinidade de crenças simbólicas em seres da floresta, lendas, catolicismo popular etc.

    Acho que o Caboclo amazônida é a principal categoria que espelha a influência das diversas populações indígenas em nossa sociedade. Influência esta que é viva e está constantemente em conformação, pois ainda existem diversas populações indígenas construindo a sua história e a sua relação com a sociedade envolvente.

    Obs: Mas temos tb que fazer a ressalva que uma parte dessa cultura advém de populações afrodescendentes, e que jogar na balança o maior nível de influência é inútil.

    Parabéns Adriano!

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