Pequenos agrados do passado

28 dezembro, 2008 at 08:23 (Uncategorized)

Já falei em outro texto que a maioria das coisas que eu escrevia há uns cinco anos era um monte de lixo em estado puro. No entanto, revirando os alfarrábios virtuais, encontrei uma piada, aparentemente minha, que eu postei (ou ia postar) num dos blogues que mantive.

O estilo é bastante diferente da maioria dos meus textos daquela época, porém, envolve o nome de um grande amigo daqueles tempos, que acabou se mudando pra longe, razão que reforça o argumento de que o texto é de minha autoria.
Creio não ter sido tão safado ao ponto de ter apenas copiado o texto e mudado o nome do personagem, mas essa é uma possibilidade vergonhosa. A seguir, a piada, um lampejo de criatividade naqueles tempos de mesmice:

O Bruno, um amigo de longa data, tem um certo pavor pela dor. Não gosta de ver pessoas sentindo dor e tem verdadeiro asco por quem pratica hábitos sadomasoquistas. Sabendo disso e querendo me divertir um pouco, eu liguei pra casa dele.

– Alô.
– Alô, queria falar com o Bruno.
– Fala, Adriano. O que tu quer?
– Pensa em um numero.
– Tá.
– Tem que ser maior que mil.
– OK.
– Qual foi o número?
– Mil trezentos e vinte e três.
– Tá bom. Ai… mil trezentos e vinte e dois.
– Não, é mil trezentos e vinte e três.
– Eu sei. Ai, caralho… mil trezentos e vinte e um.
– ?
– Pelamordedeus… mil trezentos e vinte
– Que foi cara?
– É que eu li numa revista que a quantidade de pelos pubianos de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de pessoas que ela come… Então eu queria saber qual quantidade ideal de escrotos que eu tenho que arrancar.
– [engasgo]

tu tu tu tu tu

Quinze minutos depois, retornei a ligação:

– Alô, Bruno?
– Sim?
– Desculpa lá pela parada. Tu pode me dizer teu nome completo?
– Bruno Romeu Zanzini dos Santos, por quê?
– Porque eu queria escrever alguma coisa nessa bola de parafina que eu acabei de derramar na minha mão e…
– [engasgo seguido de vômito]

tu tu tu tu tu

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história cantada

11 dezembro, 2008 at 05:49 (Uncategorized)

mao-moedaContou as moedas, entregou tudo, olhos no cobrador olhos em si, mão na roleta, fez mão em concha pra receber o troco. Não contou as moedas, jogou tudo na bolsa, bolsa de fibra de côco marrom, doce. Veio se equilibrando entre as costas, desviando de ombros, roçando em cabelos, segurando a pasta os livros o olhar, segurando a cabeça apontando o banco vazio. Antes do banco vazio, um obstáculo, o mesmo obstáculo de sempre.

licença.

eu levantei, não quis virar de lado, indelicadeza oferecer a nós mesmos a oportunidade de tocar aquela bundinha linda, por isso levantei e a deixei passar com tranqüilidade o banco que era meu e sentar no mesmo banco, cuja metade agora era só dela. Vidro fechado, sol de duas horas, nenhum vento nenhuma brisa. Ela mordendo chiclete e mordendo mordendo e de vez em quando mordendo de novo e abrindo um pouquinho a boca e deixando ver um pedacinho dos dentes brancos quase amarelos de tanto mascar. E não sorrindo, quase percebendo que o cara do lado tava olhando demais, olhando descaradamente demais,

o que será que ele queria? Era até bonitinho, mas não conseguia disfarçar que quebrava o pescoço pra me ver, que se inclinava todo pra trás encostando a cabeça no assento fugindo do meu raio de visão, tentando fugir, pelo menos. E espaçoso, pernas abertas me tocando por querer, foi educado ao se levantar querendo passar a impressão do cavalheiro que não era, mas não consegue se privar de cada pedaço de roupa minha que puder tocar com a roupa dele, isso porque estamos bem vestidos, cobertos, e de sandálias. Mas o pé dele não é bonito, é peludo e de unhas mal cortadas, sandálias velhas e tortas, não deve ter vindo do trabalho. Alguém trabalha de sandálias hoje em dia? Mas cheirava bem, ela já tinha sentido antes de cruzar a roleta e entregar as moedas, veio seguindo o cheiro até encontrar o espaço vazio do lado da origem dele e pediu licença. Sempre teve queda por homens cheirosos e aquele era um homem cheiroso, só precisava sentar ali e sentir cheiro bom de homem.

Já ela suava. Suava um pouquinho e o sol era forte, atravessava a janela e ia morrer na testa molhada, delicadamente refletindo um suor, doce. A estrutura do rosto dela parecia mudar cada vez que os dentes apertavam aquele chiclete amargo e ela parecia querer jogar o chiclete fora, mas não sabia onde jogar, na janela? embaixo do banco? na garganta e depois no estômago? (e enrolava a tripa?) aposto que grudaria em baixo do banco se eu não tivesse aqui. E também queria abrir a janela, mas por algum motivo não abria a janela e preferia por causa disso suar de leve, de gotinha. Agarrando os livros e pastas e bolsas contra os seios, e eu queria ver os seios, mas só via números. Ou eram letras? Via números e letras onde devia ver os seios, mas já tinha visto os seios caminhando junto com ela, antes de ela sentar, aliás vi os seios antes ver qualquer outra coisa, e vi as outras coisas porque vi os seios e gostei dos seios. Ela não sabe que adoro seios. Contaria? Contaria pra ela que comecei a me apaixonar quando vi os seios dela querendo fugir da camisa branca apertada? E ela sorriria da minha provável mentira e eu brincaria de morder o bico do seio dela, de beijar, de lamber e ela nunca acreditaria naquela história de seios perfeitos. Não posso vê-los, não posso vê-la mais, e as coisas mudam sempre mudam, não quero mais tentar ver escondido, quero falar com ela, gesticular com ela, soprar meu hálito contra o rosto dela, depositar-me nela, entre ela, qualquer coisa, mas ela vai embora ou eu vou embora e a gente nunca vai trocar nenhuma palavra além das silenciosas. Porque ela olha e vira os olhos pros postes passando e passando na janela e outdoors com outras mulheres bonitas, mais bonitas que ela, mas ela não acha, ela sempre se acha a mais bonita e não se importa que reparem e achem o mesmo e digam e falem e espalhem por aí que ela é mulher mais gostosa da cidade. Talvez ela gostasse de conversar comigo e eu lhe diria coisas safadas no ouvido e ela arrepiaria os finos pêlos que trazia nos braços e barriga, a barriga magra fugindo à camiseta roxa apertada que também deixava o sutiã colorido, prova irrefutável daquela vaidade linda. É importante saber que talvez ela seja a mulher dos prazeres da minha vida e o cara aqui do lado que não pára de me olhar é bonitinho mas eu não faria com ele nada além de sexo, eu nunca teria nada com homem de bigodinho ralo. Eu já falei que tinha bigodinho ralo? Além das unhas mal cortadas, ostentava na cara pêlos novos de uma barba que nunca se formava mais que um matinho ralo, como que dizendo que não ligava muito pra aparência, nem tinha macheza suficiente. Pra mim, homem que é homem tem que se importar com a aparência, tentar parecer bonito, querer me satisfazer, fazer a barba é o mínimo, ter barba pra fazer é essencial. Ele não tinha, eram pêlos ridículos aqueles, de moleque punheteiro, e não parava de me olhar, e eu gostando de ser olhada e desejada, mas nunca diria nada, porque no ônibus ninguém conversa com ninguém, ninguém se é, nem permite que os outros se sejam. No ônibus estamos num estado de não-momento, no caminho que leva do ponto A ao ponto B, um espaço inexistente no plano geométrico. Sentados ao lado um do outro passavam todas aquelas viagens a se olhar, dia ele dia ela dia os dois, mas nunca se diriam nada, sempre na certeza de que um não lembrava da existência do outro, um não sabendo que o outro só consegui pensar no um, naqueles dias em que chove o dia todo. E na verdade não lembravam mesmo. Todo dia ela era mulher nova, ele homem novo, e todo dia se apaixonavam e nunca faziam nada. Porque não queriam. Só queriam não existir, no caminho de volta pra casa.

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Soldadinhos

8 dezembro, 2008 at 05:07 (Uncategorized)

soldadinhosMorávamos numa casa com uma árvore. Árvore simples, desgrenhada, como se acabasse de acordar sempre. Não dava fruto, quase não dava sombra. Mas tinha soldadinhos, quilos deles. Uma colônia inteira, hierarquicamente desorganizada. Eram a festa da molecada: pegavam os insetos pelo quepe, eles ficavam imóveis e sentavam obedientes onde os colocassem. Chamavam-se soldadinhos porque andavam como se marchassem, às vezes em fila, quase sempre em linha reta. E tinham manchas brancas no corpo preto que mais pareciam olhos, sempre abertos. Na altura da barriga, uma saliência lembrava a aba de um chapéu sempre bem alinhado, que acompanhava os soldadinhos em sua elegância desengonçada. E voavam. A gente se assustava quando eles voavam. Era só apertar um pouco mais forte que eles tiravam asas não sei de onde, e voavam longe, e nunca mais voltavam. As perninhas prendendo nos poros da pele, não querendo se desgarrar, os bichinhos quase sucumbindo ao sopro de um vento mais forte. Tinham cheiro de grama, se bem me lembro. Eram inofensivos e todos iguais. É possível que entre eles houvesse diferenças, uma mancha branca maior, uma asa mais tesa, uma barriguinha bem definida. Mas pra nós, eram rigorosamente iguais, caça pra criança. Pontinhos pretos enfeitando a verdura das folhas.

Não sei dizer o que os fez ir embora. Não sei se quem foi embora não fomos nós, preocupados com outras brincadeiras e outras caças. Não sei que outra guerra aqueles soldadinhos resolveram lutar, se a guerra pela vida, ou a guerra contra nossas indiferenças. Verdade é que devem ter perdido ambas, porque nunca mais vi um soldadinho, batendo sua continência invisível. Satisfação era tê-los sempre ao alcance do braço, parando tudo para nos servir de distração, andando pelos braços, se desviando entre os cabelos, voando pra nos assustar, animais de estimação descartável. Hoje, apenas ao alcance da lembrança, isso quando não viraram fumaça mnemônica, perdidos e anônimos entre nomes e insetos. Pra onde foram os soldadinhos?

(foram promovidos a capitães?)

capitao-parta-manchado

Capitão prata-manchado, borboleta da américa do norte.

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