se olhares

27 outubro, 2008 at 03:51 (Uncategorized)

Ela se colocou entre o sol e a mesa amarela de metal, que servia de palco ao jogo de dominó. A sombra projetada pela silhueta enorme confundiu um jogador sobre a quantidade de pontos negros da peça que acabara de deitar à mesa: terno ou duque? Desviou o olhar, e a encontrou na esquina do vento, mão estendida, mão agarrada no braço enrugado do marido. Ela era uma visão trágica, triste, terrível. Rosto redondo, corpo não cabendo em si mesmo, banhas fugindo entre duas dobras de pele, se escondendo do encobrimento pudico da camisa rota. Ele era ainda pior, o terror em pessoa: cabelos desgrenhados, olho morto de uma semana, apenas um olho, porque o outro jazia há muito fora da órbita, deitado como uma fruta velha. A órbita vazia, silenciosa, dizia tudo. Um casal de uma gorda negra, louca como a noite, riso estúpido e sem dentes, e um velho caolho, quase mudo, sério como o asfalto.

Os jogadores nem ligaram quando o terrível casal de pedintes chegou, eles sempre chegavam, sempre pediam com as mesmas não-palavras. São personagens cotidianos e anônimos que habitam a esquina da Barão de Mamoré com a Mundurucus, no bairro do Guamá, a alguns metros do Hospital Barros Barreto. Do lado de lá, o hospital moribundo, vida pulsando em jalecos e luvas brancas, alheio à profissão dos loucos, facilmente ignorava os que, há muito tempo, seriam internados. A mulher negra tinha um cheiro peculiar de quem não se lavava há dias, mas o marido caolho mal ligava para a aparência decrépita da esposa: a acompanhava em cada carro que batia, sisudo e com uma sobriedade desconcertante. E depois de um não seco (a que ela respondia com um sorriso e pedia a deus que abençoasse a quem lhe tinha negado moedas), ela olhava para o marido já meio envergonhada, e ele tinha fé que na próxima vez eles conseguiriam alguns centavos que fossem. Em sua mudez, lançava, com seu único olho, um olhar de aprovação à mulher, “tudo bem querida, vamos lá”. Eu sempre peguei ônibus ali, onde aquele casal bizarro batia ponto, pedindo, pedindo, pedindo, quase nunca recebendo. Ela sempre me pedia, quase se ajoelhando, numa esperança um tanto ridícula, “uma moedinha”, numa voz que repercutia mais o inha que qualquer outra coisa, como a tentar derreter meu coração frio. Eu nunca dei nada, não por não ter, mas por não acreditar que realmente os ajudaria dando esmolas. É preciso ser duro com essa gente, pensava, enfatizando o essa gente. Sempre respondia que não tinha nada sobrando, que meu dinheiro estava contado pro ônibus e ela nunca me pareceu entender. Lançava aquele sorriso sem-graça ao marido, que respondia com uma cara séria de quem diz “Tudo bem, querida, eu continuo te amando”.

E parece que vão continuar se amando, do jeito deles, assim como que pedindo moedas, e pedindo vão ficar pra sempre. É a única coisa que lhes sobrou nesse mundo, mundo que eles não entendem e que não os entende. E o mundo parece precisar mais deles, que eles do mundo. Eles sem o Guamá que lhes serve de cenário, serão sempre o casal de loucos de quem os motoristas terão que desviar pelo inconveniente de um derramamento de sangue, mas que a despeito disso, continuará junto; o Guamá sem os personagens que constituem sua identidade urbana, se torna um vazio assintomático, uma história sem tragédia ou sem paixões, que não encantará mais ninguém com seu teatro de vícios, e não servirá mais de mote para o cronista despreocupado. Virará um estacionamento, com a assepsia dos jalecos.

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3 Comentários

  1. Jordana said,

    Essa última frase foi acrescentada aqui ou foi retirada quando postada lá? Jalecos. Gostei.

  2. Jordana said,

    Eu olho muito pro Guamá. Mas acho que pro quarteirão errado.

  3. Priscila said,

    Gostei demais do blog.Esses “cronistas despreocupados…” acabam escrevendo bem. ( PriH, da UNIR )

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