las calaveras

28 setembro, 2008 at 05:52 (Uncategorized)

calavera zapatista

calavera zapatista

A pedra retangular, cinco centímetros de espessura, deixa ver ainda uns restos de desenho. Impossível. Traços inconstantes, linhas tortuosas, um ou dois baixos-relevos de pouca ou nenhuma profundidade; os olhos cansados, a luz de querosene, o hábito que se cria de um ciclo interminável, elementos que já fazem as particularidades da pedra serem quase ignoradas. O que estivera ali, a que servira aquela pedra, a matriz que fora a incontáveis projeções, tudo pertença do passado. Filhos de um tempo morto, irremediáveis, agora soçobram como lembranças e restos de traçado. As mãos macilentas removem as cicatrizes da pedra, para que a pedra, novíssima pedra se torne. Os ex-traços não importam mais, se perderam nas brumas de outrora. Almejam-se novos traços, crônicas de mortes anunciadas.

Antes ainda, necessário lixar a pedra, torná-la branca, nascente. Com uma pedra menor, as mãos fazem movimentos infinitos, em forma de oito. Os olhos acompanham mecanicamente o mundo se tornar redondo e apagado. Os ouvidos relaxam à sinfonia do lixamento. Os músculos retesam, motores. A mente serena, prepara os novos traços, contará com eles uma nova história daqueles que já são velhos, que vão morrer, porque todos morrem, todos um dia viram caveira. O corpo inteiro compenetrado em desanuviar da pedra as caveiras que já se foram, restos do passado. O mundo é agora.

Mas não agora, necessário preparar terreno. Lixada a pedra, não se pode mais tocá-la. As mãos gordurentas desvirginam a pedra nua. Para evitá-lo, o artista joga sobre a pedra uma camada de goma arábica, impermeável. A goma reflete o brilho dos olhos cansados, a pouca luz é suficiente ao fenômeno. À sua frente estende-se uma superfície pétrea e límpida, ideal para suas idéias serem deitadas. A morte era democrática; pobre burguesia mexicana, diriam depois. Nenhuma outra teve tão má sorte de tê-lo como relator justiceiro. Relator justiceiro. Quem seria seu alvo dessa vez? Um, dois, todos? Ponta-seca, mão canhota. Uma arma. Pacífica. O tiro seria tirar traços de goma arábica da pedra, para que mais tarde ali deitassem tinta, para que a tinta depois fosse ao papel, para que o papel chegasse às mãos do povo, para que corresse à boca miúda que os deuses tinham perdido a divindade, que eram mortais; que eram caveiras. Eis o tiro. Eis os traços. Enquanto uns glorificavam um passado sem presente, outros deveriam viver seu presente, sem passado. E ele, bardo descontente, um bêbado poeta, se revestia do papel de arauto, anunciaria ao povo as boas novas. Não eram nem boas, nem novas, mas era óbvia a necessidade de falar a língua do México, para que os mexicanos se sentissem vivos, se sentissem mexicanos e vissem o México desenhado no papel. O México que usava sombreiro e comemorava o dia dos mortos. Morte. Palavra essencial. O México revolucionário que zombava de Porfírio Diaz e suspirava por Zapata, que trazia na cara a corrupção e as ambições políticas, os efeitos da modernização, as agruras de um tempo posto ao contrário, a índia com o filho nas costas e a socialite com um leque na mão. Uma sociedade em conflito.

Entintagem. A tinta litográfica é passada sobre o desenho com um rolo de couro. Músculos mais uma vez tensos, força. A fixação da tinta deve ser completa para que a técnica esteja no nível da concepção. Quando começou em Aguascalientes ele era o ajudante da oficina, sua contribuição para as gravuras se resumia em entintar e manusear a prensa. Não era suficiente, precisava da sua arma principal, o mundo precisava de seus traços. O resto era pormenor. Com uma estopa, ainda limpa os restos de tinta que se acumularam nas arestas da pedra. Entintada e limpa, a pedra é uma matriz perfeita.

A última parte é a impressão. Ainda não pode imprimir. Faltam ainda os caracteres tipográficos, o texto que acompanhará a gravura que acaba de fazer, tarefa de outras mãos. Olhando a pedra, o artista percebe que aquilo não é uma ilustração, impossível pensar o contrário. Os que compram El Diablito Rojo, em geral, são analfabetos.

O texto que eles lêem é a gravura traçada na pedra. A morte era democrática; impossível José Guadalupe Posada não ser.

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cai, cai, balão!

16 setembro, 2008 at 10:12 (Uncategorized)

Os jornais do mundo todo acordaram dizendo: as bolsas tiveram a maior queda desde 11 de setembro. 11 de setembro é uma daquelas datas que ninguém precisa dar maiores detalhes pra que se saiba exatamente quando aconteceu. É uma data marcada pela queda de duas torres no centro do mundo moderno, e pela queda de toneladas e toneladas de papéis sem vida, que, divididos em gramas, voaram indolentes pelo céu de uma Nova York em chamas e lágrimas. É o nosso golpe de 64 (quando caiu um presidente), ou o domingo sangrento de irlandeses e britânicos (quando caíram manifestantes desarmados), ou a queda do muro dos alemães (quando caem tijolos e concreto), ou até a revolução de 17 dos russos (e a queda do czar). 11 de setembro é transnacional, a televisão e a internet trataram de universalizar o desmoronamento daquelas torres, que puseram curiosamente em queda as bolsas de valores do mundo todo. E eu assisti a tudo, meio acordado, meio dormindo, sem saber exatamente se um outro avião batia na segunda torre ou se era a televisão que mostrava novamente o videotape dos primeiros avião e torre. E papéis caindo, pessoas caindo, e eu caindo no sofá, e acordando já à noite, enquanto as televisões do mundo todo continuavam transmitindo as cenas daquela tragédia, que a gente acabou adotando como nossa.

No outro dia, no colégio, antes da aula de informática, a turma se reuniu pra discutir tudo aquilo e quem sabe chegar a uma conclusão. Uns diziam que parecia um filme, outros que parecia um jogo, alguns chegaram a dizer que seria o estopim da terceira guerra mundial. Não lembro exatamente os argumentos de uns e outros, razão pela qual é impossível hoje empreender uma discussão historiográfica entre aqueles pensadores e nós, que levamos vantagens sobre eles, iluminados que estamos pelo conhecimento do que aconteceu depois. Fato é que depois de todo o bate-boca, caímos na risada com uma ou outra anedota sobre aquele dia de televisão estranha, que falava de coisas que a gente não entendia ou não se importava. Quem nunca caiu numa piada e depois teve vontade pegar um amigo na mesma e velha brincadeira? Pra gente era mais fácil rir do que não era com a gente. O ponto de pauta a seguir foi a prova do fim de mês. Todo mundo querendo saber o que caíria: frações, orações subordinadas, reino monera? Ninguém queria estudar o que não ia cair e o professor que sinceramente acreditava no mau funcionamento daquele sistema de avaliação caía no descrédito total quando passava matéria que não seria cobrada na avaliação seguinte. No vestibular era a mesma coisa: logarítmo ninguém entendia, poucos gostavam, e os mais sensatos estudavam, porque fatalmente cairia numa das provas.

E a maior prova de todas tinha sido antes. Eu lembro muito bem de ter chutado forte. Era o meio de campo e era o fim do jogo. Perdíamos por 2×1 e jogávamos pelo empate. Era futsal e não tinha acréscimo. O cronômetro não parava nas paradas de bola, como reza a regra do futsal, mas o juiz terminaria implacavelmente aos quinze do segundo tempo. Estávamos no segundo tempo e jogávamos com um homem a menos, homem que tinha caído e ficado lá mesmo, por dor ou vergonha de uma possível derrota (logo nós, que perdíamos todos anos, anteriores e posteriores àquele, mais acostumados com derrotas, impossível). Mas nos últimos segundos do segundo tempo a bola era minha e ninguém tinha mais pernas. Do meio-campo, eu chutei e a bola foi alto, alto, alto, passou pelo goleiro, o goleiro fez promessa pra que passasse pelo gol e o gol cada vez mais perto, parecendo que a bola o deixaria fácil fácil pra trás. Mas a bola, por algum motivo, caiu antes disso, caiu como folha seca que se desprende das árvores no outono (em lugares que têm outonos), caiu como os papéis das torres gêmeas, praticamente alheia a nós, antes da linha do gol, e foi morrer lá dentro, quase sem tocar a rede. E eu caí, estatelado. E prometi pra mim mesmo, olhando praquele teto de ferro e telhas brasilit, peito sem espaço pra tanto ar que saía quase tão rápido quanto entrava, que nunca esqueceria daquele momento, o mais feliz de toda uma vida de criança. E tinha sido o meu gol, meu melhor gol, graças à generosidade da bola que agora jazia encostada e esquecida no fundo da rede, coadjuvante de uma festa que deveria ser só dela, que agora fazíamos de pura ingratidão. A bola que caiu de propósito, apenas pra fazer a vida de alguém mais feliz, esperando pra ser chutada e maltratada pelos jogadores seguintes, por todos os jogadores do mundo.

O mundo que ficou todo triste quando minha mãe resolveu, por algum outro motivo, me ralhar. Ralhação feia, dessas que dão vontade de chorar. Cinco anos é mais ou menos a idade que todo projeto de homem começa a aprender que homem não chora, que homem chorão é maricas. E pra não me verem chorando, resolvi me esconder em cima das cadeiras cujos assentos se enfurnavam em baixo do pano de uma mesa, um lugar escuro e momentaneamente meu. As lágrimas caíram tanto e eram tantas e pesadas que eu também caí, caí num sono desses fortes, de varar a noite, de varar os anos, de morrer pro mundo e nascer pros sonhos, de ficar com muitas olheiras, mas quando você tem cinco anos, ou você não tem olheiras ou você não se importa com elas. Caí no sono e dizem que também o Remo caiu pra série D do Campeonato Brasileiro, mas é mentira. O Remo caiu no limbo dos clubes fora de série, de onde só será resgatado por uma boa campanha no Parazão. O Paysandu ganhou e perdeu, mas se garantiu na Série C do ano que vem. Os jornais dizem que o técnico bicolor pode cair a qualquer momento. E eu que vi o Boca Júniors cair sob um gol do Iarley em plena Bombonera, eu que vi o muro da Curuzu cair de tanta felicidade em 91 numa final de Campeonato Brasileiro, e que, de outro lado, vi o Paysandu cair tantas e tantas vezes de uma divisão a outra, sinto que deve carregar o time nas costas e quando ele cair, levantá-lo de novo. Nem sei por quê. Só sei que é assim.

Hoje, meus cabelos já caem. Uns meus amigos (uns dos melhores) juram que vão cair todos, rejeitam a genética que me deu uma ascendência de pais, avós e tios cabeludos até hoje e dizem que eu serei a ovelha negra. Engraçado vai ser se, em mais vinte anos, os deles caírem mais do que os meus e mais engraçado ainda se em vinte anos, eles continuarem meus amigos.

Fui batizado, comi a primeira hóstia, fui ungido pelos óleos da crisma, mas depois caí na real: Deus não existe. Conclusão óbvia e simples demais, logo abandonada por algo mais ecumênico e sensato: não dá pra dizer se Deus existe ou não. Percebi então que cair na real não tava com nada, o bom mesmo era inventar sua própria realidade e mostrar pros outros, quem sabe não gostavam? Aí comecei a escrever contos e fui mostrando pra todo mundo até que eles caíram nas mãos de alguém que gostou muito e, por gostar muito, resolveu dar um prêmio praquele autor: de repente eu tinha uma conta no banco, e vi pela primeira vez cair um dinheirinho ali. Acabou quase tão rápido quanto chegou, mas deu pra ter uma sensação boa de… sei lá… independência?

Independente disso, caí nos braços de uma morena com gosto de açúcar, que entre muitas outras coisas, fez minhas quedas serem menos doídas. Ela me agarrou, me largou, me pegou no ar e vai ser impossível ela cair no esquecimento depois de tudo. Dá pra dizer que todas as palavras que eu escrevo são, em última análise, pra ela porque ela me completa e me cai como uma luva. E eu sei que, quando a força da gravidade for mais forte que tudo, mais forte que peles, cabelos, ossos e músculos, ela, a morena, vai estar sempre ali, me lendo, me abraçando, me dando um colo preu cair com carinho, com um sorriso talvez mais cansado (eu sei porque eu aprendi a amá-la subindo e caindo de oito andares, num elevador, quase todos os dias). E eu vou poder entregar a ela as palavras de amor mais vulgares e bonitas que eu já vi alguém dedicar a alguém, escrito a giz (um giz que a chuva, quando caísse, apagaria) num muro preto de sujeira. Era assim:

20V (e um coração grande, do tamanho do amor deles.)

***

Curiosamente, aquele 11 de setembro caiu numa terça-feira, como hoje, 16 de setembro de 7 anos depois. Terça-feira é um dia sem muita graça, entre o começo e o meio da semana. Mas eu torço pra que isso não sirva de pretexto pra que o dia de hoje caia no esquecimento, afinal, tudo isso é só pra desejar as mais sinceras felicidades a todos que chegaram até aqui e não fizeram o mouse cair naquele quadradinho do x ali em cima. Isso inclui a mim.

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