Triste tango.

26 agosto, 2008 at 11:53 (Uncategorized)

tango é um pensamento triste que se pode dançar - Enrique Discépolo

tango é um pensamento triste que se pode dançar - Enrique Discépolo

Mariana escorregando delicadamente do oitavo andar como se tivesse passado toda sua vida escorregando. Mariana perseguida pelo mundo, por marianas envergonhadas a fitar com desdém os olhares murchos de Mariana, cantando para paredes o que os espelhos não cansavam de refletir, as camadas de ar sucedendo umas as outras, sufocando e cedendo ao peso de si mesmas, Mariana resistindo ao peso das lágrimas e das últimas palavras roucas que ressoavam, escorregando escorregando.

te cuida, menina, e um abraço menos abraço que o normal, o desejo do abraço mais desejo que vontade e o olhar caído ao chão, daquele que Mariana faria questão de recolher e entregar ao dono, limpando as lágrimas que não caíam, mas que deveriam cair por cortesia. Aquele cachorro, um xingamento impronuciável, fechado em sua própria inexistência, convidando o amor dono de tudo a seguir junto por aquele caminho sem fim. Porque todos os caminhos eram sem fim. Mariana não querendo existir, Mariana caindo olhando outras marianas e pedindo porquês e recebendo interrogações de volta, moeda injusta trocas injustas, e Mariana a sorrir reconhecendo que o sol nasceria de qualquer forma e se perguntando pra quê chorar.

te cuida, menina, e um último olhar à janela que não escorregou com ela, que nunca mais escorregaria, aonde Mariana nunca mais iria a se apaixonar pelo mundo cá fora e ali dentro, seus vícios esquisitos mudados em poesia, recebido por gargalhadas molhadas e sanduíches de atum, transmutados, transmoldados na última bolacha do pacote, dividida na mordida que ameaçava tirar pedaço de lábio alheio. Mariana e seus ossos que gelavam ao fino toque do vazio feito vento, soprado dos conhecidos lábios alheios, terras de encantos, canções de ninar e um triste tango – porque todos os tangos são tristes – a bater um nunca mais seco. Seco, seu coração seco e as metáforas que não funcionavam mais. Mariana repetindo os mantras de amor eterno um a um, numa voz não mais rouca, mas aveludada, como se as vozes ainda pudessem ser aveludadas, e não podendo acreditar que eram todos de mentirinha, querendo e não podendo concordar que as coisas mudam, sempre vão mudar. E os ossos gelados sucubindo querendo esfarelar estalando nas articulações, recitando a senha da auto-destruição que se anuncia e nunca chega, se anuncia e nunca chega e de repente chega sem ser anunciada.

uma palavra atropelando a outra e os pensamentos não precisam da linearidade que as orações exigem, e Mariana orando a ninguém, pensando ritmando as horas que o coração marcava e os ponteiros traduziam, não não acabou eu amo eu posso? os carros engatando a primeira e saindo, os carros estacionando, os carros suspirando e respirando seus próprios amores, os carros nem lingando pra dor de Mariana e outras marianas sofrendo suas próprias dores e um Rogério ou um Diogo analisando Mariana e disposto a consolá-la sem a certeza de que Mariana precisava de consolo. E quem não precisa de consolo? Ela só queria um lugar onde deitar a cabeça e sentir a respiração quente na raiz dos cabelos e se embalar ao movimento interminável da caixa torácica dele contraindo e expandindo contraindo expandindo e fechar os olhos com a certeza de que apenas os conhecidos alheios olhos iriam abri-los de novo. Sempre e nunca se confundindo na esperança de um consolo e o consolo sumindo e os rogérios virando a esquina, aumentando a freqüência dos passos, virando personagens genéricos desses sem cara nem cor nem sonhos nem medos nem coragens.

a gente vai ser feliz pra sempre, e os olhos caídos sem pedir pra serem levantados, os olhos tantas vezes sinceramente brilhantes, agora caídos ao chão, murchos como pão amanhecido, envergonhados, quem sabe mentirosos, quem sabe? os olhos que não enxergavam além de um borrão cinza, porque não foram feitos pra enxergar, mas pra conter o rio que o vento empurrava de dentro pra fora, e levava barcos velas papéis enseadas e ministérios, e um cais, acima e além de tudo um cais, cujo nome era adeus e o sobrenome saudade.

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