Ascendência

26 junho, 2008 at 02:46 (Uncategorized)

Tu viravas a cabeça e as cabeças não viravam de ti. Eu vou tentar não usar as palavras mais precisas pra te descrever, não quero te assustar. Tu tinhas medo de saber que por acaso sentirias medo, medo de não saber o que fazer quando estivesses sozinha, ou quase sozinha. Medo a gente sempre tem, mas não dá pra sentir medo de ter medo. Aí já é abusar. Sabe quando eu te falava as mesmas coisas que todo mundo te respondia, quando tu fazias aquelas mesmas perguntas? A gente queria te fazer sentir bem. Nessas horas ninguém pensa em dizer a verdade, ninguém quer ser antipático. Eu lembro de uma autora que não respondia os e-mails que os fãs lhe mandavam… morreu jovem e sozinha, câncer de pulmão, sem nunca ter metido meio cigarro na boca. Não te esquece de ser legal com as pessoas, todas elas: tu nunca sabes se o último escolhido na divisão de times — e mesmo assim porque era o dono da bola — vai ser o único disposto a fazer um discurso no teu velório. Esse papo de discurso em velório me parece aristocrático demais, coisa de gente morta que não consegue se desprender da vida na terra. O intelectual que, quando morreu, lhe dedicaram loas, tem agora, dedicada aos vermes, a mais profunda de suas entranhas, a que ponto chegamos, meu deus!, não respeitam o mais elementar direito de propriedade. Medo de morrer todo mundo, alguma hora, tem. E teu medo era menor, menores são sempre os medos dos outros.

Deixa eu te falar dele, antes que me peçam pronomes oblíquos. A narração distorce a cena, linearidade assassina da verdade, vou tentar fazer com frases e palavras soltas, que a gente ganha duplamente e ainda exercita o fluxo de consciência. Prometo não usar verbos bobos. Uma cara, duas caras, sem sombras e sorrisos. Móveis imóveis, afogados no silêncio dos gritinhos histéricos de pensamento, marcados pela sensação de serem arranhados dali a pouco, unhas grandes que não se cortavam por preguiça e descuidado. Janela inexistente que bloqueava todo o dia, o dia todo, que queria entrar. Ninguém entra ninguém sai, minha filha, fique logo sabendo. Saber encortinado em páginas e mais páginas encardidas, que tinham sido da mãe; antes dela, da vó; antes dela, da bisa; antes dela de uma ilustre dama aristocrata que jurava falar francês sem nunca ter ido sequer a Caiena. Ninguém tinha lido duas páginas seguidas e, se se arriscassem, capaz de não entender nada. E vamos tocar o piano em calda que meus netos vão fazer de lenha pra pular uma fogueira rala de São João! Um brinde, senhores. “À música que gela meus ossos, e esquenta os humores das raparigas assanhadas e namoradeiras”, esse mundo tá perdido, Cosme, vovó gostava tanto desse piano. Pula-se São João, eu fiz uma fogueirinha do piano da vovó. Mas vovó tão morta quanto as filhas de suas filhas, resta-nos a pergunta: que fazer sem lembranças, sem registros, sem fotos ou o altarzinho do culto aos mortos… vovó existiu, mesmo?

Quem foi o primeiro da nossa família, mãe?

Foi sua bisavó, filha, uma mulher assim, assado, que tinha isso e mais aquilo, não quis casar com aquele porque este era mais bonito e mais rico. Falava sem sotaque aquela língua e tocava essa música naquele piano igual daquela loja. Tinha nascido naquele velho continente, e não via a hora de deixar esse aqui, onde nunca se adaptou. Era uma mulher tão especial que não tinham inventado sequer palavras para descrevê-la com exatidão. Hoje em dia o que restou dela fomos nós, que ainda temos o seu sangue correndo em nossas veias.

E tinham restado as bonecas. Que assombravam, não sorriam e não piscavam, não deixavam ninguém dormir em paz naquele quarto. Tradição, né? Absurdo jogar fora as bonecas da vovó pianista. Mas, Damião, Carlinha não consegue dormir naquele quarto, ela tem medo das bonecas, diz que pra onde ela vai as bonecas ficam olhando e ralhando e perseguindo. Mas ó, mulher, tu vai ficar dando trela pra conversa de criança?, essa história passa, tu vê só, daí um tempo a Carlinha se acostuma com as bonecas, minha mãe dizia que a mãe dela mesma é que fez os vestidos delas. Deixa as bonecas lá que não fazem mal pra ninguém.

E Carlinha teria que crescer, porque definhar não é privilégio de ninguém, à sombra e assombros daquelas coisinhas seculares. Quando o médico apontou a tela e disse que o bebê da Carlinha era uma meninona, ela teve medo, vontade de chorar e quis ter entendido errado. Mas a sensação passou, como tudo passa. O avô da meninona não podia errar em tudo, afinal.

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1 Comentário

  1. Anônimo said,

    Lindo texto. Gostei muito do modo como escreves. Meus parabéns.

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