Cemitério Assombrado de Aviões

11 março, 2008 at 04:35 (Uncategorized)

É preciso muita coragem pra encarar essa página vazia.

As letras estão todas aqui, em algum lugar.

Procuro-as, elas fogem, brincam, fazem beicinho e correm.

Algumas eu pego, agarro pelo pescoço e meto no papel.

Mas a maioria foge.

E eu nunca mais encontro.

 

 

Era num limbo de palavras esquecidas que o escritor Epitácio Pessoa buscava inspiração pra suas histórias. Dentro dos sofás, debaixo das estantes, entre o fogão e a geladeira, em um ou noutro lugar aonde elas vão, ficam, e se deixarem, nunca mais voltam. Os leitores estranhavam tanto desuso vocabular, uma parafernália de palavras que já não serviam mais do que relíquias de museu. Epitácio Pessoa pegava seu espanador e agarrava cada palavra pelo braço, devolvia brilho de verniz, e as punha de volta num texto qualquer sobre aeromodelos. Não tinha muito aprumo, valia tudo. Gostava de aeromodelos porque lembrava de seu pai no hangar do aeroporto desativado. O velho coronel também pegava o jovem Epitácio (ainda não Pessoa) pelo braço, depois de ter mandado a mãe botar-lhe a roupa de missa e iam os dois pro céu aberto, queimar a cara no sol de meio-dia e ficar com torcicolo pelo resto da semana. O menino aprendeu a não reclamar depois da terceira vez, depois da terceira surra, porque o coronel era homem de ser obedecido e se ele dizia que o filho tinha que pilotar avião de brinquedo, então ele tinha que fazer isso sem choro. E se chorasse, apanhava mais. O pai era coronel da reserva, aviador frustrado e sofria de impotência sexual (esse último detalhe Epitácio Pessoa sequer suspeitaria). Como havia sido reprovado no teste de admissão à carreira de aeronauta, esperava ver seu sonho realizado na pessoa de seu único filho, concebido depois de tantas e tantas tentativas infelizes. O coronel só não contava que o jovem Epitácio nascesse um maricas, com medo de altura, de escuro e de ficar sozinho na multidão; que fosse calado, que chorasse de tudo, que passasse mais tempo consigo que arrumando confusão na rua e — medo dos medos — que preferisse passar o dia em casa contando as flores do jardim a um domingo de futebol. O coronel temia que o filho virasse viado, se é que já não era. Ele tinha era que ser brigador, valente, querer ser piloto de avião, quem sabe chegar ao espaço, quem sabe projetar uma bomba atômica ou levar um exército à guerra, se banhar no rio de sangue do inimigo, recolher os despojos, seja em ouro, seja em mulheres fáceis e chorosas. O coronel temia que o filho levasse a sério aquelas histórias que escrevia pelos cantos, conversas estranhas de se apaixonar pela lua, pelas estrelas e pelo vento frio da madrugada. Uns tais de Cantos ao Vermelho das Tardes escritos no caderno da escola, versos rabiscados nas árvores do quintal, isso era coisa de vagabundo ou comunista, onde o moleque tinha aprendido? Pra afastá-lo do mau caminho, levava-o todo fim de semana à pista esburacada e deserta de um ex-aeroporto, onde os fantasmas de antigos aeroplanos pediam um pouco de sossego aos motores dos brinquedinhos barulhentos importados diretamente da Argentina.

                — Zzzzuuuoooomm!! — e um deles subia, sob controle remoto — Zuuuummmooonnnnn! — e descia de bico pro chão, numa manobra arriscada.

                — Porra! Todo sábado é essa história? — reclamou baixinho um dos aviões ali perto, e logo depois baixou as pálpebras e se calou, convencido de que tudo na vida passa, menos o sono de carcaças tão antigas quanto o tempo.

Só quem não desistia era o coronel. Era viu isso meu filho pra lá, olha isso meu filho pra cá, uma empolgação que não acabava mais e um brilho nos olhos que rivalizava com o sol quente refletido numa gotinha de suor numa linha desenhada na testa. O bigodinho parecia balançar no vento quando o aviãozinho passava a alguns metros das cabeças deles (e o coronel o fazia dar rasantes cada vez mais próximos do chão, só para provar que tinha coragem e destreza). Epitácio achava tudo tão chato e repetitivo que passou a observar o redor, ferro retorcido num canto, mato alto em outro, chapas de alumínio que faziam a vista doer, e imensas, imensas mesmo, carcaças de aviões falidos, substituídos por outros mais modernos e talvez menores, mais bonitos e eficientes. Já pensou se eles falassem? Podia apostar que não estariam gostando da nossa presença aqui, no cemitério deles. E apostava. Mesmo consigo mesmo, pra não ter chance de perder. Aqueles aviões tão grandes e velhos — tinham até barba verde-limo — se pudessem expulsariam toda alma viva que ousasse atravessar o muro do campo de pouso. Só iam atrapalhar o sono de quem mais nada podia fazer além de dormir a eternidade, assim, de conchinha. Se pudessem até botariam uma placa informando: Cemitério Assombrado de Aviões, e uma caveira com asas de ilustração. Não podiam e mesmo que pudessem, Epitácio suspeitava que o coronel não acreditaria em tamanha sandice (àquela altura o menino já suspeitava que o pai não acreditasse sequer em Deus, suspeita confirmada quando o coronel blasfemou contra Igreja em razão de o Papa ter condenado publicamente a pena de morte em todos os países do mundo). E ainda que cresse, visse e ouvisse as almas penadas dos aviões, sem dúvida alguma, o coronel iria macular os limites do campo de pouso só para provar a sua coragem e arrojo e pilotaria seu aeromodelo de maneira tão segura quanto está fazendo agora, inúmeras manobras difíceis, desenhando seu nome no céu com uma tinta de fumaça branca, como se ele estivesse em pessoa lá dentro, singrando os ares, bombardeando o pátio de um porta-aviões inimigo.

E Epitácio achando tudo uma grande bobagem, achando que ele é o adulto e o pai, a criança, não deixa de se contagiar um pouquinho com a euforia quimérica do velho e promete a si mesmo que, quando crescer, vai caçar as letras daquele dia, recriar, inventar, mentir se for preciso, dar voz ao metal mudo e permitir que ele fale um palavrão. Provar pra seu pai que tem coragem sim, se tornou um escritor, virou Pessoa em homenagem ao poeta, ama as pessoas de todos os tipos e não pretende matá-las; não precisou virar viado e muito menos comunista pra ser sensível ao mundo e às coisas.

Que o coronel descanse em paz.

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2 Comentários

  1. Karin said,

    Belo e singelo…
    =)
    Adorei.

  2. lariana said,

    gsu 35 brftg b5vtrxf gwq4sdreq2wfasss bn u trgey

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