Arrepio.

26 fevereiro, 2008 at 04:36 (Uncategorized)

É dia de jogo da seleção. As horas obedecem cotidiano ritual. Inundando a janela em cores, brilho de incontáveis bandeirinhas inebria, embriaga de luz verde-amarela, preta passarela, caminho pras estrelas escondidas pelo sol. É dia de manhã incomum, virada do avesso, tempo descontado ao contrário, no revés das batidas dos ponteiros dos segundos. O primeiro que chega olha o teto, colorido de plástico pintado refletido, pensa fazê-lo piso, pensa fazê-lo passo. Não dói a vista, não cansa os olhos, afaga o espírito, avisa que tem vida, avista lá longe e aqui perto o começo e o fim de um espetáculo tão simples, espetáculo de luz e reflexo. É o plástico cortado bandeirolando, balançando, bailando ao sabor da brisa, brincando de ser gente, cantando, andorinhando, pulando preso ao fio que não lhe tolhe a liberdade, mas oferece o passo de sua dança. Borboletar das bandeirinhas. Feixe de luz que se mostra ao acaso e descansa a vista, translúcido, como a própria história do mundo que descreve. Seu Gerúndio, na primeira fila, batente da janela, as costas da dadas ao mundo, a atenção emprestada ao submundo das cores e do silêncio, é interrompido pelo grito da mulher. “Sai dessa janela homem, cuida que o jogo vai começar”.

Não se esqueçam que era dia de jogo da seleção e que as horas obedeciam cotidiano ritual. Não adianta dizer que futebol é só um bando de macho correndo atrás de uma bola, que não é. Só entende futebol quem entende o conjunto de símbolos e significados que carrega, os novelos que emenda, a mistura de sensações que engendra. Quem entende ou quem sente; o caso de Gerúndio é bem claro: ele é capaz de recitar a escalação da seleção de 62 tanto quanto outros recitam a Tabacaria, cada qual com seu cada qual. Cada um vê a beleza que merece. Ele também vê hipnose no movimento de vento e bandeirinha, vento e bandeirinha balançando, pareciam pares perfeitos, me daria o prazer desta contra-dança?, e dançavam como se o mundo fosse deles. Ela nunca diria não; ele nunca pisaria no pé dela. Eles diziam eu te amo na língua do pê e só eles entendiam, pareciam pares perfeitos. Ele era verde, ela amarelo, ele as matas, ela as riquezas, ele os Bragança, ela Habsburgo e o jogo ia começar, jogadores perfilados para o hino, vento e bandeirinhas. Essa Copa é em algum país do oriente, por isso o futebol logo depois do café da manhã, tão esquisito quanto assistir o jornal nacional no almoço. Mas a televisão traz tudo pra tão perto, aqui pra minha sala, lá do outro lado do mundo, era Japão ou Coréia do Sul, sendo que o Japão devia ser uma espécie de Coréia do Leste, já que tinha uma Coréia do Norte não tinha?, e tinha a China, a Coréia do Oeste, que era tão grande e o Japão tão rico, que os dois puderam mudar de nome e ter um exército. A Coréia do Norte devia ser o primo pobre dos quatro, ou isso ou perto disso. Aqueles homens tão iguais, olhos tão puxados, fala tão esquisita, tão longe. Na rua tinha um japonês, uma família japonesa, o homem era taxista. Mas era um tipo de japonês diferente, porque eles diziam que tinham vindo do interior; Gerúndio tinha quase certeza que no interior não tinha japonês, ou será que tinha? Eles vinham de tão longe, iam querer ficar no meio do mato? Mas devia ter japonês em todo canto, esse mundo tá tão doido que eu não boto minha mão no fogo por ninguém. A imagem vem tão certinha que é capaz do Japão ser ali depois de Alenquer, umas duas horas de condução. Geografia patriarcal e aleatória de Gerúndio, os países são todas da mesma família, a árvore genealógica do mundo e da humanidade se confundem, quebram galhos uma da outra.

A televisão chama de volta. Vento e bandeirinhas balançando no Japão. Hino nacional tocando, banda invisível se escondendo das câmeras, onde eles estavam? Torcida toda em sinal de respeito. Hino nacional recitando seus versos que ninguém entende. Seu Gerúndio parando, ouvindo, se perguntando, sentindo a alma levantar o braço direito na direção do peito, verde e amarelo tremulando nas janelas, a voz do próprio Deus cantando, reverberando em todas as paredes, ecoando, aumentando, invadindo:

— Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora à própria morte.

Era com Gerúndio. O corpo respondeu. A pele virou palco, arquibancada, a torcida levantou numa ola sem sinal, eriçou, encrespou, a banda não parou de tocar, a turma começou a gritar em silêncio, avisou que tinha vindo em caravana, que tinha ensaiado a coreografia, que ia fazer festa. A banda fez um gol e o jogo nem tinha começado. Seu Gerúndio não entendeu nada. Nem precisava.

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