Virou mar com muitíssimas modificações.

24 janeiro, 2008 at 05:34 (Uncategorized)

A estação virou mar, sujo, de ondículas regulares deitadas no leito do rio de cada roda. Deves ficar a distância razoável da borda da pista se não quiseres virar água. Deves ficar a distância razoável da borda da pista, porque se tiveres a uma distância maior do que a razoável, não verás o ônibus cujo barulho te acordará do devaneio e ele passará lépido e travesso como se já não refletisses no rosto a rigidez pétrea daquela demora. Tens que te equilibrar na linha imaginária entre o campo de visão do ônibus e o campo de chão seco que me impede de confundir a secura dos teus pés com o caldo quente do asfalto. Não te incomoda a verborragia? Mera instrução escrita em linguagem bula de remédio; em vulgar quer dizer que ou enxergas o ônibus e te molhas, ou não enxergas o ônibus e não te molhas (é só um jogo de palavras em que uma única peça negativa é responsável por inverter o xeque-mate). Antes que a matemática te aconselhe o cálculo do dano maior, te proponho um meio termo: te equilibrar na linha. (Imaginária como nosso mundo de letras, traços, traças e papéis novos ou velhos). Mas a vala — toda de concreto e quase nada de abstrato — a vala tinha crescido absurdamente — projetada para ser uma fina linha de água na margem da pista, tinha se alimentado bem, crescido, respeitado as águas maiores e mais velhas e, por fim, virado a própria pista. Festejada promoção da natureza! Naturalmente, algum buraco cansara-se de ser buraco, e a água, sem ter pra onde escorrer, tinha se encontrado com a preguiça e se deixado ficar preguiçosamente ali mesmo. A estação virou mar de águas cansadas e preguiçosas, pachorrentas, perigosas, com exceção de uma ilha no cume da montanha, onde as pessoas se apertam e esperam o ônibus. A expiar seus pecados. A distância nos faz cúmplices, o muro de abstrato que nos dividia virou escombro destruído por água de chuva. Tá certo que a gente não se olha, todos os olhos numa única direção, orando por elefantes branco-adventícios que dobrarão sem aviso uma esquina e, caso não vejam braço levantado, passam direto, apocalípticos. Tá certo que ninguém se dá conta de ninguém, tu mal sabes quem eu sou e menos ainda que me aproximo, transformas todos nós em espectros da mesma cara, cara de sombra, sem risos, olhares ou linhas de expressão. Vai alguma coisa aí dentro?

O ônibus dobrou, disse para o mar abrir suas alas que ele iria passar, vem trazendo estrépito e tremor às águas, que fazem sua denúncia em forma de movimento. Não vão parar, nem as águas nem o ônibus. Apertam-se as vistas, esperançosas, mas ele, hermético nele mesmo, não vai parar. Umas desistem; outra vira verbo e voz, arautos do cérebro molhado que estende os braços ao paquiderme de metal. “É o 415”. Olha pra frente: ali vai estar em milionésimos de segundo um amontoado de ferro-fundido; agora só é vento, mais tarde será tudo. Um inseto alado lhe daria passagem quando sentisse que o ônibus tomaria o espaço do vento que ele tava voando. Depois da movimentação de um ar carregado de umidade, voaria rápido pra cima, deixando desavisada sua alma repugnante ir ao encontro do pára-brisa que, dessa vez, pararia apenas brisa e não a vida prematura de asqueroso animal. Mas era noite e eu não te digo só verdades: a maioria dos insetos já se havia recolhido a seus leitos e os insones não estariam voando por aí. Era tarde e o ônibus parou, sem insetos, sem insônia. Não me crê em câmera lenta como a descrição te faz parecer. É tudo muito rápido ou nem é, mas onde falta realidade os dedos tratam de enxertar imagens alusivas. Tu vais dizer, injustamente, que estou apenas alongando o que é curto, que não tenho assunto e que essas folhas valem tanto quanto brancas. Ainda não me acostumei à tua indiferença, rude. Não me olhas, não me lês com atenção, não me ofereces palavras e sequer olhares. No entanto forças a vista, aperta teus olhos e sou eu que te anuncio o 415 e levo meu braço a avisá-lo que é pra parar que vais entrar. Entras e ainda não me dizes nada. Me deixas pisar no molhado e estar a mercê de parasitas submarinos, que constituem perigo na pachorra do mar, só pra provar que a vida é ingrata. Entra logo nesse ônibus que já te quero pelas costas. Já não seria a primeira vez: tive numa longa avenida as tuas costas largas como companheiras de horizonte, e tu, tão algemado em ti mesmo, dado que não tivesses um olho na nuca, sequer atinou ser alvo dos meus olhares. Tanto melhor.

Eu lembro que ainda não chovia, essas chuvas desse tempo chegam sem o maior aviso, o vento fica escuro, nuvens roxas cortinam o palco azul-marinho tão rápido quanto as apontamos, e uma gotinha vem espetar-nos como agulha a ponta do dedo. Mas ainda não chovia; faltava muito pra chover. Éramos quantos? Trinta? Se fôssemos, mais correto dizer que éramos vinte e nove; tu eras um. Escrever é melhor que falar porque é mais fácil desescrever que desfalar. Cheguei a perguntar de onde veio essa tua mania de ficar sempre sozinho, mas desperguntei: não gostas de responder perguntas obtusas e eu, quando posso, prefiro não ser inconveniente. Deixo como afirmação, de que não podes te esquivar: tens uma mania tola de estar sempre sozinho. Sozinho, viste o novo professor entrar em sala, abrindo a porta com certa delicadeza, as mãos na maçaneta, a outra equilibrava livros de tomos desproporcionais. Era a primeira aula. Ele não nos enganou. Enganou vários, a nós não. Desvelamos o véu do seu mistério: o que lhe faltasse em erudição lhe sobraria em páginas de livros nunca lidos ou lidos apenas superficialmente, e em várias línguas, quantas mais melhores, conhecer capas disfarça a ineficiência das sinapses, eis o raciocínio de nosso mestre. Não alcancei entendimento por meus méritos, mas pesquei-o no teu olhar. Acaso não vi teu riso amarelo quando o falso-erudito nos informou que era importantíssimo (ênfase no sufixo latino) conhecer outras línguas? Como se não fosse possível ter o cabedal que ele tinha se valendo tão somente da última flor do Lácio. Sim, meu amigo, há mais coisas entre o céu e a terra do que supunha aquele vão poliglotismo; e para o dramaturgo autor do aforismo já há as mais brilhantes traduções. Mas não gastemos saliva com nosso mestre, ele não é importante, importante é o que ele fez, ou o que ele nos mandou fazer ou o que tu não fizeste porque justamente ele tinha mandado fazer. Não te confunde, estou chegando ao ponto, ao motivo de tudo isso, dessas frases que nunca lerás mas que servem de fuga e diversão a um leitor que corajosamente continua fazendo a leitura que eu te fiz.

O motivo de tudo isso é teres te negado a escrever tuas verdades numa folha em branco. Foi o professor que nos deu. Era para guardar nossas primeiras impressões sobre a academia, nossos colegas, nossa vida, enfim, palavras sinceras que entregaríamos ao amigo do lado, à guisa de escambo cultural. Foi assim que eu entendi. Tu?, deves ter pensado: “Isso é só um pouco mais do que pedir pros novos alunos narrarem suas férias na praia, não esqueçam do cabeçalho e dos dois dedinhos da margem”. Não discordo, conquanto queira saber como foram tuas férias tanto quanto o motivo de teu rosto sisudo: mera curiosidade de quem nasceu com algo a menos. Não me culpa, quero te descobrir; te contei o que eu achava de tudo, de todas, expliquei resumidamente por que eu tava ali, falei que o bebedouro do bloco D não funcionava direito o que me fez comprar água mineral da tia do cafezinho, que tava com um gosto esquisito (devo ter usado uma sinestesia). Falei dos pássaros que me fizeram companhia à tarde toda, fugindo do sol embaixo de uma árvore corcunda, a quem eu contei que achava lindo que a universidade tivesse uma cara de fazenda e um cheiro de mato molhado. Disse que esperava me formar em tempo hábil, que adorava as leituras, as pessoas, o mistério grávido de um ponto de interrogação que eu adoraria desbravar. Falei de mim de maneira que parecesse falar do mundo e seus mistérios, numa linguagem cifrada cuja fechadura seria aberta pela chave mestra do teu olhar. Queria saber de ti e em troca ofereci um pouco do que vem aqui dentro. Te dei a folha dobrada na clausura de si mesma, fiquei te olhando enquanto punha em segurança o papel que tinhas me dado. Tu abriste a minha e começaste a ler; eu abri a tua e sorri constrangida pra uma folha em branco, com o mesmo branco de sempre, pronta não sei pra quê, que só refletia o vazio dos teus pensamentos.

Pro inferno com teus mistérios! Te agarra neles e vai pra parada de ônibus, onde eu vou buscar a gênese desse teu inferno que o tempo tingiu de branco.

E começou a chover.

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