Virou mar.

23 janeiro, 2008 at 06:16 (Uncategorized)

A estação virou mar, um mar sujo, de ondas pequenas e regulares formadas na passagem de cada roda. Deves ficar a uma distância razoável da borda da pista se não quiseres virar água. Deves ficar a uma distância razoável da borda da pista, porque se tiveres a uma distância maior, não verás o número do ônibus que vem e então ele passará lépido e travesso como se tu não estivesses ali justamente o esperando. Tens que te equilibrar na linha imaginária entre o campo de visão do ônibus e o campo gravitacional que te impede de levar um caldo da vala. A vala tinha crescido absurdamente — projetada para ser uma fina linha de água na margem da pista, tinha virado a própria pista. Naturalmente, algum buraco tinha deixado de ser buraco, e a água, sem ter pra onde ir, tinha se deixado ficar preguiçosamente ali mesmo. A estação virou mar de águas revoltas, com exceção de uma ilha mais alta, onde as pessoas se apertam para esperar o ônibus e expiar seus pecados. A distância nos faz cúmplices, um muro de concreto que nos dividia virou escombro destruído por água parada. Tá certo que a gente não se olha, todos os olhos numa única direção, esperando os elefantes brancos que dobrarão sem aviso uma esquina e caso não vejam braço levantado, passam direto. Tá certo que ninguém se dá conta de ninguém, tu mal sabes quem eu sou e menos ainda que tento uma aproximação, transformas todos nós em espectros da mesma cara, uma cara de sombra, sem risos, olhares ou linhas de expressão. Vai alguma coisa aí dentro?

O ônibus dobrou, disse para o mar abrir suas alas que ele vai passar, vem fazendo barulho e sem dar bola pra nós, quem mais daria? Tu não; eu por nós dois. Não vai parar. Apertam-se as vistas, esperançosas, mas ele não vai parar. Umas desistem, outras viram verbo e fazem seus respectivos cérebros molhados levantarem braços ao paquiderme de metal. “É o 415”. Olha pra frente: ali vai estar em milionésimos de segundo um amontoado de ferro-fundido; agora só é vento, mais tarde será tudo. Um inseto alado daria passagem sôfrega quando sentisse que o ônibus chegaria onde ele tava voando, depois da movimentação de um ar carregado de umidade, voaria rápido pra cima, deixando desavisada sua alma repugnante ir ao encontro do pára-brisa que, pelo menos dessa vez, apararia apenas brisa e não a vida prematura de asqueroso animal. Mas era noite e eu não te digo só verdades: a maioria dos insetos já se havia recolhido a seus leitos e os insones não estariam voando por aí. Era tarde e o ônibus parou, sem insetos, sem insônia. Não me crê em câmera lenta, como a descrição te faz parecer. É tudo muito rápido ou nem é, mas onde falta realidade os dedos tratam de enxertar imagens alusivas. Tu vais dizer, injustamente, que estou apenas alongando o que na verdade é curto, que não tenho assunto e que essas folhas valem tanto quanto brancas. Ainda não me acostumei à tua indiferença, rude. Não me olhas, não me lês com atenção, não me ofereces palavras e sequer olhares. No entanto forças a vista, aperta teus olhos e apenas eu te anuncio o 415 e levo meu braço a avisá-lo que é pra parar que vais entrar. Entras e ainda não me dizes nada. Me deixas pisar no molhado e estar a mercê de parasitas submarinos, só pra comprovar que a vida é ingrata. Entra logo nesse ônibus que já quero te ver pelas costas. Já não seria a primeira vez, tive numa longa avenida as tuas costas como companhia, e tu, tão algemado em ti mesmo, sequer atinou ser alvo dos meus olhares. Tanto melhor.

Eu lembro que ainda não chovia, essas chuvas desse tempo chegam sem o maior aviso, o vento fica escuro, nuvens roxas cortinam o palco azul-marinho tão rápido quanto as apontamos e uma gotinha vem espetar-nos como agulha a ponta do dedo. Mas ainda não chovia; faltava muito pra chover. Éramos quantos? Trinta? Se fôssemos, mais correto dizer que éramos vinte e nove e tu, um. Escrever é melhor que falar porque é mais fácil desescrever que desfalar. Cheguei a perguntar de onde veio essa tua mania de ficar sempre sozinho, mas desperguntei, não deves gostar de responder perguntas obtusas e eu não gosto de agir com inconveniência. Deixo como afirmação, de que não podes te esquivar: tens uma mania tola de estar sempre sozinho. Sozinho, viste o novo professor entrar em sala, abrindo a porta com certa delicadeza com uma das mãos enquanto a outra equilibrava livros de tomos desproporcionais a uma primeira aula. Ora, ele não nos enganou, eu suponho, enganou vários, a nós não. O que lhe faltava em erudição lhe sobraria em páginas de livros nunca lidos ou lidos apenas superficialmente, e em várias línguas, quantas mais melhores, eis o raciocínio de nosso mestre. Não alcancei entendimento por meus próprios méritos, mas pesquei-o no teu olhar. Acaso não vi teu riso amarelo quando o falso-erudito nos informou que era necessário conhecer outras línguas? Como se não fosse possível ter o cabedal que ele tinha se valendo tão somente da última flor do Lácio. Sim, meu amigo, há mais coisas entre o céu e a terra do que supunha aquele vão poliglotismo; e para o dramaturgo autor do aforismo já há as mais brilhantes traduções. Mas não gastemos tanta saliva com nosso mestre, ele não é importante, importante é o que ele fez, ou o que ele nos mandou fazer ou o que tu não fizeste porque justamente ele tinha mandado fazer. Não te confunde, estou chegando ao ponto, ao motivo de tudo isso, dessas frases que nunca irás ler mas que servem de fuga e diversão a um leitor que corajosamente continua fazendo a leitura que eu já te fiz.

O motivo de tudo isso é teres te negado a escrever tuas verdades na folha em branco que o professor nos deu para guardar nossas primeiras impressões sobre a academia, nossos colegas, nossa vida, enfim, palavras sinceras que entregaríamos ao amigo do lado, à guisa de escambo cultural. Ora, deves ter pensado: “Isso é só um pouco mais do que pedir pros novos alunos descreverem suas férias na praia”. Não discordo, embora ainda deseje saber como foram tuas férias tanto quanto desejo saber o motivo de teu rosto sisudo: mera curiosidade de quem nasceu com algo a menos. Não me culpa, quero te descobrir; te contei o que eu achava de tudo, de todas, narrei resumidamente por que estava ali, falei que o bebedouro do bloco D não funciona direito o que me fez comprar água mineral da tia do cafezinho, que tava com um gosto estranho. Falei dos pássaros que me fizeram companhia a tarde toda, fugindo do sol embaixo de uma árvore, a quem eu contei que achava lindo que a universidade tivesse uma cara de fazenda e um cheiro de mato molhado. Disse que esperava me formar em tempo hábil, que adorava as leituras, as pessoas, o mistério grávido de um ponto de interrogação que eu adoraria desfazer. Falei de mim de maneira que parecesse que eu falava do mundo e seus mistérios, numa linguagem cifrada cuja fechadura seria aberta por teu olhar sagaz. Queria saber de ti e em troca ofereci um pouco do que vinha aqui dentro. Te dei a folha dobrada em sua clausura, fiquei te olhando enquanto punha em segurança a que tinhas me dado. Tu abriste a minha e te puseste a ler; eu abri a tua e sorri constrangida pra uma folha em branco, exatamente com o mesmo branco de sempre, pronta não sei pra quê, que só refletia o vazio dos teus pensamentos.

Pro inferno com teus mistérios! Te agarra neles e vai pra parada de ônibus, onde eu vim buscar a gênese desse teu inferno que o tempo tingiu de branco.

E começou a chover.

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