Cor de papel velho.

18 janeiro, 2008 at 17:44 (Uncategorized)

Tem vezes que eu me meto a ser personagem. Não que eu seja falso ou pior, apenas me bate uma vontade imensa de ser diferente, alcançar um estágio de ser que não o apropriado ao momento. A vantagem disso? A satisfação da necessidade; a desvantagem, deficiência espontânea no convívio social. Que posso fazer se tenho arroubos involuntários de literatura? Se bate a necessidade imperiosa de ser um narrador, um discurso e quem sabe ao mesmo tempo um leitor que goza os benefícios da boa leitura feita assim, sem pretensão. Amaldiçoada seja a não invenção de uma máquina que traduza pensamentos crus em palavras físicas numa superfície de suporte qualquer, uma máquina portátil e de alimentação barata que permita aos livros serem escritos a qualquer lugar e momento e poupe o autor das aporrinhações de escrever. Ora, então há prazer maior que viver bela literatura no banal cotidiano? Pensar nas estruturas das formas, na poesia, na tênue articulação das palavras, na música que elas dedilham unidas umas às outras por significados inescrutáveis, na teia em que o leitor vai se enrolar, no sufocamento da garganta dele, nos equilíbrios de respiração. O diabo é ter que escrever. Clarice tava certa como ninguém jamais esteve. Viver é bom, o diabo é escrever.

 Mas enquanto não inventam a máquina, consolo-os com o arremedo do pensamento literário que me acometeu esta noite. Advirto-os logo que não terão a história completa, primeiro porque apenas a mim ela pertence, segundo porque mesmo se quisesse não poderia codificá-la por inteiro. E não quero. A arte nunca nasce pura; ela até nasce, mas seu parto sempre lhe deixa marcas permanentes de consciência humana, o ser maligno que me faz escolher as palavras certas que refletem meu estão de espírito; as que melhor me mostram como eu fui hoje e como serei sempre; as que carregam minha escrita de beleza, sinceridade e relevância. Mas nem tanto. Talvez seja verdade que o que eu tenho a lhes dizer é mais relevante a mim que aos que me lêem. Azar dos que me lêem por não terem vivido o que vivi, por serem o que são e não o que fui; têm que se contentar com essas toscas palavras de memória, esse simulacro de realidade que nunca é realidade. Literatura é quase nada perto da vida. Quase. O que tenho a lhes dizer é o seguinte.

 Chovia. Chovia não, chover é um verbo muito forte para descrever o baile das gotas de chuva naquele salão-atmosfera. Mais sincero dizer que os pontinhos de água se deixavam conduzir ao sabor de uma gravidade preguiçosa e decadente: a descrição perde em simplicidade, mas ganha em precisão. Antes de apresentar qualquer ser vivo no ambiente, devo dizer que o rapaz de que vou falar mais tarde é quem está acompanhando a valsa da chuva. Ele chega à conclusão de que com a mesma delicadeza que a chuva cai ao sabor do vento, ela pode cair ao contrário se o vento soprar de baixo pra cima. Ele diria que a chuvinha fina se deixava levar pela correnteza invisível de vento gelado, se fosse néscio. Como não é, admite que o fenômeno seja de natureza gravitacional. Também promete a si mesmo, naquele mesmo momento, que sua narrativa começará pela chuva fina que umedece seus olhos sinceramente atônitos, porque a chuva limpa o velho e traz o novo e a metáfora lhe serviria bem; mas pode ser que não. Pode ser que essa idéia só lhe tenha nascido quando sentou na frente da máquina depois de alguns minutos de reflexão. Chuva é um bom começo, e pensou numa boa mentira pra justificar tudo. Não dá pra saber, que vista o padre o hábito que mais lhe aprouver. Presenteio ao leitor o benefício da dúvida, pelo qual me deve ser imensamente grato. Sem essa dádiva Capitu teria de fato dado à luz um filho do Escobar. Ou não teria. E Dom Casmurro nos dois casos carregaria consigo rigorosamente a mesma graça: nenhuma. Presenteio o leitor com o benefício da dúvida. Além disso, cumpre dizer que o céu de que vinha a chuva era negro como a noite e sem estrelas. Entre ele e o asfalto negro-estrelado sobre o qual se pisava, se metiam umas lâmpadas amarelas que jogavam seu feixe cor-de-papel-velho ora no chão ora nos galhos de árvores aleatórias que invadiam a visão do céu. Nessa conformação, o caminho era feito de pedaços intercalados de luminosidade e escuridão, luminosidade e escuridão, luminosidade e escuridão, luminosidade e a dança das gotículas e a escuridão que as tornavam lembranças.

 O homem silencioso que vivia tudo isso era o único. Seus companheiros eram de uma animação que não permitiria qualquer contemplação além deles mesmo. Mas nosso protagonista (se ele me permite o rótulo tão inapropriado) não está triste. Ele sou eu querendo ser outro. Ele me vê como o narrador onisciente da semi-história dele. Sim, ele me vê; mais que isso, ele me é. Me acha um tolo por não saber o que ele está pensando, por tentar descobrir o mistério de seu silêncio, por ficar gastando palavras com a existência dele que já vai tão longe. Em minha defesa, argumento que não sou o único. Há uma moça, que de repente está a meu lado, que sincroniza seus passos com os meus, agasalha as mãos frias no bolso da calça como eu estou fazendo, percebe a repetição e imediatamente cruza os braços sobre a barriga, olha pro mesmo chão que estou olhando e roga silenciosamente por uma palavra minha. Desconfortável com tudo, larga os braços soltos paralelo ao corpo, finge não se incomodar com o frio e vai em silêncio, esperando uma palavra que não quero oferecer. Também quer saber por que estive e continuo teimosamente calado, mas não lhe dou nada, não porque ela não mereça, simplesmente porque não quero ser bicho social agora. Deixe que ela me leia como se lê a poesia de um bêbado: se me quiser entender que esteja bêbada também, ou se contente com o ilegível. C’est la vie.

 O narrador, tolo, acha que sabe mais que eu só porque lhe dei a alcunha de onisciente. Goza sua onisciência só pra se arrepender do gozo depois. De que lhe serve?, se ainda não descobriu o que vai aqui dentro. Tem muitas dúvidas, mais dúvidas do que seria prudente um contador de histórias ter; isso o amedronta. Tem medo das possibilidades e das perguntas, do futuro que lhe foge do controle. Melhor relaxar e sentar na cadeira de espectador, o pecado é querer se outorgar a propriedade de tudo, da razão, da verdade, da sabedoria suprema. Só consegue ser chato e óbvio e não arranca sequer um sorriso do leitor sensível. Deus nos livre! O melhor é relaxar e ver que da alegria geral eu sou o contraponto, a aparente triste figura. Não se deve procurar encontrar meus porquês, meus amigos talvez pensem que eu briguei com a namorada ou que finalmente cheguei à inevitável conclusão de que nunca arranjarei uma. Talvez tentem me dizer que meus problemas não se resolverão ficando assim, tão calado. Não lhes invado o coração à procura de seus porquês, por que me invadem a procura dos meus? Pobres almas alegres!, não percebem a valsa da chuva sobre eles, a sombra deles sob eles, o vento frio contra eles, o que quer que vá de bom dentro deles, se fartam deles e só deles.

 

(Me pus a esquecer o que tinha em mente. Escrever é uma estrada de várias possibilidades, de repente você se vê pegando um atalho sem volta, aleatório como as curvas de seu espírito e, pronto, o que você pensou já não é o que você escreveu. Bom pra você, pior pra seus leitores. Você não se perde em você mesmo, eles estão completamente desorientados tentando te encontrar, dá uma luz, um sinal, chama-os de volta.)

 Lembro que havia uma estrada por onde passava uma comitiva, luz amarela em cima, escuridão em algum lugar, água em cada centímetro cúbico. Havia uma estrada de asfalto e um rebanho de ovelhas do qual uma se desgarrava e ia mais atrás com a mão no bolso. Não digo que todos pensavam no afastamento dele ou que tentavam desvendar o mistério de seu silêncio, mas digo com a mais absoluta certeza que a ele fazia bem que seu silêncio causasse dúvida. Faz bem pensar que se está apto a ser lido, mesmo que seu leitor seja o mais sincero e dedicado semi-analfabeto, que tente decifrar uma ou outra construção, que tente adivinhar seu sentido através de seu próprio estado de espírito, que desista, feche o livro e vá ver televisão finalmente, crendo sinceramente que a melhor configuração de um quebra-cabeças de mil peças é guardado no fundo da gaveta. De todos os insucessos, restará ainda um único sucesso: o dele mesmo, estrela solitária cujo brilho compensa qualquer outro. Caminha sozinho olhando tudo, vendo beleza onde não há, vendo poesia onde ninguém mais vê, recitando essa ladainha enjoada como a doçura do mel de todas as abelhas. A poesia é egoísmo. E ele ri por dentro e por fora, e os outros pensam que, além de tudo, sua tristeza é masoquista.

 Fim do caminho, mas não fim do texto. Deve-se cogitar que a idéia de escrevê-lo amadureceu ali, na hora da despedida. Saiu de mancinho, à francesa, deixou pro narrador escolher as expressões que melhor descrevessem sua fuga silenciosa. Não se despediu, sequer ofereceu um sorriso à guisa de tchau, virou as costas e foi embora como um livro que termina numa vírgula. Foi-se embora e tudo se apagou com a chuva, não deu adeus e se tornou apenas um vazio inconsciente, uma folha em branco na frente da qual o autor sem assunto senta e começa a pensar nas primeiras palavras. E também nas últimas, porque todo texto termina antes de começar. Uma folha em branco, pronta,

 (pra ser manchada)

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