Sem parágrafos porque as chamas não ligam pra detalhes estéticos.

12 janeiro, 2008 at 09:05 (Uncategorized)

Memorial de Aires – Machado de Assis.

Último romance publicado em vida, no ano da morte de Machado, trata-se de uma espécie de diário de Aires, um diplomata aposentado, onde ele basicamente narra a relação de quatro personagens (o casal Aguiar, Fidélia e Tristão) e daqueles que os freqüentam, incluindo o próprio narrador. O romance é tido como autobiográfico (ou pseudo-autobiógrafico como avisa Augusto Meyer, conforme consta na apresentação da edição da L&PM, sem maiores detalhes) e é notório o tom leve e despretensioso da pena de Machado. A prosa é gostosa e de se ler em uma sentada, mas parece que falta assunto. O texto foi escrito na velhice de Machado estando ele cansado e doente, após a morte da esposa de um casamento de trinta e cinco anos, sem a qual, ele não poderia viver feliz. No romance intercalam-se dois personagens que talvez encarnem o autor em dois momentos de sua vida: o narrador, Aires, viúvo como Machado (e que mora na Rua do Catete, mesma rua em que o escritor morou boa parte da vida, vejam vocês!), que escreve em seu diário por não ter com quem conversar e aproveita para destilar seus comentários sobre a vida e tudo o mais; e Aguiar, esposo de D. Carmo, por quem morre de amores e com quem vive um casamento ideal, talvez o mesmo casamento que teve Machado com sua Carolina. O casal Aguiar não tem filhos, como não os tiveram o casal Assis (e como também não teve Brás Cubas e Bentinho, exceto o filho do Escobar — seria essa uma idéia fixa machadiana?). A gente Aguiar não tem filhos de sangue mas os tem de estimação e são dois: Fidélia, uma jovem viúva sobre cujo futuro Aires e sua irmã Rita debatem no começo do romance e Tristão, um médico que volta da Europa pra reencontrar os queridos padrinhos Aguiar. Todas as entradas do diário de Aires se referem de alguma maneira aos dois casais, ao amor que os primeiros devotam aos segundos e que este, cada um a sua vez, tem por aquele. Mas todos são bons, amáveis, corteses e idealizados, se amam e são sinceros, querem o melhor um para os outros. E até o narrador é um senhor simpático, sexagenário, culto e que quer ver todos bem. Aqui não temos quase nada da ironia sagaz de um Brás Cubas, por exemplo, ou dos sentimentos ruins e cegos que fazem sombra aos bons e sinceros, como num Dom Casmurro. É um romance água com açúcar sobre a classe média-alta do Rio de Janeiro de fins do Império (se é que o termo pode ser usado sem incorrer em anacronismo). Nem os anunciados comentários sobre a abolição e o republicanismo da apresentação da L&PM (sobre este último não senti nem o cheiro) dão pro gasto. O melhor do livro mesmo são as reflexões sobre a velhice já que a maioria dos personagens já passa ou beira os sessenta , e a relação desta com a mocidadejá que Tristão e Fidélia são jovens que convivem com velhos. Aires diz: “Os velhos não devem impedir a mocidade dos jovens; é direito destes ser feliz”, ou coisa parecida quando um dos personagens tem que inviabilizar seu casamento para ver o pai doente em outro estado. Destaque também para o diálogo freqüente de Aires com o papel em que deposita seus escritos: ele deixa claro, seu futuro é o fogo e como as chamas não precisam de muita explicação, quando um raciocínio fica pela metade, ele assim o deixa, sem culpa. Para nossa sorte parece que Aires morreu antes de poder queimar seu Memorial e pudemos ter acesso a esse texto limpinho e sincero, como uma boa despedida. Machado é bom demais.

(Curiosamente o Largo do Machado, no Rio de Janeiro, não tem esse nome por causa do escritor. Cheguei a essa conclusão porque o logradouro é citado no livro e porque pesquisei na internet. Mais curiosa ainda é a origem do nome: vem de um antigo açougue que ostentava a enorme imagem de um machado em sua fachada. O nome acabou pegando. Mesmo assim, fica a sensação de que eu vi uma estátua do Machado de Assis quando eu estive no Largo, não tenho absoluta certeza. De qualquer forma, posso estar confundindo com a do José de Alencar que, essa sim, existe com certeza, sentado numa cadeira, numa pracinha lá perto.)

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