Porra-louquice, lirismo e pé na estrada.

12 janeiro, 2008 at 11:12 (Uncategorized)

On The Road – Jack Kerouac

Chegou a hora de escrever sobre o Jack Kerouac. Primeira coisa sobre ele: seu sobrenome se pronuncia /querôuc/, conforme eu ouvi do Cláudio Moreno numa entrevista. Segunda coisa: ele não se chama Jack, mas Jean-Louis. Adotar pseudônimos é a coisa mais normal do mundo e esses detalhes são quase irrelevantes. O importante é que ele é adepto de uma escrita corrida, uma prosa afobada, um discurso rápido e ligeiro quase sem pontuação que, segundo ele, capta a essência e a poesia da linguagem da rua com a qual ele entrou em contato nas suas andanças pelos EUA. Chama-se “prosódia bop espontânea”, nome que faz referência ao jazz a que Kerouac tentava aproximar sua escrita. A metáfora é bonita: fazer a frase parecer o sopro de um saxofone, dar a sensação de que com uma mão se escreve, com a outra se marca o ritmo no tambor de uma bateria, transportar a musicalidade do jazz às palavras corridas e sonoras. Mas a metáfora funciona mais enquanto metáfora; na prática, não me impressionou muito não. Questão de gosto talvez. On The Road, a história de um jovem que cruza os EUA de ponta a ponta quase com dinheiro nenhum, em busca de diversão e sem preocupações, vale mais pelo que é, exatamente isso, um libelo pela liberdade.

Narrado por Sal Paradise, alter-ego de Kerouac, o livro é provavelmente o relato completo da viagem que o autor fez pelos EUA e além dele (até o México) nos idos dos anos 40 pós-guerra. No caminho, conhece várias pessoas — todas elas pessoas reais que assumem nomes inventados no romance — que aparentemente foram grandes expoentes do movimento beat, como o próprio Kerouac. A principal delas, Dean Moriarty, o cara mais porra-louca de quem eu já ouvi falar em toda a minha vida. O porra-louquismo de Dean, Sal e de On The Road como um todo resume muito bem o espírito da beat generation: basicamente eles não se importavam com nada além da própria felicidade, da diversão da noite das grandes cidades e da adrenalina que as curvas das highways americana proporcionam. E drogas. E sexo. Não digo rock n’ roll porque a parada dos beats é o bop, o sax, o trompete, o jazz, enfim. Mas eles queriam a felicidade pura, simples e sem aporrinhações; a leitura de On The Road me fez ver que a esse objetivo utópico, não é tão difícil se chegar. Não que eu me proponha a sair por aí a repetir os passos de Sal Paradise como muitos fizeram. Disse a uma amiga que vontade até bate de ser um beat (!), mas sobra preguiça. Prefiro exercer a liberdade que o livro propõe de outra forma. De que forma? Ainda procuro saber. Não sou um porra-louca como Dean Moriarty, nem tenho condições de me tornar um, mas gostei de saber do desprendimento dele e até posso admirar esse jeito de ser. De repente, associei isso a um ideal de vida Hakuna Matata, em especial por um mexicano que aparece lá pelo meio do romance cuja característica principal é sua gostosa irresponsabilidade de deixar todos seus problemas para amanhã. Mañana, repete ele, enquanto entorna a garrafa da bebida mais alcoólica em que conseguiu pôr as mãos. Aí vêm Timão e Pumba cantando alto, das profundezas da minha infância,

E os seus problemas, você deve esquecer
Isso é viver, é aprender
Hakuna Matata.

Chamariam isso de intertextualidade. On The Road fala de viver a vida, ser feliz agora, e só amanhã pensar na felicidade de amanhã; tudo muito bonito e na verdade, bastante sincero, já que o livro — como aparentemente todos de Kerouac — é autobiográfico. Faz bem refletir se a vida extremada que esses caras levam ou buscam levar não nos diz alguma coisa, a nós e a nossos pequenos problemas que impedem nossa alegria.

Mas me incomoda um pouco os termos que o tradutor Eduardo Bueno (o mesmo da série de História do Fantástico tão criticada pela academia, não sem alguma razão), usa para marcar o discurso jovial dos beats. Eles sempre se mandam e caem fora, e nunca vão embora. Todas as coisas são muito loucas ou doidas e nunca outro adjetivo que enriqueceria a descrição (convenhamos, dizer que algo é muito doido! é quase não dizer nada sobre ele). Os personagens usam o estranho vocativo homem para se referir uns aos outros e raramente o coloquial cara. Eu até concordo que muito disso talvez seja problema do próprio Kerouac, mas também não deve ser muito difícil para um tradutor driblar algumas repetições cansativas.

(Há também o estarrecedor fato de que ler On The Road em outra língua que não a inglesa deve ser o mesmo que ler Guimarães Rosa em alemão. Quer dizer, além dos eternos problemas de transcrever de uma língua original um texto para outra língua, On The Road se liga com tanta força à cultura americana do século 20 e, em conseqüência, à língua que é reflexo dela, que em qualquer tradução o texto perde muita força simbólica, a qual inclusive faz parte de sua proposta de inovação estética)

Diz o folclore que Kerouac escreveu On The Road, um calhamaço que na minha edição de bolso tem quase 400 páginas, em apenas três semanas, ao som do bop e sob a égide da benzedrina e que, para não perde o ritmo trocando as folhas da máquina de escrever, comprou um rolo de papel contínuo que hoje está em exposição permanente em Nova York, mais de 40 metros de papel de uma escrita alucinante e maluca, a tal prosódia bop espontânea. Mas não nos enganemos: esses originais ficaram uma década na geladeira, esperando a boa vontade de algum editor para enfim virarem livro e quando esta apareceu, Kerouac foi obrigado a reescrevê-lo todo, fazendo as modificações que seu primeiro editor impôs como condição de publicação. Tais modificações consistiam em simplesmente tornar o livro palatável para uma pessoa comum, para que ela não precisasse estar ouvindo jazz, sob efeito da benzedrina e nem ser um louco alucinado para entender o que Kerouac queria dizer. Sábio editor. Depois que ficou famoso, foi apelidado de “rei dos beats”, seu best-seller tido como a Bíblia da beat generation, Kerouac resolveu publicar livros sem as sensatas modificações do editor, na prosódia bop espontânea nua e crua. Li um deles, Tristessa, e apesar de ter gostado, devo admitir que o livro é quase completamente ilegível.

Mas o toque que as loucuras de Dean Moriarty e Sal Paradise nos dão, a nós leitores abertos a novas experiências, creio não ter preço. Dean se comporta como um pensador, como todos nós que algum dia já pensamos sobre a nossa existência. Mas Dean não deixa que seus pensamentos, quaisquer que sejam, impeçam sua ação, sua felicidade, sua busca pela boa vida. E nos convida a fazer o mesmo. Não é sensato pelo menos ouvir o que tem a dizer?

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1 Comentário

  1. Karin said,

    Não cheguei a ler “On the road”, mas li [não até o fim, confesso – o autor é repetitivo e cansativo] “Vagabundos Iluminados”. A obra pretende ser um ‘on the Road’ zen. O protagonista viaja os EUA pegando carona ou pulando em trens de carga, escala montanhas e passa alguns dias refletindo sobre a vida, além de conversar um bocado com um indígena que estuda história chinesa e escreve poemas em chinês. No fim das contas, acaba não transmitindo a essência do budismo, nem da poesia chinesa, nem da vida de vagabundo.
    Mas dá uma tremenda vontade de largar tudo e ir escalar por aí, sem dia pra voltar, com uma mochila cheia de comida desidratada e um saco de dormir de pena de pato. Assim como você, sei que não farei isso. Ao menos não a parte de largar tudo e ir sozinha.
    Quer me acompanhar num fim-de-semana na montanha?
    Beijão!

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