Virou mar com muitíssimas modificações.

24 janeiro, 2008 at 05:34 (Uncategorized)

A estação virou mar, sujo, de ondículas regulares deitadas no leito do rio de cada roda. Deves ficar a distância razoável da borda da pista se não quiseres virar água. Deves ficar a distância razoável da borda da pista, porque se tiveres a uma distância maior do que a razoável, não verás o ônibus cujo barulho te acordará do devaneio e ele passará lépido e travesso como se já não refletisses no rosto a rigidez pétrea daquela demora. Tens que te equilibrar na linha imaginária entre o campo de visão do ônibus e o campo de chão seco que me impede de confundir a secura dos teus pés com o caldo quente do asfalto. Não te incomoda a verborragia? Mera instrução escrita em linguagem bula de remédio; em vulgar quer dizer que ou enxergas o ônibus e te molhas, ou não enxergas o ônibus e não te molhas (é só um jogo de palavras em que uma única peça negativa é responsável por inverter o xeque-mate). Antes que a matemática te aconselhe o cálculo do dano maior, te proponho um meio termo: te equilibrar na linha. (Imaginária como nosso mundo de letras, traços, traças e papéis novos ou velhos). Mas a vala — toda de concreto e quase nada de abstrato — a vala tinha crescido absurdamente — projetada para ser uma fina linha de água na margem da pista, tinha se alimentado bem, crescido, respeitado as águas maiores e mais velhas e, por fim, virado a própria pista. Festejada promoção da natureza! Naturalmente, algum buraco cansara-se de ser buraco, e a água, sem ter pra onde escorrer, tinha se encontrado com a preguiça e se deixado ficar preguiçosamente ali mesmo. A estação virou mar de águas cansadas e preguiçosas, pachorrentas, perigosas, com exceção de uma ilha no cume da montanha, onde as pessoas se apertam e esperam o ônibus. A expiar seus pecados. A distância nos faz cúmplices, o muro de abstrato que nos dividia virou escombro destruído por água de chuva. Tá certo que a gente não se olha, todos os olhos numa única direção, orando por elefantes branco-adventícios que dobrarão sem aviso uma esquina e, caso não vejam braço levantado, passam direto, apocalípticos. Tá certo que ninguém se dá conta de ninguém, tu mal sabes quem eu sou e menos ainda que me aproximo, transformas todos nós em espectros da mesma cara, cara de sombra, sem risos, olhares ou linhas de expressão. Vai alguma coisa aí dentro?

O ônibus dobrou, disse para o mar abrir suas alas que ele iria passar, vem trazendo estrépito e tremor às águas, que fazem sua denúncia em forma de movimento. Não vão parar, nem as águas nem o ônibus. Apertam-se as vistas, esperançosas, mas ele, hermético nele mesmo, não vai parar. Umas desistem; outra vira verbo e voz, arautos do cérebro molhado que estende os braços ao paquiderme de metal. “É o 415”. Olha pra frente: ali vai estar em milionésimos de segundo um amontoado de ferro-fundido; agora só é vento, mais tarde será tudo. Um inseto alado lhe daria passagem quando sentisse que o ônibus tomaria o espaço do vento que ele tava voando. Depois da movimentação de um ar carregado de umidade, voaria rápido pra cima, deixando desavisada sua alma repugnante ir ao encontro do pára-brisa que, dessa vez, pararia apenas brisa e não a vida prematura de asqueroso animal. Mas era noite e eu não te digo só verdades: a maioria dos insetos já se havia recolhido a seus leitos e os insones não estariam voando por aí. Era tarde e o ônibus parou, sem insetos, sem insônia. Não me crê em câmera lenta como a descrição te faz parecer. É tudo muito rápido ou nem é, mas onde falta realidade os dedos tratam de enxertar imagens alusivas. Tu vais dizer, injustamente, que estou apenas alongando o que é curto, que não tenho assunto e que essas folhas valem tanto quanto brancas. Ainda não me acostumei à tua indiferença, rude. Não me olhas, não me lês com atenção, não me ofereces palavras e sequer olhares. No entanto forças a vista, aperta teus olhos e sou eu que te anuncio o 415 e levo meu braço a avisá-lo que é pra parar que vais entrar. Entras e ainda não me dizes nada. Me deixas pisar no molhado e estar a mercê de parasitas submarinos, que constituem perigo na pachorra do mar, só pra provar que a vida é ingrata. Entra logo nesse ônibus que já te quero pelas costas. Já não seria a primeira vez: tive numa longa avenida as tuas costas largas como companheiras de horizonte, e tu, tão algemado em ti mesmo, dado que não tivesses um olho na nuca, sequer atinou ser alvo dos meus olhares. Tanto melhor.

Eu lembro que ainda não chovia, essas chuvas desse tempo chegam sem o maior aviso, o vento fica escuro, nuvens roxas cortinam o palco azul-marinho tão rápido quanto as apontamos, e uma gotinha vem espetar-nos como agulha a ponta do dedo. Mas ainda não chovia; faltava muito pra chover. Éramos quantos? Trinta? Se fôssemos, mais correto dizer que éramos vinte e nove; tu eras um. Escrever é melhor que falar porque é mais fácil desescrever que desfalar. Cheguei a perguntar de onde veio essa tua mania de ficar sempre sozinho, mas desperguntei: não gostas de responder perguntas obtusas e eu, quando posso, prefiro não ser inconveniente. Deixo como afirmação, de que não podes te esquivar: tens uma mania tola de estar sempre sozinho. Sozinho, viste o novo professor entrar em sala, abrindo a porta com certa delicadeza, as mãos na maçaneta, a outra equilibrava livros de tomos desproporcionais. Era a primeira aula. Ele não nos enganou. Enganou vários, a nós não. Desvelamos o véu do seu mistério: o que lhe faltasse em erudição lhe sobraria em páginas de livros nunca lidos ou lidos apenas superficialmente, e em várias línguas, quantas mais melhores, conhecer capas disfarça a ineficiência das sinapses, eis o raciocínio de nosso mestre. Não alcancei entendimento por meus méritos, mas pesquei-o no teu olhar. Acaso não vi teu riso amarelo quando o falso-erudito nos informou que era importantíssimo (ênfase no sufixo latino) conhecer outras línguas? Como se não fosse possível ter o cabedal que ele tinha se valendo tão somente da última flor do Lácio. Sim, meu amigo, há mais coisas entre o céu e a terra do que supunha aquele vão poliglotismo; e para o dramaturgo autor do aforismo já há as mais brilhantes traduções. Mas não gastemos saliva com nosso mestre, ele não é importante, importante é o que ele fez, ou o que ele nos mandou fazer ou o que tu não fizeste porque justamente ele tinha mandado fazer. Não te confunde, estou chegando ao ponto, ao motivo de tudo isso, dessas frases que nunca lerás mas que servem de fuga e diversão a um leitor que corajosamente continua fazendo a leitura que eu te fiz.

O motivo de tudo isso é teres te negado a escrever tuas verdades numa folha em branco. Foi o professor que nos deu. Era para guardar nossas primeiras impressões sobre a academia, nossos colegas, nossa vida, enfim, palavras sinceras que entregaríamos ao amigo do lado, à guisa de escambo cultural. Foi assim que eu entendi. Tu?, deves ter pensado: “Isso é só um pouco mais do que pedir pros novos alunos narrarem suas férias na praia, não esqueçam do cabeçalho e dos dois dedinhos da margem”. Não discordo, conquanto queira saber como foram tuas férias tanto quanto o motivo de teu rosto sisudo: mera curiosidade de quem nasceu com algo a menos. Não me culpa, quero te descobrir; te contei o que eu achava de tudo, de todas, expliquei resumidamente por que eu tava ali, falei que o bebedouro do bloco D não funcionava direito o que me fez comprar água mineral da tia do cafezinho, que tava com um gosto esquisito (devo ter usado uma sinestesia). Falei dos pássaros que me fizeram companhia à tarde toda, fugindo do sol embaixo de uma árvore corcunda, a quem eu contei que achava lindo que a universidade tivesse uma cara de fazenda e um cheiro de mato molhado. Disse que esperava me formar em tempo hábil, que adorava as leituras, as pessoas, o mistério grávido de um ponto de interrogação que eu adoraria desbravar. Falei de mim de maneira que parecesse falar do mundo e seus mistérios, numa linguagem cifrada cuja fechadura seria aberta pela chave mestra do teu olhar. Queria saber de ti e em troca ofereci um pouco do que vem aqui dentro. Te dei a folha dobrada na clausura de si mesma, fiquei te olhando enquanto punha em segurança o papel que tinhas me dado. Tu abriste a minha e começaste a ler; eu abri a tua e sorri constrangida pra uma folha em branco, com o mesmo branco de sempre, pronta não sei pra quê, que só refletia o vazio dos teus pensamentos.

Pro inferno com teus mistérios! Te agarra neles e vai pra parada de ônibus, onde eu vou buscar a gênese desse teu inferno que o tempo tingiu de branco.

E começou a chover.

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Virou mar.

23 janeiro, 2008 at 06:16 (Uncategorized)

A estação virou mar, um mar sujo, de ondas pequenas e regulares formadas na passagem de cada roda. Deves ficar a uma distância razoável da borda da pista se não quiseres virar água. Deves ficar a uma distância razoável da borda da pista, porque se tiveres a uma distância maior, não verás o número do ônibus que vem e então ele passará lépido e travesso como se tu não estivesses ali justamente o esperando. Tens que te equilibrar na linha imaginária entre o campo de visão do ônibus e o campo gravitacional que te impede de levar um caldo da vala. A vala tinha crescido absurdamente — projetada para ser uma fina linha de água na margem da pista, tinha virado a própria pista. Naturalmente, algum buraco tinha deixado de ser buraco, e a água, sem ter pra onde ir, tinha se deixado ficar preguiçosamente ali mesmo. A estação virou mar de águas revoltas, com exceção de uma ilha mais alta, onde as pessoas se apertam para esperar o ônibus e expiar seus pecados. A distância nos faz cúmplices, um muro de concreto que nos dividia virou escombro destruído por água parada. Tá certo que a gente não se olha, todos os olhos numa única direção, esperando os elefantes brancos que dobrarão sem aviso uma esquina e caso não vejam braço levantado, passam direto. Tá certo que ninguém se dá conta de ninguém, tu mal sabes quem eu sou e menos ainda que tento uma aproximação, transformas todos nós em espectros da mesma cara, uma cara de sombra, sem risos, olhares ou linhas de expressão. Vai alguma coisa aí dentro?

O ônibus dobrou, disse para o mar abrir suas alas que ele vai passar, vem fazendo barulho e sem dar bola pra nós, quem mais daria? Tu não; eu por nós dois. Não vai parar. Apertam-se as vistas, esperançosas, mas ele não vai parar. Umas desistem, outras viram verbo e fazem seus respectivos cérebros molhados levantarem braços ao paquiderme de metal. “É o 415”. Olha pra frente: ali vai estar em milionésimos de segundo um amontoado de ferro-fundido; agora só é vento, mais tarde será tudo. Um inseto alado daria passagem sôfrega quando sentisse que o ônibus chegaria onde ele tava voando, depois da movimentação de um ar carregado de umidade, voaria rápido pra cima, deixando desavisada sua alma repugnante ir ao encontro do pára-brisa que, pelo menos dessa vez, apararia apenas brisa e não a vida prematura de asqueroso animal. Mas era noite e eu não te digo só verdades: a maioria dos insetos já se havia recolhido a seus leitos e os insones não estariam voando por aí. Era tarde e o ônibus parou, sem insetos, sem insônia. Não me crê em câmera lenta, como a descrição te faz parecer. É tudo muito rápido ou nem é, mas onde falta realidade os dedos tratam de enxertar imagens alusivas. Tu vais dizer, injustamente, que estou apenas alongando o que na verdade é curto, que não tenho assunto e que essas folhas valem tanto quanto brancas. Ainda não me acostumei à tua indiferença, rude. Não me olhas, não me lês com atenção, não me ofereces palavras e sequer olhares. No entanto forças a vista, aperta teus olhos e apenas eu te anuncio o 415 e levo meu braço a avisá-lo que é pra parar que vais entrar. Entras e ainda não me dizes nada. Me deixas pisar no molhado e estar a mercê de parasitas submarinos, só pra comprovar que a vida é ingrata. Entra logo nesse ônibus que já quero te ver pelas costas. Já não seria a primeira vez, tive numa longa avenida as tuas costas como companhia, e tu, tão algemado em ti mesmo, sequer atinou ser alvo dos meus olhares. Tanto melhor.

Eu lembro que ainda não chovia, essas chuvas desse tempo chegam sem o maior aviso, o vento fica escuro, nuvens roxas cortinam o palco azul-marinho tão rápido quanto as apontamos e uma gotinha vem espetar-nos como agulha a ponta do dedo. Mas ainda não chovia; faltava muito pra chover. Éramos quantos? Trinta? Se fôssemos, mais correto dizer que éramos vinte e nove e tu, um. Escrever é melhor que falar porque é mais fácil desescrever que desfalar. Cheguei a perguntar de onde veio essa tua mania de ficar sempre sozinho, mas desperguntei, não deves gostar de responder perguntas obtusas e eu não gosto de agir com inconveniência. Deixo como afirmação, de que não podes te esquivar: tens uma mania tola de estar sempre sozinho. Sozinho, viste o novo professor entrar em sala, abrindo a porta com certa delicadeza com uma das mãos enquanto a outra equilibrava livros de tomos desproporcionais a uma primeira aula. Ora, ele não nos enganou, eu suponho, enganou vários, a nós não. O que lhe faltava em erudição lhe sobraria em páginas de livros nunca lidos ou lidos apenas superficialmente, e em várias línguas, quantas mais melhores, eis o raciocínio de nosso mestre. Não alcancei entendimento por meus próprios méritos, mas pesquei-o no teu olhar. Acaso não vi teu riso amarelo quando o falso-erudito nos informou que era necessário conhecer outras línguas? Como se não fosse possível ter o cabedal que ele tinha se valendo tão somente da última flor do Lácio. Sim, meu amigo, há mais coisas entre o céu e a terra do que supunha aquele vão poliglotismo; e para o dramaturgo autor do aforismo já há as mais brilhantes traduções. Mas não gastemos tanta saliva com nosso mestre, ele não é importante, importante é o que ele fez, ou o que ele nos mandou fazer ou o que tu não fizeste porque justamente ele tinha mandado fazer. Não te confunde, estou chegando ao ponto, ao motivo de tudo isso, dessas frases que nunca irás ler mas que servem de fuga e diversão a um leitor que corajosamente continua fazendo a leitura que eu já te fiz.

O motivo de tudo isso é teres te negado a escrever tuas verdades na folha em branco que o professor nos deu para guardar nossas primeiras impressões sobre a academia, nossos colegas, nossa vida, enfim, palavras sinceras que entregaríamos ao amigo do lado, à guisa de escambo cultural. Ora, deves ter pensado: “Isso é só um pouco mais do que pedir pros novos alunos descreverem suas férias na praia”. Não discordo, embora ainda deseje saber como foram tuas férias tanto quanto desejo saber o motivo de teu rosto sisudo: mera curiosidade de quem nasceu com algo a menos. Não me culpa, quero te descobrir; te contei o que eu achava de tudo, de todas, narrei resumidamente por que estava ali, falei que o bebedouro do bloco D não funciona direito o que me fez comprar água mineral da tia do cafezinho, que tava com um gosto estranho. Falei dos pássaros que me fizeram companhia a tarde toda, fugindo do sol embaixo de uma árvore, a quem eu contei que achava lindo que a universidade tivesse uma cara de fazenda e um cheiro de mato molhado. Disse que esperava me formar em tempo hábil, que adorava as leituras, as pessoas, o mistério grávido de um ponto de interrogação que eu adoraria desfazer. Falei de mim de maneira que parecesse que eu falava do mundo e seus mistérios, numa linguagem cifrada cuja fechadura seria aberta por teu olhar sagaz. Queria saber de ti e em troca ofereci um pouco do que vinha aqui dentro. Te dei a folha dobrada em sua clausura, fiquei te olhando enquanto punha em segurança a que tinhas me dado. Tu abriste a minha e te puseste a ler; eu abri a tua e sorri constrangida pra uma folha em branco, exatamente com o mesmo branco de sempre, pronta não sei pra quê, que só refletia o vazio dos teus pensamentos.

Pro inferno com teus mistérios! Te agarra neles e vai pra parada de ônibus, onde eu vim buscar a gênese desse teu inferno que o tempo tingiu de branco.

E começou a chover.

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Cor de papel velho.

18 janeiro, 2008 at 17:44 (Uncategorized)

Tem vezes que eu me meto a ser personagem. Não que eu seja falso ou pior, apenas me bate uma vontade imensa de ser diferente, alcançar um estágio de ser que não o apropriado ao momento. A vantagem disso? A satisfação da necessidade; a desvantagem, deficiência espontânea no convívio social. Que posso fazer se tenho arroubos involuntários de literatura? Se bate a necessidade imperiosa de ser um narrador, um discurso e quem sabe ao mesmo tempo um leitor que goza os benefícios da boa leitura feita assim, sem pretensão. Amaldiçoada seja a não invenção de uma máquina que traduza pensamentos crus em palavras físicas numa superfície de suporte qualquer, uma máquina portátil e de alimentação barata que permita aos livros serem escritos a qualquer lugar e momento e poupe o autor das aporrinhações de escrever. Ora, então há prazer maior que viver bela literatura no banal cotidiano? Pensar nas estruturas das formas, na poesia, na tênue articulação das palavras, na música que elas dedilham unidas umas às outras por significados inescrutáveis, na teia em que o leitor vai se enrolar, no sufocamento da garganta dele, nos equilíbrios de respiração. O diabo é ter que escrever. Clarice tava certa como ninguém jamais esteve. Viver é bom, o diabo é escrever.

 Mas enquanto não inventam a máquina, consolo-os com o arremedo do pensamento literário que me acometeu esta noite. Advirto-os logo que não terão a história completa, primeiro porque apenas a mim ela pertence, segundo porque mesmo se quisesse não poderia codificá-la por inteiro. E não quero. A arte nunca nasce pura; ela até nasce, mas seu parto sempre lhe deixa marcas permanentes de consciência humana, o ser maligno que me faz escolher as palavras certas que refletem meu estão de espírito; as que melhor me mostram como eu fui hoje e como serei sempre; as que carregam minha escrita de beleza, sinceridade e relevância. Mas nem tanto. Talvez seja verdade que o que eu tenho a lhes dizer é mais relevante a mim que aos que me lêem. Azar dos que me lêem por não terem vivido o que vivi, por serem o que são e não o que fui; têm que se contentar com essas toscas palavras de memória, esse simulacro de realidade que nunca é realidade. Literatura é quase nada perto da vida. Quase. O que tenho a lhes dizer é o seguinte.

 Chovia. Chovia não, chover é um verbo muito forte para descrever o baile das gotas de chuva naquele salão-atmosfera. Mais sincero dizer que os pontinhos de água se deixavam conduzir ao sabor de uma gravidade preguiçosa e decadente: a descrição perde em simplicidade, mas ganha em precisão. Antes de apresentar qualquer ser vivo no ambiente, devo dizer que o rapaz de que vou falar mais tarde é quem está acompanhando a valsa da chuva. Ele chega à conclusão de que com a mesma delicadeza que a chuva cai ao sabor do vento, ela pode cair ao contrário se o vento soprar de baixo pra cima. Ele diria que a chuvinha fina se deixava levar pela correnteza invisível de vento gelado, se fosse néscio. Como não é, admite que o fenômeno seja de natureza gravitacional. Também promete a si mesmo, naquele mesmo momento, que sua narrativa começará pela chuva fina que umedece seus olhos sinceramente atônitos, porque a chuva limpa o velho e traz o novo e a metáfora lhe serviria bem; mas pode ser que não. Pode ser que essa idéia só lhe tenha nascido quando sentou na frente da máquina depois de alguns minutos de reflexão. Chuva é um bom começo, e pensou numa boa mentira pra justificar tudo. Não dá pra saber, que vista o padre o hábito que mais lhe aprouver. Presenteio ao leitor o benefício da dúvida, pelo qual me deve ser imensamente grato. Sem essa dádiva Capitu teria de fato dado à luz um filho do Escobar. Ou não teria. E Dom Casmurro nos dois casos carregaria consigo rigorosamente a mesma graça: nenhuma. Presenteio o leitor com o benefício da dúvida. Além disso, cumpre dizer que o céu de que vinha a chuva era negro como a noite e sem estrelas. Entre ele e o asfalto negro-estrelado sobre o qual se pisava, se metiam umas lâmpadas amarelas que jogavam seu feixe cor-de-papel-velho ora no chão ora nos galhos de árvores aleatórias que invadiam a visão do céu. Nessa conformação, o caminho era feito de pedaços intercalados de luminosidade e escuridão, luminosidade e escuridão, luminosidade e escuridão, luminosidade e a dança das gotículas e a escuridão que as tornavam lembranças.

 O homem silencioso que vivia tudo isso era o único. Seus companheiros eram de uma animação que não permitiria qualquer contemplação além deles mesmo. Mas nosso protagonista (se ele me permite o rótulo tão inapropriado) não está triste. Ele sou eu querendo ser outro. Ele me vê como o narrador onisciente da semi-história dele. Sim, ele me vê; mais que isso, ele me é. Me acha um tolo por não saber o que ele está pensando, por tentar descobrir o mistério de seu silêncio, por ficar gastando palavras com a existência dele que já vai tão longe. Em minha defesa, argumento que não sou o único. Há uma moça, que de repente está a meu lado, que sincroniza seus passos com os meus, agasalha as mãos frias no bolso da calça como eu estou fazendo, percebe a repetição e imediatamente cruza os braços sobre a barriga, olha pro mesmo chão que estou olhando e roga silenciosamente por uma palavra minha. Desconfortável com tudo, larga os braços soltos paralelo ao corpo, finge não se incomodar com o frio e vai em silêncio, esperando uma palavra que não quero oferecer. Também quer saber por que estive e continuo teimosamente calado, mas não lhe dou nada, não porque ela não mereça, simplesmente porque não quero ser bicho social agora. Deixe que ela me leia como se lê a poesia de um bêbado: se me quiser entender que esteja bêbada também, ou se contente com o ilegível. C’est la vie.

 O narrador, tolo, acha que sabe mais que eu só porque lhe dei a alcunha de onisciente. Goza sua onisciência só pra se arrepender do gozo depois. De que lhe serve?, se ainda não descobriu o que vai aqui dentro. Tem muitas dúvidas, mais dúvidas do que seria prudente um contador de histórias ter; isso o amedronta. Tem medo das possibilidades e das perguntas, do futuro que lhe foge do controle. Melhor relaxar e sentar na cadeira de espectador, o pecado é querer se outorgar a propriedade de tudo, da razão, da verdade, da sabedoria suprema. Só consegue ser chato e óbvio e não arranca sequer um sorriso do leitor sensível. Deus nos livre! O melhor é relaxar e ver que da alegria geral eu sou o contraponto, a aparente triste figura. Não se deve procurar encontrar meus porquês, meus amigos talvez pensem que eu briguei com a namorada ou que finalmente cheguei à inevitável conclusão de que nunca arranjarei uma. Talvez tentem me dizer que meus problemas não se resolverão ficando assim, tão calado. Não lhes invado o coração à procura de seus porquês, por que me invadem a procura dos meus? Pobres almas alegres!, não percebem a valsa da chuva sobre eles, a sombra deles sob eles, o vento frio contra eles, o que quer que vá de bom dentro deles, se fartam deles e só deles.

 

(Me pus a esquecer o que tinha em mente. Escrever é uma estrada de várias possibilidades, de repente você se vê pegando um atalho sem volta, aleatório como as curvas de seu espírito e, pronto, o que você pensou já não é o que você escreveu. Bom pra você, pior pra seus leitores. Você não se perde em você mesmo, eles estão completamente desorientados tentando te encontrar, dá uma luz, um sinal, chama-os de volta.)

 Lembro que havia uma estrada por onde passava uma comitiva, luz amarela em cima, escuridão em algum lugar, água em cada centímetro cúbico. Havia uma estrada de asfalto e um rebanho de ovelhas do qual uma se desgarrava e ia mais atrás com a mão no bolso. Não digo que todos pensavam no afastamento dele ou que tentavam desvendar o mistério de seu silêncio, mas digo com a mais absoluta certeza que a ele fazia bem que seu silêncio causasse dúvida. Faz bem pensar que se está apto a ser lido, mesmo que seu leitor seja o mais sincero e dedicado semi-analfabeto, que tente decifrar uma ou outra construção, que tente adivinhar seu sentido através de seu próprio estado de espírito, que desista, feche o livro e vá ver televisão finalmente, crendo sinceramente que a melhor configuração de um quebra-cabeças de mil peças é guardado no fundo da gaveta. De todos os insucessos, restará ainda um único sucesso: o dele mesmo, estrela solitária cujo brilho compensa qualquer outro. Caminha sozinho olhando tudo, vendo beleza onde não há, vendo poesia onde ninguém mais vê, recitando essa ladainha enjoada como a doçura do mel de todas as abelhas. A poesia é egoísmo. E ele ri por dentro e por fora, e os outros pensam que, além de tudo, sua tristeza é masoquista.

 Fim do caminho, mas não fim do texto. Deve-se cogitar que a idéia de escrevê-lo amadureceu ali, na hora da despedida. Saiu de mancinho, à francesa, deixou pro narrador escolher as expressões que melhor descrevessem sua fuga silenciosa. Não se despediu, sequer ofereceu um sorriso à guisa de tchau, virou as costas e foi embora como um livro que termina numa vírgula. Foi-se embora e tudo se apagou com a chuva, não deu adeus e se tornou apenas um vazio inconsciente, uma folha em branco na frente da qual o autor sem assunto senta e começa a pensar nas primeiras palavras. E também nas últimas, porque todo texto termina antes de começar. Uma folha em branco, pronta,

 (pra ser manchada)

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Porra-louquice, lirismo e pé na estrada.

12 janeiro, 2008 at 11:12 (Uncategorized)

On The Road – Jack Kerouac

Chegou a hora de escrever sobre o Jack Kerouac. Primeira coisa sobre ele: seu sobrenome se pronuncia /querôuc/, conforme eu ouvi do Cláudio Moreno numa entrevista. Segunda coisa: ele não se chama Jack, mas Jean-Louis. Adotar pseudônimos é a coisa mais normal do mundo e esses detalhes são quase irrelevantes. O importante é que ele é adepto de uma escrita corrida, uma prosa afobada, um discurso rápido e ligeiro quase sem pontuação que, segundo ele, capta a essência e a poesia da linguagem da rua com a qual ele entrou em contato nas suas andanças pelos EUA. Chama-se “prosódia bop espontânea”, nome que faz referência ao jazz a que Kerouac tentava aproximar sua escrita. A metáfora é bonita: fazer a frase parecer o sopro de um saxofone, dar a sensação de que com uma mão se escreve, com a outra se marca o ritmo no tambor de uma bateria, transportar a musicalidade do jazz às palavras corridas e sonoras. Mas a metáfora funciona mais enquanto metáfora; na prática, não me impressionou muito não. Questão de gosto talvez. On The Road, a história de um jovem que cruza os EUA de ponta a ponta quase com dinheiro nenhum, em busca de diversão e sem preocupações, vale mais pelo que é, exatamente isso, um libelo pela liberdade.

Narrado por Sal Paradise, alter-ego de Kerouac, o livro é provavelmente o relato completo da viagem que o autor fez pelos EUA e além dele (até o México) nos idos dos anos 40 pós-guerra. No caminho, conhece várias pessoas — todas elas pessoas reais que assumem nomes inventados no romance — que aparentemente foram grandes expoentes do movimento beat, como o próprio Kerouac. A principal delas, Dean Moriarty, o cara mais porra-louca de quem eu já ouvi falar em toda a minha vida. O porra-louquismo de Dean, Sal e de On The Road como um todo resume muito bem o espírito da beat generation: basicamente eles não se importavam com nada além da própria felicidade, da diversão da noite das grandes cidades e da adrenalina que as curvas das highways americana proporcionam. E drogas. E sexo. Não digo rock n’ roll porque a parada dos beats é o bop, o sax, o trompete, o jazz, enfim. Mas eles queriam a felicidade pura, simples e sem aporrinhações; a leitura de On The Road me fez ver que a esse objetivo utópico, não é tão difícil se chegar. Não que eu me proponha a sair por aí a repetir os passos de Sal Paradise como muitos fizeram. Disse a uma amiga que vontade até bate de ser um beat (!), mas sobra preguiça. Prefiro exercer a liberdade que o livro propõe de outra forma. De que forma? Ainda procuro saber. Não sou um porra-louca como Dean Moriarty, nem tenho condições de me tornar um, mas gostei de saber do desprendimento dele e até posso admirar esse jeito de ser. De repente, associei isso a um ideal de vida Hakuna Matata, em especial por um mexicano que aparece lá pelo meio do romance cuja característica principal é sua gostosa irresponsabilidade de deixar todos seus problemas para amanhã. Mañana, repete ele, enquanto entorna a garrafa da bebida mais alcoólica em que conseguiu pôr as mãos. Aí vêm Timão e Pumba cantando alto, das profundezas da minha infância,

E os seus problemas, você deve esquecer
Isso é viver, é aprender
Hakuna Matata.

Chamariam isso de intertextualidade. On The Road fala de viver a vida, ser feliz agora, e só amanhã pensar na felicidade de amanhã; tudo muito bonito e na verdade, bastante sincero, já que o livro — como aparentemente todos de Kerouac — é autobiográfico. Faz bem refletir se a vida extremada que esses caras levam ou buscam levar não nos diz alguma coisa, a nós e a nossos pequenos problemas que impedem nossa alegria.

Mas me incomoda um pouco os termos que o tradutor Eduardo Bueno (o mesmo da série de História do Fantástico tão criticada pela academia, não sem alguma razão), usa para marcar o discurso jovial dos beats. Eles sempre se mandam e caem fora, e nunca vão embora. Todas as coisas são muito loucas ou doidas e nunca outro adjetivo que enriqueceria a descrição (convenhamos, dizer que algo é muito doido! é quase não dizer nada sobre ele). Os personagens usam o estranho vocativo homem para se referir uns aos outros e raramente o coloquial cara. Eu até concordo que muito disso talvez seja problema do próprio Kerouac, mas também não deve ser muito difícil para um tradutor driblar algumas repetições cansativas.

(Há também o estarrecedor fato de que ler On The Road em outra língua que não a inglesa deve ser o mesmo que ler Guimarães Rosa em alemão. Quer dizer, além dos eternos problemas de transcrever de uma língua original um texto para outra língua, On The Road se liga com tanta força à cultura americana do século 20 e, em conseqüência, à língua que é reflexo dela, que em qualquer tradução o texto perde muita força simbólica, a qual inclusive faz parte de sua proposta de inovação estética)

Diz o folclore que Kerouac escreveu On The Road, um calhamaço que na minha edição de bolso tem quase 400 páginas, em apenas três semanas, ao som do bop e sob a égide da benzedrina e que, para não perde o ritmo trocando as folhas da máquina de escrever, comprou um rolo de papel contínuo que hoje está em exposição permanente em Nova York, mais de 40 metros de papel de uma escrita alucinante e maluca, a tal prosódia bop espontânea. Mas não nos enganemos: esses originais ficaram uma década na geladeira, esperando a boa vontade de algum editor para enfim virarem livro e quando esta apareceu, Kerouac foi obrigado a reescrevê-lo todo, fazendo as modificações que seu primeiro editor impôs como condição de publicação. Tais modificações consistiam em simplesmente tornar o livro palatável para uma pessoa comum, para que ela não precisasse estar ouvindo jazz, sob efeito da benzedrina e nem ser um louco alucinado para entender o que Kerouac queria dizer. Sábio editor. Depois que ficou famoso, foi apelidado de “rei dos beats”, seu best-seller tido como a Bíblia da beat generation, Kerouac resolveu publicar livros sem as sensatas modificações do editor, na prosódia bop espontânea nua e crua. Li um deles, Tristessa, e apesar de ter gostado, devo admitir que o livro é quase completamente ilegível.

Mas o toque que as loucuras de Dean Moriarty e Sal Paradise nos dão, a nós leitores abertos a novas experiências, creio não ter preço. Dean se comporta como um pensador, como todos nós que algum dia já pensamos sobre a nossa existência. Mas Dean não deixa que seus pensamentos, quaisquer que sejam, impeçam sua ação, sua felicidade, sua busca pela boa vida. E nos convida a fazer o mesmo. Não é sensato pelo menos ouvir o que tem a dizer?

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Sem parágrafos porque as chamas não ligam pra detalhes estéticos.

12 janeiro, 2008 at 09:05 (Uncategorized)

Memorial de Aires – Machado de Assis.

Último romance publicado em vida, no ano da morte de Machado, trata-se de uma espécie de diário de Aires, um diplomata aposentado, onde ele basicamente narra a relação de quatro personagens (o casal Aguiar, Fidélia e Tristão) e daqueles que os freqüentam, incluindo o próprio narrador. O romance é tido como autobiográfico (ou pseudo-autobiógrafico como avisa Augusto Meyer, conforme consta na apresentação da edição da L&PM, sem maiores detalhes) e é notório o tom leve e despretensioso da pena de Machado. A prosa é gostosa e de se ler em uma sentada, mas parece que falta assunto. O texto foi escrito na velhice de Machado estando ele cansado e doente, após a morte da esposa de um casamento de trinta e cinco anos, sem a qual, ele não poderia viver feliz. No romance intercalam-se dois personagens que talvez encarnem o autor em dois momentos de sua vida: o narrador, Aires, viúvo como Machado (e que mora na Rua do Catete, mesma rua em que o escritor morou boa parte da vida, vejam vocês!), que escreve em seu diário por não ter com quem conversar e aproveita para destilar seus comentários sobre a vida e tudo o mais; e Aguiar, esposo de D. Carmo, por quem morre de amores e com quem vive um casamento ideal, talvez o mesmo casamento que teve Machado com sua Carolina. O casal Aguiar não tem filhos, como não os tiveram o casal Assis (e como também não teve Brás Cubas e Bentinho, exceto o filho do Escobar — seria essa uma idéia fixa machadiana?). A gente Aguiar não tem filhos de sangue mas os tem de estimação e são dois: Fidélia, uma jovem viúva sobre cujo futuro Aires e sua irmã Rita debatem no começo do romance e Tristão, um médico que volta da Europa pra reencontrar os queridos padrinhos Aguiar. Todas as entradas do diário de Aires se referem de alguma maneira aos dois casais, ao amor que os primeiros devotam aos segundos e que este, cada um a sua vez, tem por aquele. Mas todos são bons, amáveis, corteses e idealizados, se amam e são sinceros, querem o melhor um para os outros. E até o narrador é um senhor simpático, sexagenário, culto e que quer ver todos bem. Aqui não temos quase nada da ironia sagaz de um Brás Cubas, por exemplo, ou dos sentimentos ruins e cegos que fazem sombra aos bons e sinceros, como num Dom Casmurro. É um romance água com açúcar sobre a classe média-alta do Rio de Janeiro de fins do Império (se é que o termo pode ser usado sem incorrer em anacronismo). Nem os anunciados comentários sobre a abolição e o republicanismo da apresentação da L&PM (sobre este último não senti nem o cheiro) dão pro gasto. O melhor do livro mesmo são as reflexões sobre a velhice já que a maioria dos personagens já passa ou beira os sessenta , e a relação desta com a mocidadejá que Tristão e Fidélia são jovens que convivem com velhos. Aires diz: “Os velhos não devem impedir a mocidade dos jovens; é direito destes ser feliz”, ou coisa parecida quando um dos personagens tem que inviabilizar seu casamento para ver o pai doente em outro estado. Destaque também para o diálogo freqüente de Aires com o papel em que deposita seus escritos: ele deixa claro, seu futuro é o fogo e como as chamas não precisam de muita explicação, quando um raciocínio fica pela metade, ele assim o deixa, sem culpa. Para nossa sorte parece que Aires morreu antes de poder queimar seu Memorial e pudemos ter acesso a esse texto limpinho e sincero, como uma boa despedida. Machado é bom demais.

(Curiosamente o Largo do Machado, no Rio de Janeiro, não tem esse nome por causa do escritor. Cheguei a essa conclusão porque o logradouro é citado no livro e porque pesquisei na internet. Mais curiosa ainda é a origem do nome: vem de um antigo açougue que ostentava a enorme imagem de um machado em sua fachada. O nome acabou pegando. Mesmo assim, fica a sensação de que eu vi uma estátua do Machado de Assis quando eu estive no Largo, não tenho absoluta certeza. De qualquer forma, posso estar confundindo com a do José de Alencar que, essa sim, existe com certeza, sentado numa cadeira, numa pracinha lá perto.)

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