23 dezembro, 2007 at 20:32 (Uncategorized)

Ela estava vestida em peles de bezerro; de algum modo, achava aquilo bonito. Seus imensos óculos escuros impediam que se visse o alvo daqueles olhares que, há muito tempo atrás, eu poderia jurar, me matariam. Mesmo assim, conservava o velho ar de desprezo que de certa forma lhe emprestava um charme estranho, dissolvido pelo tempo, ainda estava ali, eco de um passado indelével. Ela tinha vindo de avião, é claro. Sempre teve mais dinheiro que todo mundo, não se concebia que viesse numa viagem longa e desgastante de ônibus. Mas mesmo depois das confortáveis poucas horas de vôo, sua aparência traía um cansaço imemorial; talvez estivesse cansada era da vida. Era claro que ela se sentia constantemente deslocada.

Oi, com um risinho forçado, foi tudo que conseguiu dizer, enquanto eu a beijava numa das faces e, ingenuamente, procurava a outra como a pedir um tempo a mais pra pensar em alguma resposta. Tudo bem?, foi o fruto da meu pequeno processo intelectual, e ao mesmo tempo desejei não saber como havia sido a vida dela desde que nos afastamos. Tudo. Chegaste agora?, arrisquei, ela respondeu imediatamente: cheguei, acompanhada de um ar vazio e reticente, nos indicava que aquela conversa terminaria por ali. Já falaste com o Milton?, perguntei emulando alguma naturalidade, tinha quase certeza que não: eu acabara de ver o Milton e ela tinha acabado de chegar. Não, não consegui falar com ele, nem sei onde ele tá. Eu sabia, ele tá lá atrás, perto da piscina, indiquei com um dedo displicente, com deliberado prazer em ter alguma coisa, que não ela, pra depositar os olhos.

E como uma criança que se agarra a um balão de gás que iria infinitamente para o céu, ela se agarrou àquela oportunidade de encerrar a conversa: eu vou lá falar com ele, então, mais tarde a gente conversa, disse com falsa sinceridade na voz e um indisfarçável alívio. Sorri e assenti.

Eu nunca me livraria dela completamente, trazia consigo um pedaço do meu passado; meu passado, invariavelmente, estaria sempre impregnado dela. Era até mesmo difícil dizer quando tinha começado, só nos percebemos um no outro quando nos desprendermos já era impossível. Lembro do dia que o porta-retrato caiu, o vidro quebrou-se em minúsculos pedaços reluzentes, brilhantes como o amor nunca deixaria de ser, até deixar de ser amor. Vidraria fina, ela apregoava. Se fosse grosseira, teria quebrado em pedaços maiores ou sequer quebrado. Mas se não tivesse deixado de ser amor, tampouco teria quebrado, tampouco teria caído. Continuamos sorrindo para quem nos visse, a despeito da proteção daquela foto ter-se perdido para sempre, nas dobras das lajotas do chão que insistentemente nos refletiam. Ela se virou, os olhos talvez molhados, bateu a porta atrás de si como sempre fazia quando queria atenção, pensou que eu correria a seu encontro pedindo sinceras desculpas. Teimoso, não fui. Por mais que estivesse errado, nunca me senti tão no direito de ignorar aquela malcriação. Já era muito pra mim; pra ela também já tinha sido, há mais tempo ainda. Pensei ter ouvido o som da aliança sendo atirada contra a parede e caindo faceira no chão, reproduzindo o som dos sinos da igreja. Besteira. Àquela altura muito provavelmente já não usava aliança alguma, como não pude perceber? Devia estar chorando no quarto, ressentida, magoada, se martirizando pela relação que urgia um ponto final. E eu parado, em pé, olhando a porta fechada e pensando ainda ouvir os ecos do estrondo da batida da porta. Ela devia achar lindo bater portas; nada talvez fosse tão dramático desfecho quanto aquele. Não seria tudo mais fácil se eu fosse lá, pedisse desculpas e prometesse que as coisas seriam diferentes a partir de agora? Até uma prova de amor, talvez. E a maior estupidez. Cada músculo dos nossos corpos já traía a vontade de terminar: era tudo uma questão de tempo ou de briga. No caso, de briga, última briga. Aquela porta não se abriria nem pra eu entrar, nem pra ela sair. Queria mesmo que nunca mais nos víssemos sob o mesmo teto. Eu tinha a certeza de que aquele era um desejo dela já de muito tempo, eu tinha sido resistente, arrastado a situação desgastante, sorrindo quando por dentro tinha raiva, sendo condescendente quando na verdade a achava ridícula em cada sílaba, já tinha era que ter acabado há muito tempo, mesmo. E aí veio a queda, e o despedaçamento do porta-retrato foi a certeza escancarada e irrefutável de que o amor tinha mesmo se transformado em outra coisa.

Ora que vá à merda tudo, então! Vou é refazer a minha vida, sair daqui que esse silêncio já ta me enchendo o saco, o choro dela já deve ter secado e ela já deve estar até pensando num meio de contornar a situação, um meio hipócrita, claro. Melhor sair daqui. Mas antes tinha a foto. Não consigo sair daqui com nós dois nos olhando assim, sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Mesmo que eu tentasse, não conseguiria me convencer de que aquele nosso sorriso era falso, não poderia ser. Era felicidade que eu dava a ela e ela me retribuía em dobro, com carinho, conselhos e o sexo mais sincero que eu poderia desejar. Me lembrei dos sussurros que ganhei enquanto estive nela, verdadeiros como ela nunca conseguia deixar de ser, estrepitantes como os cacos do vidro se espalhando pelo chão. Não consegui sair, abaixei-me e fui juntando um a um, consciente de que o trabalho era ao mesmo tempo em vão e necessário. De repente, não apenas necessário, mas inevitável. Então, a porta se abriu. Enquanto eu a via chegar, ela veio chegando e se ajoelhou na minha frente. Em momento algum olhou pra mim, a não ser pelo reflexo da lajota clara que nos unia, mas se pôs a recolher os cacos. Não trocamos uma só palavra e os cacos também nunca voltaram a ser porta-retrato.

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23 dezembro, 2007 at 20:31 (Uncategorized)

Deitado na grama, alheio ao sol que fritava a cara e ao grito das crianças que brincavam na piscina ali perto, ele começou a pensar no insólito mundo que se configurava ao redor. Deitado ereto, com ambos os membros, superiores e inferiores, dispostos ao longo e em continuação do resto do corpo, começou a pensar que aquela posição oferecia uma imagem agradável: seria essa uma boa posição para caracterizar um pensador. De repente, se viu mudando de posição, sua perna direita elevando-se e dobrando-se a formar um ângulo quase reto com o resto do corpo; a esquerda, num esforço delicado, se apoiando sobre o joelho imponente de seu par, inclinando-se levemente, mirava no alto não se sabe o quê. Os braços adotaram arquitetura parecida. Em harmonia, o direito se prostrou sobre a testa na altura do cotovelo ao mesmo tempo em que o esquerdo se curvou para abraçar a mão direita e a mão canhota foi servir de apoio à cabeça. E continuou pensando, mas desta vez pensou que aquela nova posição não oferecia mais a agradável imagem de antes.

“Tenho é que ler os clássicos” Quem sabe assim se tornasse melhor. Na literatura e em todo o resto.

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