Delegado do “caso Bruno” forjou provas para incriminar inocente

11 julho, 2010 at 03:02 (Uncategorized)

Delegado Édson Moreira acusou de assassinato um inocente, em 2001

O delegado da Polícia Civil – MG Édson Moreira foi o responsável direto por uma das maiores injustiças cometidas pela instituição. Em dezembro do ano 2000, o jornalista do Estado de Minas José Cleves da Silva, foi vítima de um assalto, cujo desfecho teve sua esposa, Fátima Aparecida de Abreu Silva, assassinada com três tiros a queima-roupa. Contrariando todos os indícios da cena do crime, o delegado da Divisão de Homicídios, Édson Moreira, indiciou José Cleves como acusado do assassinato.

Como ficou provado posteriormente, o inquérito continha falhas técnicas grosseiras, além de tentativas deliberadas de incriminar o suspeito, como produção de laudos falsos, modificação da cena do crime, e contradições entre as declarações do delegado e a realidade atestada pela perícia independente. O caso foi alvo de comoção nacional, quando uma matéria no Fantástico levou em consideração apenas a versão oficial da polícia, negando ao acusado o benefício da dúvida. Acusado injustamente pela polícia, pela opinião pública e pela imprensa, o repórter José Cleves teve que se afastar de suas atividades profissionais e se dedicar à investigação do assassinato de sua esposa e à própria defesa.

O jornalista vinha publicando no Estado de Minas reportagens sobre atividades ilícitas em que estavam envolvidos policiais mineiros, como venda de carteiras de habilitação e comércio ilegal de armas. Conforme contou em carta enviada à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados de Minas Gerais, José Cleves foi vítima de uma armação, cujo intuito era fazer cessar as denúncias que pesavam sobre a polícia.

Em 2008, Cleves foi declarado inocente pelo Superior Tribunal de Justiça e o processo foi arquivado. O STJ entendeu que o conjunto probatório levantado pela investigação da Polícia Civil não tinha fundamento na realidade. O delegado Édson Moreira, que dizia não ter dúvida de que o jornalista havia matado a esposa, continua exercendo normalmente a profissão.

Veja transcrição integral do depoimento de José Cleves à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados de Minas Gerais. (Arquivo em PDF)

Nota de Luís Nassif sobre o delegado

Outras fontes sobre o caso Cleves:
DZAI
Folha

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A função do jornalista é vender bombom.

24 maio, 2010 at 22:08 (Uncategorized)

Há muito tempo eu venho refletindo sobre isso. E ontem conclui que pra ser bom jornalista é preciso ter um dia exercido a profissão de bombonzeiro. Explico com uma história.

Dias atrás incubiram a turma de Radiojornalismo da universidade da produção de pautas para reportagens radiofônicas de 1 minuto. Os alunos deveriam sair atrás de informações preliminares sobre qualquer assunto e agendariam entrevistas. Mais tarde essas informações orientariam e seriam subsidio ao repórter na produção de seu texto. Antes de ir pra rua, dei uma olhada nas ideias dos colegas: um marcaria entrevista com o diretor do Instituto de Letras e Comunicação sobre as eleições próximas daquele colegiado, outra levantaria informações sobre os cursos livres de línguas estrangeiras com o coordenador deles, outro pretendia entrevistar o diretor da Faculdade sobre algum assunto relevante. Eu considerei que, no meio de tão ilustres figuras, nosso ficctício Jornal do Rádio se ressentia da voz de alguém com menos entradas no Lattes: fui entrevistar o bombonzeiro que trabalha a 30 metros da faculdade.

Eu não sabia exatamente o que eu queria saber dele. Nessas situações é sempre muito dificil interagir com uma fonte, porque você não sabe o que perguntar. Comecei com o básico, expliquei por que estava ali, perguntei o nome dele (Marcos), há quanto tempo trabalhava ali, com que tipo de produto trabalhava. Notei que enquanto conversava comigo, Marcos mexia em seus pacotes de doces, aparentemente preocupado com alguma coisa que eu não conseguia ver. Foi então que notei as formigas, minúsculas, infestando um de seus pacotes de icekiss.

Tinha achado minha pauta. As formigas. Marcos me contou que elas eram um problemão: faziam furos nos pacotes e inutilizavam quilos e quilos de doces. Contra elas, ele já tinha tentado quase tudo, de variados tipos de inseticida à suspensão do carrinho nos sustentáculos do corredor, mas elas sempre arranjavam um jeito de alcançar o néctar que recheia os babaloos. Por causa da praga, Marcos calculava uma perda mensal de, em média, 40 reais. Até soluções caseiras  – e engenhosas -, como o uso de potes d’água como base dos pés do carrinho de doces, falhavam ante a perspicácea dos artrópodes que, divinamente, andavam sobre as águas em fila indiana a procura de glicose. Marcos reclamava que a prefeitura devia tornar mais frequentes as detetizações do campus, única ação capaz de abater as hordas do exército de várias patas, contra o qual lutava o bombonzeiro todo dia.

Tenho razões para acreditar que é dever do jornalismo trazer o problema das formigas para a pauta do dia. Para tanto, é necessário pensar como um bombonzeiro, se colocar no lugar dele, vender um big big se calhar.

poucas coisas são mais medíocres que esse ideal de vida-formiga

Para a maioria das pessoas, a formiga é apenas personagem de parábolas infantis sobre trabalho duro; para o bombonzeiro é um fator importantíssimo na equação que define sucesso ou fracasso comercial. Podem dizer que para nós, que normalmente não vendemos bombons, trata-se de um problema menor. O problema dos outros é sempre menor. Mas também depende de que espécie é o outro. Somos mais sensíveis aos infortúnios de um homo lattes, por exemplo, que de um homo bombonis. Porém, as mesmas noites de sono perdidas pelo professor-doutor que não conseguiu financiamento para sua pesquisa foram perdidas pelo bombozeiro que não conseguiu dar um jeito nas formigas. São problemas de proporções iguais, mas as formigas deveriam merecer mais atenção jornalística porque o professor-doutor tem mais condições que o bombonzeiro de publicizar seu desconforto. O bombonzeiro é invisível, pra muitas pessoas se faz mudo. Os problemas do bombonzeiro raramente são um problema da coletividade, enquanto nos sentimos, nós acadêmicos, diretamente envolvidos quando uma pesquisa pára por falta de financiamento.

O jornalismo precisa trazer os problemas das minorias, dos silenciados, pra as rodas de discussão da maioria que não os quer ver. O jornalismo precisa tirar a capa de invisibilidade que nós colocamos sobre muitas pessoas que convivem conosco. Isso significa humanizar o jornal, ver as pessoas – todas elas – como seres humanos complexos, com anseios, pretensões e expectativas. O jornalista precisa ver a realidade a partir de baixo – como aliás os historiadores já fazem, substituindo a história dos grandes feitos, datas e nomes, por uma “história vista de baixo”, contada sob a ótica de homens comuns.

Não se trata de fazer panfleto, mas apenas sensibilizar o leitor pra uma realidade diferente e equivalente à sua. Se eu conseguir mostrar a um designer gráfico que o lançamento do novo Photoshop é tão importante pra ele quanto o lançamento de um novo insetícida é para o Marcos, já vai ter valido a pena. Empatia e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

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Depois de defender a pena de morte, jornalista do Diário do Pará escreve sobre piriguetes sem saber o que é piriguete.

19 abril, 2010 at 16:57 (Uncategorized)

Jornalistas perdem a razão de existir quando escrevem bobagem.

Do Diário:

“Piriguetes” roubam para ter dinheiro para festa

Para o delegado Arnaldo Mendes, de plantão na Seccional Urbana da Cremação, a prisão de Ruan Carlos Brito Pereira, 21 anos, e Jânio da Silva Costa, 20, mostra que determinados elementos perderam a razão de existir quando colocam em risco a vida de outros.

Esse lead (nome técnico para o primeiro parágrafo das notícias) seria um excelente exemplo de como não fazer um lead, numa primeira aula do curso de Jornalismo. Eu quase consigo ver: a professora zelosa, contendo a euforia dos calouros, apontando uma projeção na parede (porque agora os professores estão viciados em datashow) e explicando: olha gente o primeiro parágrafo tem que ser assim, assado… mas não façam desse jeito que fez o repórter do Diário, a menos que vocês queiram trabalhar o resto da vida lá.

Vejam só a confusão que o escrevente fez. A gente sabe o que ele quis dizer, e sabe o que ele efetivamente disse. O chato é que as duas coisas se contradizem. Dissequemos o texto nas suas estruturas fundamentais:

“Para o delegado x, a prisão de y e z mostra que determinados elementos perderam a razão de existir quando colocam em risco a vida de outros.”

Ou seja, para o autor da ação (o delegado), a sua própria ação (a prisão) mostraria que as pessoas merecem morrer quando põem em risco a vida das outras. Evidentemente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Seria como eu fazer um manifesto pela não-extinção dos golfinhos e algum analfabeto funcional escrever no jornal que: para Adriano, escrever um texto pela não-extinção dos golfinhos mostra que eles não estão extintos.

É óbvio que o aprendiz de Machado de Assis aí em cima quis dizer outra coisa, gravíssima: que criminosos que roubam por motivo considerado fútil perdem o direito à vida ou, eufemisticamente falando, sua “razão de existir”. Pena de morte contra a minoria marginalizada, amiguinhos! Isso vindo da boca de um delegado de polícia, por definição alguém vergonhosamente reacionário, não é nenhuma surpresa. O chato é ler isso num jornal que se proclama “orgulho do Pará”, num texto não-editoral. (mesmo num texto opinativo seria chato).

Não preciso nem dizer que colocar a opinião de um alguém no primeiro parágrafo de um texto cuja razão de existir nem é essa opinião é ridículo. Seria como eu escrever uma notícia assim:

Massacre de golfinhos pinta de vermelho a costa da Islândia

Para o ambientalista Heinz Stephen-Carlisson, diretor da Casa do Cetáceo de Reiquiavique, o derramento de sangue mostra que, até prova em contrário, Moby Dick é baleia cachalote e não golfinho.

Ufa!

Sem contar que, implicitamente, o repórter acaba fazendo sua, a opinião do delegado, editorializando a notícia.

Como se não bastasse ser a favor da matança de ladrões de celular, nosso nobel de Literatura do Diário, ainda usa no título uma palavra que ele parece não entender muito bem. Piriguete, como qualquer inteligência mediana desconfia, é o termo pejorativo (e machista) usado pra mulheres que frequentam festas de aparelhagem, bailes funks etc, atrás de parceiros sexuais. Os criminosos a que se referem a notícia usariam o dinheiro do assalto para conquistar as tais piriguetes, exatamente o contrário do que diz a manchete.

A gente nem se surpreende mais. Desde Eva, a culpa é sempre das mulheres.

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O dia em que eu virei mulher.

16 abril, 2010 at 06:12 (Uncategorized)

Eu entreguei a folha de papel sulfite, com rubrica e carimbo federais, à mulher que cadastrava os usuários da biblioteca. Ela conferiu meu número de matrícula, uma profusão semi-aleatória de zeros, noves e uns, e digitou um por um os algarismos no terminal. Deu um enter.

Olhou fixamente a tela, frisando de leve as sobrancelhas, como se alguma letra tivesse parecido saltar do monitor. Olhou de volta pra mim. Eu que perguntava em silêncio: algum problema?

Você pode digitar sua matrícula nesse teclado, por favor? Preciso conferir uma coisinha.

Eu digitei: zero nove um zero um… dou enter? sim.

Novo frisar de sobrancelha, um olhar no monitor, outro na minha direção. No monitor de novo, e novamente no meu rosto. Monitor. Rosto.

sobrancelha

Até que ela finalmente concluiu: acho que está errado.

Na tela branca, o computador informava que a dona daquele número de matrícula era alguém que se chamava Andréa. A atendente concluíra que, nascido e batizado Adriano, eu não poderia me chamar Andréa, a menos que alguma coisa estivesse fora de ordem no Universo.

E realmente estava: um bug do sistema andava trocando o número de matrícula dos usuários da biblioteca. Menos mal. Problema no sistema a gente resolve formatando. Mas sexo, se trocar não destroca.

Sendo Adriano, perdi apenas a possibilidade de levar pra casa um livro emprestado. Se eu fosse Andréa, perderia o quê? Opinem nos comentários.

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Enfiem o acento no cu!

13 abril, 2010 at 23:02 (Uncategorized)

A maioria das pessoas que eu conheço não aceita ver um cu sem acento. Todo mundo sabe que legislação ortográfica proibe a acentuação do cu. Dizem os gramáticos que, sendo monossílabo tônico terminado em u, cu – como tu e nu – não pode ser acentuado. Mas os mestres da escatologia moderna argumentam que o cu não pode ser colocada na caixa das palavras comuns, já que ele carrega sobre si toda uma aura sentimental de que se ressentem suas companheiras de dicionário: cu não é palavra; é palavrão. E palavrões carecem das insígnias gráficas sobre suas cabeças tanto quanto anjos de suas auréolas.

Eu me coloco em cima do muro, incapaz de legislar sobre o cu alheio. Falo apenas por mim: no meu cu não vai, nem nunca foi, acento de qualquer natureza. Conheço gente que não resiste à tentação de meter um acento maroto no cu. Veem essas duas letrinhas soltas, sem aquele risco agudo em cima delas e já as consideram nuas, desprendidas de suas identidades: garrancham um pau preto a desvirginar em diagonal o u mulato. Alguns menos desavergonhados advogam a tese de que o u do cu deveria ser grafado invertido, com o acento sob ele, saindo da cavidade literal como um cocôzinho (esse sim, com acento indispensável). Entrando ou saindo, para essa gente, cu sem acento é apenas uma casa a mais na tabela periódica: o símbolo do cobre (em latim, cuprum).

É claro que num país livre e pretensamente democrático como o nosso, todo mundo deveria ter o direito de fazer com o próprio cu o que bem quisesse. Essa região inóspita é o nosso contato mais íntimo com o mundo externo, aonde mandamos tomar nossos desafetos e o que seguramos na mão quando sentimos um medo paralisante. Não podemos abdicar do direito de tê-lo, e, principalmente, tê-lo como quisermos. Não posso admitir que a legislação gramatical, que me parece ter deliberadamente ignorado questões fundamentais como essa, queira definir a natureza e o estado dos cus pátrios. Eu sou um dos que defendem a extinção, completa e dolorosa, de todos os acentos da língua portuguesa, por os considerar meros acessórios de gosto duvidoso. Mas admito que o cu possa ser uma honrosa excessão, não subordinada às regras impostas de cima pra baixo, já que é – e sempre será – função do cu questionar os paradigmas caretas da nossa sociedade.

E se você é uma daquelas malas sem alça que insistem em corrigir os que metem o acento no cu, vá procurar coisa melhor que fazer. O cu é questão de foro íntimo, sua acentuação é direito inalienável da pessoa humana. Mandemos cartas à ONU e aos órgãos de defesa dos direitos humanos, para que tirania nenhuma nos impeça de botarmos em nossos cus o que quisermos! E antes que alguém me acuse de hipócrita, explico-me: não acentuo os cus desses texto porque na minha opinião de merda, cu com acento é uma redundância desnecessária, já que a sonoridade do cu já transmite a gravidade que o acento reverbera. Todavia, como Voltaire, não concordo com a banalização do cu, mas lutarei até a morte pelo teu direito de enfiar nele o que bem quiser. Afinal, acento, como pimenta, no cu dos outros é refresco.

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Em Busca do Tempo Perdido

16 dezembro, 2009 at 22:35 (Uncategorized)

A rotina de quem passa o dia se deslocando

Mais de 42 mil pessoas vivem em Benevides, cidade da Região Metropolitana de Belém (RMB), conhecida como “o Berço da Liberdade” por ter, no século 19, abolido a escravidão 14 anos antes da Lei Áurea. A vida de seus habitantes está, em geral, intimamente ligada ao cotidiano da irmã mais velha do município, Belém, a 25 km dali.

Para chegar ou sair de Belém é preciso enfrentar uma longa viagem pela BR-316, estrada que interliga os municípios da RMB. Três linhas de ônibus fazem o trajeto em até duas horas, com coletivos lotados e irregularidades nos horários de passagem da frota. Juliana Brandão, 19 anos, estudante universitária, já se acostumou.  Quase nem reclama por ter ficado 35 minutos esperando o ônibus que a levaria de volta para casa. Já era o segundo que pegava naquela noite. Por sorte, não estava lotado. “Já foi pior”, ela informa, quase querendo comemorar.

Há alguns anos, a linha era feita por outra empresa, e segundo Juliana, era comum que os veículos quebrassem e demorassem a passar. A empresa faliu e foi substituída pela atual, que mantém certa regularidade e costuma cumprir seus horários. Juliana mora no final da linha do Benevides – Presidente Vargas, e precisa pegar dois ônibus para ir e voltar da Universidade Federal do Pará, onde cursa o quarto período de História. Já na parada, ela cumprimenta seus conhecidos de Benevides que, como ela, passam o dia em Belém. “O ônibus é o lugar onde eu reencontro meus amigos de infância, pessoas que eu só vejo aqui e em determinados horários”. Àquela hora, Juliana encontrou um dançarino, Ruan, e uma universitária, Lu, seus amigos que voltavam de ensaio e aula.

Numa viagem longa como essa, é preciso arranjar assunto para matar o tempo. Conversa-se sobre tudo: o outdoor que anuncia um show vira mote para uma discussão sobre o gosto musical de cada um; a amiga desfila seu inventário de brincos e bijuterias feitos de matéria natural; o amigo explica o motivo de ter inventado um novo corte de cabelo; Juliana relembra histórias da adolescência, que ela deixou há apenas alguns anos.

Numa das paradas, um dos passageiros faz sinal para fora do ônibus e, como num bar, pede para o vendedor lhe trazer uma latinha de cerveja. Seu companheiro de banco gosta da ideia e pede também uma pra si. O passageiro de trás decide que está com sede e solicita outra latinha. Ainda oferece para a moça da cadeira ao lado, que recusa, talvez porque quinta-feira não fosse um bom dia para beber. Por alguns minutos, relaxados, os três passageiros saboreiam sua “gelada”, no sacolejar do coletivo, embora calor não fizesse, nem o sol fosse aparecer em menos de 6 horas.

Entroncamento

No horário do rush, por volta das seis da tarde, transpor o trecho que separa Belém de Ananindeua é uma missão que não se desempenha em pouco tempo. O lugar é chamado de “entroncamento”, que é o termo técnico para designar o cruzamento entre duas grandes vias de mão dupla. Por ser a única porta terrestre de entrada e saída da capital paraense, é também o principal cenário dos maiores congestionamentos de ambas as cidades.

Dez horas da noite, no entanto, o Benevides – Presidente Vargas cruza seu túnel quase sem resistência. Os milhares de automóveis que trafegam por ali durante o dia dão lugar, às dez da noite, a uma calmaria digna da pacata Benevides, aonde Juliana anseia chegar logo. Ela considera que transporte público eficiente contribui para o bem estar da cidade e do planeta. “Nos momentos de maior sufoco, eu costumo pensar que estou fazendo um sacrifício por uma causa justa”. Se não houvesse ônibus e cada pessoa resolvesse fazer o caminho com seu carro particular, certamente o Benevides – Presidente Vargas não teria tanta facilidade em vencer o Entrocamento. “Mais pessoas no ônibus, são menos carros na rua”, equaciona a estudante. “O problema é que o transporte público está longe de ser excelente”.

Juliana já passou por grandes dificuldades dentro de coletivos. Uma vez, voltando da universidade, passou mal e quase desmaiou. Dentro do ônibus lotado, ela não conseguiu encontrar ar para respirar, sua visão começou a ficar turva e ela cambaleou. Alguém percebeu a tempo e providenciou um banco para ela se recuperar.

Noutras vezes, viu passageiras tendo seus corpos invadidos pela malícia de homens que se aproveitavam do empurra-empurra para tocá-las desrespeitosamente. “Mulher sofre muito com isso, os caras não respeitam”. Na maioria das vezes, fica por isso mesmo, noutras os agressores recebem punição: “Um dia, uma moça gritou acusando um homem de ter passado a mão nela. Os outros homens do ônibus partiram pra cima dele, o agrediram e enxotaram do ônibus, a chutes.”

Quase no final da linha, depois que todos os passageiros já haviam descido, Juliana chega em casa e é recebida pela mãe, Dagmar Brandão, 42 anos, que há 30 minutos a esperava no portão de casa. “A gente sempre fica preocupada com assalto, violência, principalmente a essa hora da noite”, lamenta Dagmar. Pelo menos um ônibus é assaltado por dia na Região Metroplitana de Belém, de acordo com dados de 2008 do Comando de Policiamento da Capital (CPC). Assaltos em coletivos também estão entre as principais causas de ligações feitas ao Disque-Denúncia, serviço da Secretaria de Segurança Pública do Estado, que tenta combater o crime com auxílio da sociedade.

Vida no ônibus

Juliana nunca foi vítima de violência dentro de um ônibus e considera perigosas apenas as vans que fazem transporte alternativo. Mesmo assim, pelo cansaço da viagem, pelo tempo e dinheiro que se perde no transporte diário de casa para o Belém, Juliana já pensou em morar na capital, na casa de parentes. Por motivos pessoais, a empreitada não deu certo. Ela continua morando em Benevides e estudando a 25 km dali, passando boa parte de seu tempo no trajeto entre as duas cidades: “Tinha aquele comercial do colchão que você passava um terço da sua vida sobre ele. Eu tenho a impressão que eu passo um terço da minha vida dentro de um ônibus”, brinca a aspirante a arqueóloga.

Somando a média de viagens que Juliana faz por dia, ela calcula que perde 3 horas diárias se deslocando pela RMB. Se dispusesse desse tempo livre, ela o usaria para se exercitar: “Quando eu estudava em Benevides, caminhava todo dia da minha casa até o ginásio”. Na nova rotina, os exercícios físicos não acharam lugar.

Apesar de tudo, ela vê vantagens em suas cansativas viagens diárias: “Eu reencontro meus amigos, boto o papo em dia, descubro o que eles andam fazendo. Mesmo quando não encontro ninguém, aproveito pra ler um livro, os textos pra universidade, ouvir uma música, ou mesmo dormir.” Ela também adora Benevides e seu cheiro de cidade sem fumaça. “É a primeira coisa que eu faço quando eu desço do ônibus: respiro esse ar puro”. E, realmente, o desgaste da viagem é compensado pela primeira baforada do vento que sopra da vegetação abundante, frio e limpo, diferente daquele da cidade que Juliana deixou há uma hora e meia e 25 km atrás.

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Sagrado e profano na academia

16 novembro, 2009 at 06:46 (Uncategorized)

Claro que esse caso do mini-vestido na Uniban é um absurdo. Mas tem um ponto que sempre me chama muita atenção. Ele está presente em vários discursos de gente que caracteriza a atitude da moça como provocativa ou imoral. E está, também, na nota que Uniban usou para justificar a expulsão da estudante (expulsão logo depois revogada). Diz a Uniban:

“Foi constatado que a atitude provocativa da aluna […] buscou chamar atenção para si por conta de gestos e modos de expressar, o que resultou numa ação coletiva de defesa do ambiente escolar

Leia a íntegra da nota.

A Uniban também argumenta que os trajes que a moça usava “indicavam uma atitude incompatível com o ambiente da universidade“.

Essa ideia muito comum de que a universidade é um lugar sagrado e que, portanto, não pode ser profanado tem sua razão de ser. A metáfora da universidade como o Templo do Conhecimento encontra raízes na própria formação dessa instituição que, no Ocidente, nasceu comandada por clérigos. Por outro lado, por ser um lugar onde vivem as grandes mentes do nosso tempo, por produzir conhecimento, por ser a casa natural da ciência e dos altos estudos, esse templo se coloca bem acima da vida dos pobres mortais que somente o circundam, apenas eventualmente adentrando suas muralhas do saber. E constatando, sob a arrogância habitual dos acadêmicos, que esses seres iluminados realmente estão acima da vil ralé que cospe no chão.

Esse lugar privilegiado reveste o ambiente acadêmico de uma aura sacra que não pode ser profanada pelos pecados do mundo ordinário. Esse tipo de raciocínio, consciente ou não, acaba fundamentando o argumento de que Geyse, ao se vestir de maneira a sugerir uma sensualidade, age de modo “incompatível com o ambiente da universidade”, o que leva os colegas a assumirem posturas “de defesa do ambiente escolar”.

Desconsiderando o fato de que esse argumento – exposto dessa forma pela Uniban – possivelmente é apenas uma estratégia retórica que procura deslocar a culpa do algoz para sua vítima, há que se considerar que esse tipo de pensamento – o de que a pura sugestão de sensualidade macula o ambiente do saber – é bastante comum, e está ligado à percepção de que 1) a universidade é sagrada, e 2) o sexo é pecaminoso, logo, o sexo rompe a sacralidade da universidade, que precisa ser defendida pelos paladinos da justiça divina. Estes, nesse caso, agem com a eficiente estratégia de gritar com incansável frequência puta! puta! puta! a uma moça com um vestido acima do joelho.

Uma parte da explicação pra essa formulação absurda está na separação entre razão x instinto, espírito x corpo, racionalidade x passionalidade. Essa dicotomia, tão cara à nossa civilização, quase sempre estabelece uma hierarquização do primeiro pólo sobre o segundo. De maneira que é tanto mais civilizado aquele que sobrepõe sua razão sobre seus instintos, o que se preocupa mais com os problemas do espírito que com os do corpo, o que age de maneira mais racional que passional. No caso Uniban, a universidade se relaciona, obviamente, ao primeiro conjunto de valores, enquanto Geyse, representa tudo do segundo. Repare que passionais, instintivos e violentos foram, na verdade, os promotores do linchamento moral, mas revestidos da capa de paladinos em defesa da “moral civilizatória”, acabam por querer tornar racional um comportamente que, em tudo, tem características primitivas.

Imagino que todos estejam por dentro da saga da Uniban e naturalmente já devam ter adotado algum posicionamento sobre o caso. Mas acredito que essa história, além do absurdo que ela encena, nos conta muito sobre como nossa sociedade – laica, libertária, científica etc etc – articula suas noções do sexo e do saber, da mulher e da universidade, do pecado e do conhecimento.

Não esqueçam a lição fundamental da nossa tradição: quem comeu o fruto proibido foi Adão, mas a culpada pela destruição do paraíso foi Eva.

Em Brasília

Na UNB, os estudantes protestaram nus, em defesa de Geyse. Mas uma reportagem do Correio Braziliense deixa claro que, entre os universitários da capital federal consultados, a questão do tamanho do vestido é fundamental. Mesmo os que defendem Geyse costumam argumentar que o vestido não era tão curto assim.

A dúvida: se ela fosse de biquini à aula, a agressão se justificaria?

 

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Como escrever uma manchete sensacionalista

14 novembro, 2009 at 02:41 (Uncategorized)

Do Portal BOL:

“Mulheres bonitas, ou são burras ou são vagabundas”, diz Megan Fox

dito assim, parece que a bonita Megan Fox deu um tiro no próprio pé com a declaração.

Mas eis que a fonte original da notícia, a Folha Online, vem com um título mais apropriado:

“Mulheres bonitas são consideradas burras ou vagabundas”, diz Megan Fox

note que o acréscimo de uma palavra – consideradas – muda todo, mas todo mesmo, sentido da frase. É como se Megan Fox dissesse uma coisa oposta ao que o Portal Bol disse que ela disse.

Claro que a notícia repercute uma entrevista em que a atriz reclama do preconceito que diz sofrer de algumas mulheres, que a consideram ou burra ou vagabunda, só porque ela é bonita. E o óbvio ululante é que ela discorda dessa opinião das mulheres, discordância que a manchete do Portal BOL ignora.

Mas veja o mais engraçado: eu soube do fato através do BOL, apesar de ter lido a manchete na primeira página da Folha e passado direto. Ou seja, a editoria do Portal BOL, enganadora, atingiu seu objetivo, que era fazer o leitor da manchete clicar no link e visualizar a notícia completa. Coisa que a Folha, por refletir em sua manchete a verdade dos fatos, não conseguiu.

Acontece que:

A Folha fala de um cachorro que mordeu um homem.

O BOL fala de um homem que mordeu um cachorro.

Em qual manchete você clicaria?

Em busca do novo, do inusitado, da notícia que tem o potencial de mudar um pouco sobre o que a gente pensa do mundo, a gente clica, claro, na manchete que diz que uma mulher bonita declarou que mulheres bonitas são burras ou vagabundas.

E aí que, quando a gente percebe que foi enganado, a e anotíca não diz nada do que anuncia, resta comentar que:

1) Megan Fox reproduz o discurso misógino segundo o qual “as mulheres estraçalham umas às outras” e “O instinto que prevalece entre as mulheres é atacar a jugular”. Aquele papinho besta de que homens são amigões e mulheres são invejosas e só querem se destruir.

2) Megan Fox é incoerente: ao mesmo tempo que vive o infortúnio feminino de estar sempre sendo observada, julgado por sua aparência, objetificada enquanto um ser que serve apenas pra ser apreciado etc; ao mesmo tempo, se diz “satisfeita com sua capacidade de manipular a mídia, aproveitando-se da imagem de mulher sexy que tem”. Ora, ou você é linda, sexy e expõe seu corpo ao mundo como uma embalagem muito bem acabada, e agarra todos as benesses e deconfortos que isso traz, ou faz o contrário, e vive (ou tenta viver) como um ser completo.

Não se pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.

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Traição se paga com quê?

12 novembro, 2009 at 23:04 (Uncategorized)

Da Folha:

STJ diz que marido traído não deve receber indenização do amante da ex-mulher

O marido afirma que seu casamento durou nove anos, mas que era traído, possivelmente, desde o terceiro ano de relacionamento. No período nasceu uma menina, que ele diz ter registrado em seu nome achando ser uma filha legítima. Ao constatar a traição e a falsa paternidade, o marido diz ter sofrido dano moral, pois “anda cabisbaixo, desconsolado e triste”.

Deixa eu ver se eu entendi.

O cara é casado com uma mulher que o trai safadamente desde o terceiro ano do matrimônio e a culpa é…

do amante?

Joinha

Sério que o marido achou que isso ia colar?

Daqui a pouco também tão querendo culpar os carros pelos atropelamentos, a água pelos afogamentos, as mulheres pelos estupros, os negros pelo racismo e… opa, isso já fazem né.

A infidelidade (e todas as neuras que dela decorrem) é a principal causa do fim dos relacionamentos. Obviamente, infiel é quem rompe o contrato: nesse caso, a esposa. O amante, que não assinou contrato, não trocou votos, não fez juras de exclusividade, não pode ser responsabilizado por nada. Mesmo que tenha sido ele quem seduziu e conveceu a mulher a chifrar o corno.

E mesmo assim é engraçado que: nas novelas, na literatura, nas piadas, no cinema… quando o marido encontra o ricardão dentro do armário, sua primeira atitude é: partir pra cima do amante. Idem no caso de mulheres traídas. Só muito raramente o senso comum confere a culpa da traição a quem realmente a tem.

Quanto ao corno, quis dar uma de esperto depois de cometer a maior barbeiragem de sua vida: casar.

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A necessidade da prova

8 novembro, 2009 at 22:31 (Uncategorized)

Então que eu fui fazer o ENADE. “Fazer” é modo de dizer. Foi a prova mais fácil de todos os tempos. Porque a gente passa vida toda se preparando pra ela. Basta assinar o nome. E entregar a prova em branco. O que. Desde que você seja alfabetizado, você tira. De letra [/trocadilho]

Eu entrei na onda do boicote. Eu até resisti, sabe. Porque, né. É chato ficar fazendo o que todo mundo manda fazer. Se um punhado de integrantes do Movimento Estudantil te diz pra fazer uma coisa. Bem. O mínimo que uma pessoa sensata pensa é. Em fazer exatamente o oposto. Porque esse pessoalzinho, vocês sabem. Vivem numa lógica de. Hay gobierno, soy contra. O que não é totalmente ruim. Longe disso. Mas você precisa ficar atento.

E nós temos um centro acadêmico de comunicação bem legal. Na ufpa. Cheio de gente que não quer catequizar mentes alheias em prol da libertação estudantil. O que é de praxe nos centros acadêmicos. Eu tenho uma opinião sobre isso. Que um movimento estudantil. Pra dar certo. Tem que mudar de nome. Porque esse nomezinho, sei não, carrega toda uma aura negativa e anacrônica. Então se um certo tipo de estudante vem dizer pra maioria boicotar o ENADE. Não é surpresa que boa parte da gente que não gosta desses estudantes. Faça o quê? O ENADE. Boicote o boicote.

E eu fico pensando. Como as pessoas querem um bom motivo pra não fazer a prova. Quando o óbvio é justamente o contrário: você precisa ter um excelente motivo pra fazê-la. A diferença é sutil. Mas existe. Porque veja bem. Nós estamos acostumados a ser avaliados por provas. Nosso sistema educacional, em todos os níveis, está contaminado por isso. Absolutamente. Pela lógica da prova. A ideia de que.

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Você está aqui!

Você é uma caixinha. Você vai para escola. Onde vão te colocar uma série de conteúdos. E depois vão medir (provar) o quanto a caixinha conseguiu guardar de conteúdo. E o resultado dessa medição é. Atenção: o reflexo fiel do seu desempenho escolar. O ENADE é o Exame Nacional do Desempenho Estudantil. Ele serve pra isso. Medir o desempenho estudantil. Através de uma prova. Quando existe uma caralhada de outras formas. Mais inteligentes. De medir esse desempenho. E todo mundo só pensa em fazer prova. Como se fosse natural.

Mas eu nem me espanto. Sabe por quê? Porque somos, naturalmente, seres inerciais. Sabe? Do tipo que se acostuma fácil? Que tem aversão ao novo, ao experimental? Então a gente passa a nossa vida toda fazendo provas. De tudo que é tipo. Em qualquer situação. E quando chegamos na universidade. O lugar de onde pretendemos sair formados. Ou seja. Dentro de uma fôrma. Que já tava lá antes de chegarmos. E vamos deixar do mesmo jeito quando sairmos. Quando chegamos lá. Não conseguimos nos livrar da lógica da prova. É prova pra todo lado, pra todos os gostos, de todos os sabores.

É difícil, eu sei. Mas aí a gente fica procurando um motivo pra não fazer a prova. E não percebe que. O grande motivo pra não fazer a prova é justamente não ter motivo algum para fazê-la. Nenhuma Prova. Ué.

Simples assim.

Senão vejamos. Cada pessoa é única, correto? No sentido de que. Tem suas particularidades, vícios, virtudes, vantagens, desvantagens etc. Tudo isso. Ninguém é igual a ninguém. Isso é ponto pacífico. Mas uma prova, dessas que passam a tia Raimundinha e o MEC, faz o quê? Padroniza tudo. Nivela. É uma única prova dedicada a vários seres tão diferentes. O que só podia dar merda. É claro que não é um problema apenas da prova. É do sistema educacional como um todo. Essa história de professores. Um professor pra 50 alunos. Não tem como isso dar certo. Porque o professor trabalha sempre pensando num tipo médio de aluno. E se você foge um pouco dessa média, o professor não está preparado pra você. Se você foge muito dessa média, o sistema educacional não servirá a você. E ainda fará todo mundo acreditar que. É você que não serve a ele.

E não tô nem falando em acessibilidade e inclusão nas escolas. Em ela estar preparada para receber pessoas com as mais diversas deficiências. Que podem se transformar em eficiência, dependendo da situação. Estou falando apenas em talentos e aptidões diferentes. Desses que um professor mediano não consegue enxergar e ajudar a desenvolver. Desses que uma prova. ENADE, vestibular, simulados, testes etc. Não consegue medir. Mas existem.

Então. Não é que o ENADE não seja o melhor jeito de avaliar o desempenho estudantil. É que uma prova não é. Uma prova, tomada no sentido tradicional. De um questionário de múltipla escolha sobre assuntos genéricos e específicos e algumas questões discursivas. Isso não avalia a criatividade, o bom uso da linguagem, o empreendedorismo, o senso de oportunidade, a articulação, o senso crítico, estético e um quinquilhão de outras qualidades necessárias ao bom universitário, estudante de uma boa instituição. Uma prova, como ENADE, no máximo avalia se o sujeito sabe ler e escrever. E se ele depositou. Na caixinha. O que passaram pra ele em sala de aula. E isso está longe de ser. Um “desempenho estudantil”.

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