O dia em que eu virei mulher.
Eu entreguei a folha de papel sulfite, com rubrica e carimbo federais, à mulher que cadastrava os usuários da biblioteca. Ela conferiu meu número de matrícula, uma profusão semi-aleatória de zeros, noves e uns, e digitou um por um os algarismos no terminal. Deu um enter.
Olhou fixamente a tela, frisando de leve as sobrancelhas, como se alguma letra tivesse parecido saltar do monitor. Olhou de volta pra mim. Eu que perguntava em silêncio: algum problema?
Você pode digitar sua matrícula nesse teclado, por favor? Preciso conferir uma coisinha.
Eu digitei: zero nove um zero um… dou enter? sim.
Novo frisar de sobrancelha, um olhar no monitor, outro na minha direção. No monitor de novo, e novamente no meu rosto. Monitor. Rosto.
sobrancelha
…
Até que ela finalmente concluiu: acho que está errado.
Na tela branca, o computador informava que a dona daquele número de matrícula era alguém que se chamava Andréa. A atendente concluíra que, nascido e batizado Adriano, eu não poderia me chamar Andréa, a menos que alguma coisa estivesse fora de ordem no Universo.
E realmente estava: um bug do sistema andava trocando o número de matrícula dos usuários da biblioteca. Menos mal. Problema no sistema a gente resolve formatando. Mas sexo, se trocar não destroca.
Sendo Adriano, perdi apenas a possibilidade de levar pra casa um livro emprestado. Se eu fosse Andréa, perderia o quê? Opinem nos comentários.
Marcella disse,
16 abril, 2010 às 12:19
se você fosse Andréa perderia a oportunidade de escrever esse texto! Né verdade?
hahahahahaha, como sempre muito bom!
Juliana disse,
19 abril, 2010 às 21:37
Se fosse Andréa perderia… o pênis?! – rsrs… [perdoe-me; foi mais forte que eu!] =)
KDRIA disse,
14 dezembro, 2010 às 23:37
se fosse, andréa perderia ser duro !!!