Em Busca do Tempo Perdido
A rotina de quem passa o dia se deslocando
Mais de 42 mil pessoas vivem em Benevides, cidade da Região Metropolitana de Belém (RMB), conhecida como “o Berço da Liberdade” por ter, no século 19, abolido a escravidão 14 anos antes da Lei Áurea. A vida de seus habitantes está, em geral, intimamente ligada ao cotidiano da irmã mais velha do município, Belém, a 25 km dali.
Para chegar ou sair de Belém é preciso enfrentar uma longa viagem pela BR-316, estrada que interliga os municípios da RMB. Três linhas de ônibus fazem o trajeto em até duas horas, com coletivos lotados e irregularidades nos horários de passagem da frota. Juliana Brandão, 19 anos, estudante universitária, já se acostumou. Quase nem reclama por ter ficado 35 minutos esperando o ônibus que a levaria de volta para casa. Já era o segundo que pegava naquela noite. Por sorte, não estava lotado. “Já foi pior”, ela informa, quase querendo comemorar.
Há alguns anos, a linha era feita por outra empresa, e segundo Juliana, era comum que os veículos quebrassem e demorassem a passar. A empresa faliu e foi substituída pela atual, que mantém certa regularidade e costuma cumprir seus horários. Juliana mora no final da linha do Benevides – Presidente Vargas, e precisa pegar dois ônibus para ir e voltar da Universidade Federal do Pará, onde cursa o quarto período de História. Já na parada, ela cumprimenta seus conhecidos de Benevides que, como ela, passam o dia em Belém. “O ônibus é o lugar onde eu reencontro meus amigos de infância, pessoas que eu só vejo aqui e em determinados horários”. Àquela hora, Juliana encontrou um dançarino, Ruan, e uma universitária, Lu, seus amigos que voltavam de ensaio e aula.
Numa viagem longa como essa, é preciso arranjar assunto para matar o tempo. Conversa-se sobre tudo: o outdoor que anuncia um show vira mote para uma discussão sobre o gosto musical de cada um; a amiga desfila seu inventário de brincos e bijuterias feitos de matéria natural; o amigo explica o motivo de ter inventado um novo corte de cabelo; Juliana relembra histórias da adolescência, que ela deixou há apenas alguns anos.
Numa das paradas, um dos passageiros faz sinal para fora do ônibus e, como num bar, pede para o vendedor lhe trazer uma latinha de cerveja. Seu companheiro de banco gosta da ideia e pede também uma pra si. O passageiro de trás decide que está com sede e solicita outra latinha. Ainda oferece para a moça da cadeira ao lado, que recusa, talvez porque quinta-feira não fosse um bom dia para beber. Por alguns minutos, relaxados, os três passageiros saboreiam sua “gelada”, no sacolejar do coletivo, embora calor não fizesse, nem o sol fosse aparecer em menos de 6 horas.
Entroncamento
No horário do rush, por volta das seis da tarde, transpor o trecho que separa Belém de Ananindeua é uma missão que não se desempenha em pouco tempo. O lugar é chamado de “entroncamento”, que é o termo técnico para designar o cruzamento entre duas grandes vias de mão dupla. Por ser a única porta terrestre de entrada e saída da capital paraense, é também o principal cenário dos maiores congestionamentos de ambas as cidades.
Dez horas da noite, no entanto, o Benevides – Presidente Vargas cruza seu túnel quase sem resistência. Os milhares de automóveis que trafegam por ali durante o dia dão lugar, às dez da noite, a uma calmaria digna da pacata Benevides, aonde Juliana anseia chegar logo. Ela considera que transporte público eficiente contribui para o bem estar da cidade e do planeta. “Nos momentos de maior sufoco, eu costumo pensar que estou fazendo um sacrifício por uma causa justa”. Se não houvesse ônibus e cada pessoa resolvesse fazer o caminho com seu carro particular, certamente o Benevides – Presidente Vargas não teria tanta facilidade em vencer o Entrocamento. “Mais pessoas no ônibus, são menos carros na rua”, equaciona a estudante. “O problema é que o transporte público está longe de ser excelente”.
Juliana já passou por grandes dificuldades dentro de coletivos. Uma vez, voltando da universidade, passou mal e quase desmaiou. Dentro do ônibus lotado, ela não conseguiu encontrar ar para respirar, sua visão começou a ficar turva e ela cambaleou. Alguém percebeu a tempo e providenciou um banco para ela se recuperar.
Noutras vezes, viu passageiras tendo seus corpos invadidos pela malícia de homens que se aproveitavam do empurra-empurra para tocá-las desrespeitosamente. “Mulher sofre muito com isso, os caras não respeitam”. Na maioria das vezes, fica por isso mesmo, noutras os agressores recebem punição: “Um dia, uma moça gritou acusando um homem de ter passado a mão nela. Os outros homens do ônibus partiram pra cima dele, o agrediram e enxotaram do ônibus, a chutes.”
Quase no final da linha, depois que todos os passageiros já haviam descido, Juliana chega em casa e é recebida pela mãe, Dagmar Brandão, 42 anos, que há 30 minutos a esperava no portão de casa. “A gente sempre fica preocupada com assalto, violência, principalmente a essa hora da noite”, lamenta Dagmar. Pelo menos um ônibus é assaltado por dia na Região Metroplitana de Belém, de acordo com dados de 2008 do Comando de Policiamento da Capital (CPC). Assaltos em coletivos também estão entre as principais causas de ligações feitas ao Disque-Denúncia, serviço da Secretaria de Segurança Pública do Estado, que tenta combater o crime com auxílio da sociedade.
Vida no ônibus
Juliana nunca foi vítima de violência dentro de um ônibus e considera perigosas apenas as vans que fazem transporte alternativo. Mesmo assim, pelo cansaço da viagem, pelo tempo e dinheiro que se perde no transporte diário de casa para o Belém, Juliana já pensou em morar na capital, na casa de parentes. Por motivos pessoais, a empreitada não deu certo. Ela continua morando em Benevides e estudando a 25 km dali, passando boa parte de seu tempo no trajeto entre as duas cidades: “Tinha aquele comercial do colchão que você passava um terço da sua vida sobre ele. Eu tenho a impressão que eu passo um terço da minha vida dentro de um ônibus”, brinca a aspirante a arqueóloga.
Somando a média de viagens que Juliana faz por dia, ela calcula que perde 3 horas diárias se deslocando pela RMB. Se dispusesse desse tempo livre, ela o usaria para se exercitar: “Quando eu estudava em Benevides, caminhava todo dia da minha casa até o ginásio”. Na nova rotina, os exercícios físicos não acharam lugar.
Apesar de tudo, ela vê vantagens em suas cansativas viagens diárias: “Eu reencontro meus amigos, boto o papo em dia, descubro o que eles andam fazendo. Mesmo quando não encontro ninguém, aproveito pra ler um livro, os textos pra universidade, ouvir uma música, ou mesmo dormir.” Ela também adora Benevides e seu cheiro de cidade sem fumaça. “É a primeira coisa que eu faço quando eu desço do ônibus: respiro esse ar puro”. E, realmente, o desgaste da viagem é compensado pela primeira baforada do vento que sopra da vegetação abundante, frio e limpo, diferente daquele da cidade que Juliana deixou há uma hora e meia e 25 km atrás.
Sagrado e profano na academia
Claro que esse caso do mini-vestido na Uniban é um absurdo. Mas tem um ponto que sempre me chama muita atenção. Ele está presente em vários discursos de gente que caracteriza a atitude da moça como provocativa ou imoral. E está, também, na nota que Uniban usou para justificar a expulsão da estudante (expulsão logo depois revogada). Diz a Uniban:
“Foi constatado que a atitude provocativa da aluna [...] buscou chamar atenção para si por conta de gestos e modos de expressar, o que resultou numa ação coletiva de defesa do ambiente escolar“
A Uniban também argumenta que os trajes que a moça usava “indicavam uma atitude incompatível com o ambiente da universidade“.
Essa ideia muito comum de que a universidade é um lugar sagrado e que, portanto, não pode ser profanado tem sua razão de ser. A metáfora da universidade como o Templo do Conhecimento encontra raízes na própria formação dessa instituição que, no Ocidente, nasceu comandada por clérigos. Por outro lado, por ser um lugar onde vivem as grandes mentes do nosso tempo, por produzir conhecimento, por ser a casa natural da ciência e dos altos estudos, esse templo se coloca bem acima da vida dos pobres mortais que somente o circundam, apenas eventualmente adentrando suas muralhas do saber. E constatando, sob a arrogância habitual dos acadêmicos, que esses seres iluminados realmente estão acima da vil ralé que cospe no chão.
Esse lugar privilegiado reveste o ambiente acadêmico de uma aura sacra que não pode ser profanada pelos pecados do mundo ordinário. Esse tipo de raciocínio, consciente ou não, acaba fundamentando o argumento de que Geyse, ao se vestir de maneira a sugerir uma sensualidade, age de modo “incompatível com o ambiente da universidade”, o que leva os colegas a assumirem posturas “de defesa do ambiente escolar”.
Desconsiderando o fato de que esse argumento – exposto dessa forma pela Uniban – possivelmente é apenas uma estratégia retórica que procura deslocar a culpa do algoz para sua vítima, há que se considerar que esse tipo de pensamento – o de que a pura sugestão de sensualidade macula o ambiente do saber – é bastante comum, e está ligado à percepção de que 1) a universidade é sagrada, e 2) o sexo é pecaminoso, logo, o sexo rompe a sacralidade da universidade, que precisa ser defendida pelos paladinos da justiça divina. Estes, nesse caso, agem com a eficiente estratégia de gritar com incansável frequência puta! puta! puta! a uma moça com um vestido acima do joelho.
Uma parte da explicação pra essa formulação absurda está na separação entre razão x instinto, espírito x corpo, racionalidade x passionalidade. Essa dicotomia, tão cara à nossa civilização, quase sempre estabelece uma hierarquização do primeiro pólo sobre o segundo. De maneira que é tanto mais civilizado aquele que sobrepõe sua razão sobre seus instintos, o que se preocupa mais com os problemas do espírito que com os do corpo, o que age de maneira mais racional que passional. No caso Uniban, a universidade se relaciona, obviamente, ao primeiro conjunto de valores, enquanto Geyse, representa tudo do segundo. Repare que passionais, instintivos e violentos foram, na verdade, os promotores do linchamento moral, mas revestidos da capa de paladinos em defesa da “moral civilizatória”, acabam por querer tornar racional um comportamente que, em tudo, tem características primitivas.
Imagino que todos estejam por dentro da saga da Uniban e naturalmente já devam ter adotado algum posicionamento sobre o caso. Mas acredito que essa história, além do absurdo que ela encena, nos conta muito sobre como nossa sociedade – laica, libertária, científica etc etc – articula suas noções do sexo e do saber, da mulher e da universidade, do pecado e do conhecimento.
Não esqueçam a lição fundamental da nossa tradição: quem comeu o fruto proibido foi Adão, mas a culpada pela destruição do paraíso foi Eva.
Em Brasília
Na UNB, os estudantes protestaram nus, em defesa de Geyse. Mas uma reportagem do Correio Braziliense deixa claro que, entre os universitários da capital federal consultados, a questão do tamanho do vestido é fundamental. Mesmo os que defendem Geyse costumam argumentar que o vestido não era tão curto assim.
A dúvida: se ela fosse de biquini à aula, a agressão se justificaria?
Como escrever uma manchete sensacionalista
Do Portal BOL:
“Mulheres bonitas, ou são burras ou são vagabundas”, diz Megan Fox
dito assim, parece que a bonita Megan Fox deu um tiro no próprio pé com a declaração.
Mas eis que a fonte original da notícia, a Folha Online, vem com um título mais apropriado:
“Mulheres bonitas são consideradas burras ou vagabundas”, diz Megan Fox
note que o acréscimo de uma palavra – consideradas – muda todo, mas todo mesmo, sentido da frase. É como se Megan Fox dissesse uma coisa oposta ao que o Portal Bol disse que ela disse.
Claro que a notícia repercute uma entrevista em que a atriz reclama do preconceito que diz sofrer de algumas mulheres, que a consideram ou burra ou vagabunda, só porque ela é bonita. E o óbvio ululante é que ela discorda dessa opinião das mulheres, discordância que a manchete do Portal BOL ignora.
Mas veja o mais engraçado: eu soube do fato através do BOL, apesar de ter lido a manchete na primeira página da Folha e passado direto. Ou seja, a editoria do Portal BOL, enganadora, atingiu seu objetivo, que era fazer o leitor da manchete clicar no link e visualizar a notícia completa. Coisa que a Folha, por refletir em sua manchete a verdade dos fatos, não conseguiu.
Acontece que:
A Folha fala de um cachorro que mordeu um homem.
O BOL fala de um homem que mordeu um cachorro.
Em qual manchete você clicaria?
Em busca do novo, do inusitado, da notícia que tem o potencial de mudar um pouco sobre o que a gente pensa do mundo, a gente clica, claro, na manchete que diz que uma mulher bonita declarou que mulheres bonitas são burras ou vagabundas.
E aí que, quando a gente percebe que foi enganado, a e anotíca não diz nada do que anuncia, resta comentar que:
1) Megan Fox reproduz o discurso misógino segundo o qual “as mulheres estraçalham umas às outras” e “O instinto que prevalece entre as mulheres é atacar a jugular”. Aquele papinho besta de que homens são amigões e mulheres são invejosas e só querem se destruir.
2) Megan Fox é incoerente: ao mesmo tempo que vive o infortúnio feminino de estar sempre sendo observada, julgado por sua aparência, objetificada enquanto um ser que serve apenas pra ser apreciado etc; ao mesmo tempo, se diz “satisfeita com sua capacidade de manipular a mídia, aproveitando-se da imagem de mulher sexy que tem”. Ora, ou você é linda, sexy e expõe seu corpo ao mundo como uma embalagem muito bem acabada, e agarra todos as benesses e deconfortos que isso traz, ou faz o contrário, e vive (ou tenta viver) como um ser completo.
Não se pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.
Traição se paga com quê?
Da Folha:
STJ diz que marido traído não deve receber indenização do amante da ex-mulher
O marido afirma que seu casamento durou nove anos, mas que era traído, possivelmente, desde o terceiro ano de relacionamento. No período nasceu uma menina, que ele diz ter registrado em seu nome achando ser uma filha legítima. Ao constatar a traição e a falsa paternidade, o marido diz ter sofrido dano moral, pois “anda cabisbaixo, desconsolado e triste”.
Deixa eu ver se eu entendi.
O cara é casado com uma mulher que o trai safadamente desde o terceiro ano do matrimônio e a culpa é…
do amante?

Sério que o marido achou que isso ia colar?
Daqui a pouco também tão querendo culpar os carros pelos atropelamentos, a água pelos afogamentos, as mulheres pelos estupros, os negros pelo racismo e… opa, isso já fazem né.
A infidelidade (e todas as neuras que dela decorrem) é a principal causa do fim dos relacionamentos. Obviamente, infiel é quem rompe o contrato: nesse caso, a esposa. O amante, que não assinou contrato, não trocou votos, não fez juras de exclusividade, não pode ser responsabilizado por nada. Mesmo que tenha sido ele quem seduziu e conveceu a mulher a chifrar o corno.
E mesmo assim é engraçado que: nas novelas, na literatura, nas piadas, no cinema… quando o marido encontra o ricardão dentro do armário, sua primeira atitude é: partir pra cima do amante. Idem no caso de mulheres traídas. Só muito raramente o senso comum confere a culpa da traição a quem realmente a tem.
Quanto ao corno, quis dar uma de esperto depois de cometer a maior barbeiragem de sua vida: casar.
A necessidade da prova
Então que eu fui fazer o ENADE. “Fazer” é modo de dizer. Foi a prova mais fácil de todos os tempos. Porque a gente passa vida toda se preparando pra ela. Basta assinar o nome. E entregar a prova em branco. O que. Desde que você seja alfabetizado, você tira. De letra [/trocadilho]
Eu entrei na onda do boicote. Eu até resisti, sabe. Porque, né. É chato ficar fazendo o que todo mundo manda fazer. Se um punhado de integrantes do Movimento Estudantil te diz pra fazer uma coisa. Bem. O mínimo que uma pessoa sensata pensa é. Em fazer exatamente o oposto. Porque esse pessoalzinho, vocês sabem. Vivem numa lógica de. Hay gobierno, soy contra. O que não é totalmente ruim. Longe disso. Mas você precisa ficar atento.
E nós temos um centro acadêmico de comunicação bem legal. Na ufpa. Cheio de gente que não quer catequizar mentes alheias em prol da libertação estudantil. O que é de praxe nos centros acadêmicos. Eu tenho uma opinião sobre isso. Que um movimento estudantil. Pra dar certo. Tem que mudar de nome. Porque esse nomezinho, sei não, carrega toda uma aura negativa e anacrônica. Então se um certo tipo de estudante vem dizer pra maioria boicotar o ENADE. Não é surpresa que boa parte da gente que não gosta desses estudantes. Faça o quê? O ENADE. Boicote o boicote.
E eu fico pensando. Como as pessoas querem um bom motivo pra não fazer a prova. Quando o óbvio é justamente o contrário: você precisa ter um excelente motivo pra fazê-la. A diferença é sutil. Mas existe. Porque veja bem. Nós estamos acostumados a ser avaliados por provas. Nosso sistema educacional, em todos os níveis, está contaminado por isso. Absolutamente. Pela lógica da prova. A ideia de que.

Você está aqui!
Você é uma caixinha. Você vai para escola. Onde vão te colocar uma série de conteúdos. E depois vão medir (provar) o quanto a caixinha conseguiu guardar de conteúdo. E o resultado dessa medição é. Atenção: o reflexo fiel do seu desempenho escolar. O ENADE é o Exame Nacional do Desempenho Estudantil. Ele serve pra isso. Medir o desempenho estudantil. Através de uma prova. Quando existe uma caralhada de outras formas. Mais inteligentes. De medir esse desempenho. E todo mundo só pensa em fazer prova. Como se fosse natural.
Mas eu nem me espanto. Sabe por quê? Porque somos, naturalmente, seres inerciais. Sabe? Do tipo que se acostuma fácil? Que tem aversão ao novo, ao experimental? Então a gente passa a nossa vida toda fazendo provas. De tudo que é tipo. Em qualquer situação. E quando chegamos na universidade. O lugar de onde pretendemos sair formados. Ou seja. Dentro de uma fôrma. Que já tava lá antes de chegarmos. E vamos deixar do mesmo jeito quando sairmos. Quando chegamos lá. Não conseguimos nos livrar da lógica da prova. É prova pra todo lado, pra todos os gostos, de todos os sabores.
É difícil, eu sei. Mas aí a gente fica procurando um motivo pra não fazer a prova. E não percebe que. O grande motivo pra não fazer a prova é justamente não ter motivo algum para fazê-la. Nenhuma Prova. Ué.
Simples assim.
Senão vejamos. Cada pessoa é única, correto? No sentido de que. Tem suas particularidades, vícios, virtudes, vantagens, desvantagens etc. Tudo isso. Ninguém é igual a ninguém. Isso é ponto pacífico. Mas uma prova, dessas que passam a tia Raimundinha e o MEC, faz o quê? Padroniza tudo. Nivela. É uma única prova dedicada a vários seres tão diferentes. O que só podia dar merda. É claro que não é um problema apenas da prova. É do sistema educacional como um todo. Essa história de professores. Um professor pra 50 alunos. Não tem como isso dar certo. Porque o professor trabalha sempre pensando num tipo médio de aluno. E se você foge um pouco dessa média, o professor não está preparado pra você. Se você foge muito dessa média, o sistema educacional não servirá a você. E ainda fará todo mundo acreditar que. É você que não serve a ele.
E não tô nem falando em acessibilidade e inclusão nas escolas. Em ela estar preparada para receber pessoas com as mais diversas deficiências. Que podem se transformar em eficiência, dependendo da situação. Estou falando apenas em talentos e aptidões diferentes. Desses que um professor mediano não consegue enxergar e ajudar a desenvolver. Desses que uma prova. ENADE, vestibular, simulados, testes etc. Não consegue medir. Mas existem.
Então. Não é que o ENADE não seja o melhor jeito de avaliar o desempenho estudantil. É que uma prova não é. Uma prova, tomada no sentido tradicional. De um questionário de múltipla escolha sobre assuntos genéricos e específicos e algumas questões discursivas. Isso não avalia a criatividade, o bom uso da linguagem, o empreendedorismo, o senso de oportunidade, a articulação, o senso crítico, estético e um quinquilhão de outras qualidades necessárias ao bom universitário, estudante de uma boa instituição. Uma prova, como ENADE, no máximo avalia se o sujeito sabe ler e escrever. E se ele depositou. Na caixinha. O que passaram pra ele em sala de aula. E isso está longe de ser. Um “desempenho estudantil”.
Sobre a didática
Então agora eu sou professor.
E fico lembrando de uma professora que eu tive.
Dessas que sentam na cadeira ao lado, e viram professoras só quando o vizinho não entende bulhufas de um assunto aleatório.

Era aquela chatice de conjuntos, matemática elementar. Quando o conjunto é fechado o último número está contido nele; quando, ao contrário, ele é aberto, o último número não participa.
Então eu não conseguia entender isso de jeito nenhum. Toda vez num colchete aberto/fechado era aquela confusão. Não havia lógica aristotélica que me fizesse ligar a participação do número com a abertura ou não do colchete.
E seguiria nesse infortúnio não fosse a didática fina da mestra, com carinho.
Ela pegou um lápis/caneta/corretivo/borracha, qualquer coisa em cima da mesa. Abraçou com a palma da mão ossuda (de colchetes), como se um número fosse, e disse:
- Fechado, o número participa. Suspenso no ar, aquele número-caneta realmente participava.
Abriu a mão, lançando o número-amante para longe de si, vencendo a inexorável atração que sua presença de ressaca exercia sobre tudo ao redor.
E sobre mim.
Então o número-borracha caiu. Do alto, a mão aberta da professora apreciava a tristeza melancólica da borracha. Ela concluiu:
- Aberto, não participa. Não participava mesmo, me convenci.
E foi com essa sutileza que eu aprendi a relação entre colchetes e números, essa dinâmica de conjuntos matemáticos.
Era uma manhã de fevereiro e talvez chovesse.
Bolívia, jornalismo e galinhas.
A Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, passa por um momento decisivo em sua história. Aclamado presidente pelas massas, o indígena Evo Morales vem provocando mudanças drásticas na política e na economia boliviana. A nova Constituição, aprovada no começo de 2009, prevê um Estado plurinacional que confere mais direitos às minorias étnicas pobres do que a classe média branca gostaria. As eleições, marcadas para dezembro próximo, prometem dividir o país entre opositores e correligionários de Morales, que tem apoio da população pobre e rural, maioria no país. De acordo com as pesquisas de intenção de voto, a vitória do índio é praticamente certa. Analistas temem que, perdidas as eleições na urna, a oposição articule uma medida para tirar o presidente na marra. Talvez um golpe, seguido de uma guerra civil, o que não seria incomum num país de intituições tão frágeis (vale lembrar que os dois último ex-moradores do Palácio Quemado, sede do governo boliviano, não terminaram seus mandatos).
A despeito de tudo isso, a notícia mais lida na versão online do jornal El Deber, de Santa Cruz de la Sierra (reduto da oposição) foi:
Una gallina puso un huevo gigante y murió
A reportagem conta a trágica história de uma penosa que veio a óbito após botar um ovo com o dobro do tamanho e do peso normais.
Nem vou falar sobre a lei do interesse público que, dizem, deve nortear o processo de escolha entre o que é e o que não é notícia.
O que mais me choca nessa história é que:
por último [o fazendeiro] aclaró que para el legado de Roberta [, a galinha,] no tiene mejores planes que hacerse un enorme omelette.[grifo meu]
Ou seja, depois de dar a vida para lançar à luz um pedaço da sua prole, a galínácea (já em forma de espírito angelical, as penas, cortesia da vida terrena) ainda terá o desprazer de ver o legado de sua miséria tranformado em comida para humanos.
Durma-se com uma insensibilidade dessa.
Falando no celular…
Eu entrei no ônibus e o rapaz já tava falando. Olhando rápido, ele falava sozinho, um louco moderno de capuz e boné. Olhando um pouco mais, dava-se crédito à razão: se via um celular, desses pequenos, escondido entre a orelha e o cabelo. Falava com uma moça, escondida do outro lado da linha.
(Fala-se de linhas, apesar de os celulares, por imperativo de sua natureza, terem-nas aposentado há muito tempo).
Que era moça eu ainda não sabia, soube depois. No começo, era apenas um cara falando coisas ao telefone, coisas que é estranho a gente falar ao telefone, por exemplo: Vou abrir a janela que tá calor, peraí. Tá muito engarrafada a rua, pensei que o ônibus fosse cortar caminho. É, tá meio nublado, será que vai chover? etc.

ahn?
(Parênteses para quem é de outro planeta, tempo ou não usa celular: conversas intermediadas pelo dito aparelho obedecem a uma lógica diferente: a etiqueta pede que sejam curtas, sintéticas e precisas; banalidades, portanto, devem ser evitadas. A razão é que, quanto mais se fala, mais se paga, e em geral, não se paga pouco. Ver alguém debatendo o sexo dos anjos ao celular, em plena luz do dia, no banco de um coletivo, é uma sutil quebra de expectativa a que não estamos, terráqueos, acostumados)
Resolvi sentar logo atrás do cara de maneira a tentar perceber aquela conversa desinteressante. Como um diálogo de verdade, aquele alternava momentos em que o interlocutor daqui apenas assentia, e momentos em que ele tecia comentários sobre a vida, a que a interlocutora invisível provavelmente prestava sua anuência. Às vezes debatiam, discordavam, brigavam consigo pra não discutir com o outro. Um homem sentou ao lado dele, e ele baixou o tom de voz, como se a preservar sua intimidade. O homem saiu, e ele ficou mais à vontade. Esticou o braço sobre o banco e tudo. Tudo dava sono, até que aconteceu.
O cara tirou o telefone da orelha e olhou pela janela. Pareceu sorrir, embora a única parte do corpo dele que eu via – a nuca – não pudesse sinalizar com certeza. Falou baixo coisas que eu não entendi, ajeitou a camisa, abotoou o penúltimo botão perto da gola. Ficou em silêncio com o telefone em riste. A mulher finalmente chegou, cruzou a roleta, telefone numa mão, bolsa na outra, meio emperiquitada. Sentou perto do cara, ombro a ombro, ambos disseram tchau ao aparelho.
E passaram o resto da viagem em silêncio mudo.
Alguma reflexão sobre relacionamentos (fechados ou abertos).
Ana Maria ama Alexandre mais que tudo nessa vida. Eles se conheceram há muito tempo e têm certeza que querem ficar juntos por mais tempo ainda, quem sabe pra sempre. De repente, Ana Maria conheceu um cara que tinha uma moto, mais velho, mais bonito, cheio de sacadas inteligentes, de uma arrogância encantadora, em quase tudo diferente de Alexandre. Ana Maria continuou amando muito Alexandre, mas sentiu vontade de ser beijada pelo Cara da Moto, porque era ele quem fazia o coração dela querer sair pela boca, e suas pernas suarem. Como ela mantem um namoro convencional com o Alexandre, Ana Maria se viu numa encruzilhada.

Caminho à direita.
Ana Maria pode pegar o caminho à direita, que significa subir na garupa do Cara da Moto, abraçá-lo forte pela cintura, sentir aquele ventinho de aventura no rosto, viver, enfim, uma paixão sem prazo de validade, sem culpa ou remorso. Uma coisa que ela sempre quis, e que o Alexandre não pode dar, porque o Alexandre é diferente do Cara da Moto em quase tudo. É uma escolha legítima, que vai trazer, a curto prazo, grande felicidade à Ana Maria. E o Alexandre, que ama muito a Ana Maria, não pode se transformar num obstáculo à felicidade dela. Mas pegar o caminho da direita implica em deixar o Alexandre comendo poeira na encruzilhada.
Caminho à esquerda.
Ana Maria pode sufocar seus desejos pelo Cara da Moto, em nome de seu amor maior por Alexandre. Nesse caso, ela se convence que não ama o Motoqueiro como ama o Alexandre, e não valeria a pena trocar uma aventura passional pela possibilidade de nunca mais ter o cara da sua vida. É uma escolha legítima: Ana Maria estaria trocando uma felicidade de curto prazo com o Motoqueiro, pela estabilidade do amor Alexandrino, o homem que ela apresentou pra mãe, seu príncipe sobre o cavalo branco, o pai que ela quer pros seus filhos, etc. Esse caminho implica em mandar o Cara da Moto pastar em outras freguesias e Ana Maria ficar com uma pergunta insistente na cabeça: “como seria se fosse?”.
You can’t have your cake and eat it.
Já ficou claro que Ana Maria precisa colocar as pessoas e os sentimentos numa balança. A partir dessa medição de valores, tomar uma decisão que, automaticamente, exclui a possibilidade de ter a coisa oposta. Como diz um ditado inglês: você não pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. OU você tem o bolo, OU você o come. OU Alexandre, OU o Motoqueiro.
Existe, como sempre, o caminho do meio. A pior coisa que Ana Maria pode fazer é tomar o caminho do meio. Pelo caminho do meio, ela ignora o problema que há na existência mútua de Alexandre e do Motoqueiro em sua vida, e passa a ter o que cada um tem de melhor. Em palavras pobres, Ana Maria trairia o Alexandre com o Cara da Moto, teria a aventura de um e a estabilidade do outro ao mesmo tempo. Claro que o Alexandre não poderá saber disso e Ana Maria, se for uma pessoa boa, terá muita dificuldade em conviver com a própria consciência a partir de então.
O imperativo ético: contar a verdade a quem merece sabê-la.
Tomar o caminho da direita ou o da esquerda é uma decisão baseada num imperativo ético: Ana Maria ama Alexandre e se importa muito com os sentimentos dele, qualquer decisão que ela tomar levará em conta também o que ele, Alexandre, achará disso tudo. Como vivem numa relação a dois, o que os dois esperam é que tudo que afete a vida de ambos seja compartilhado. Portanto, se quiser ser justa, ser quiser manter a fidelidade que deve a Alexandre, Ana Maria precisa contar a ele tudo que anda acontecendo. Inclusive, o que ela sente pelo Cara da Moto. Por isso que tomar o caminho do meio, que implica em esconder a verdade do Alexandre, que ela respeita tanto, é a pior coisa a fazer (apesar de ser o caminho quea maioria, na situação de Ana Maria, resolve tomar). Vai ser duro para Alexandre ouvir que existe o Cara da Moto? Sem dúvida. Mas vai ser pior ainda ele não saber logo, da boca dela, e saber depois, e viver com a sensação de que Ana Maria, algum dia, o enganou. A confiança se esvai. E confiança não se conquista fácil de novo.
Fidelidade x Exclusividade.
Quando duas pessoas têm uma relação afetivo-amorosa de compromisso (evitarei o “namoro” da terminologia corrente, que me parece um tanto limitadora), elas fazem um pacto, um acordo tácito: as partes só podem se envolver amorosamente entre si. O envolvimento sexo-emocional com terceiros é considerado, portanto, traição a esse pacto. A meu ver, porém, existe outro acordo que precede o da monogamia: o da fidelidade, que não quer dizer, necessariamente, exclusividade. Ser fiel significa, antes de qualquer coisa, ser sincero com o outro: abrir o jogo sempre que um assunto, por mais espinhoso que seja, incomode. Se Ana Maria ama Alexandre, mas sente atração pelo Motoqueiro a ponto de o querer para si, será fiel se contar ao namorado sobre essa atração.
Uma relação afetivo-amorosa não vive sem fidelidade. A fidelidade pressupõe tudo aquilo que nós esperamos das pessoas que estão mais perto da gente: compromisso, preocupação, cuidado, sensibilidade. O pacto da fidelidade é imprescindível a qualquer relação: você não quer conviver com alguém que mente ou omite sentimentos e atitudes de você. O pacto da exclusividade, no entanto, pode ser negociado. Eu digo pode, consciente de todas as ressalvas e cuidados que esse verbo sinaliza. Pode, num mundo ideal e hipotético, em que as pessoas são melhores do que são nesse mundo real, de carne, osso e grilos. Ainda não conheci uma relação feliz sem a obersvância do pacto de exclusividade, nem sei se eu conseguiria viver numa coisa louca dessa. A não-exclusividade significa, basicamente, que seu parceiro pode se envolver com outras pessoas, e você também, desde que vocês sejam fiéis a ponto de contarem para o outro que isso acontece. (E que recebam a anuência do outro quanto a isso, obviamente)
Voltando ao nosso triângulo amoroso. Ana Maria pode escolher ficar com um OU com outro, desde que conte ao namorado tudo que está acontecendo. É direito dele saber. É direito dele ser sujeito do próprio sofrimento. Deixá-lo à margem é torná-lo agente passivo dos acontecimentos. É quebrar o necessário pacto da fidelidade, sem o qual, nenhuma relação é feliz.
A alternativa.
Também é legítimo da parte do Alexandre conceder à Ana Maria uma alternativa: se aventurar com o Motoqueiro (e quebrar o pacto da exclusividade) e, MESMO ASSIM, manter a relação com o Alexandre (já que, abrindo o jogo, ela não rompe o imprescindível pacto da fidelidade). Ou seja, Ana Maria teria os dois e saberia exatamente qual é o papel de cada um em sua vida. Eu acho isso muito, mas muito difícil de acontecer, mas é ainda uma opção, que eu considero bastante válida. Ana Maria viveria a aventura com o Motoqueiro sem perder de vista que o amor da vida dela é o Alexandre. E por que não? Há que se considerar essa alternativa. Muitas bobagens que só atrapalham a vida na Terra teriam, claro, que ser rediscutidas e elaboradas, como ciúmes, excesso de orgulho, baixa auto-estima, etc. E pra quê estamos aqui se não pra aprender a ser melhor?
pseudo-literatura explícita, perdões.
No espelho a superficie dura de uma tragédia. A mulher tentou se posicionar até perceber que a luz não era adequada, ajeitou a lâmpada em forma de pêra luminosa sobre os seus cabelos e passou a penteá-los com um pente alguns anos desdentado. Não eram tantos os cabelos, menos ainda a necessidade de se embelezar. O espelho era companheiro discreto: jamais revelaria o segredo que ela escondia. Passou uma, duas vezes, da raiz às pontas duplas, triplas, ressecadas, ressentidas. As sombras da mão ossuda, e dos dedos dela, arranhavam a parede, arranhavam a cortina e a porta do armário.
Aí ela largou o pente velho e pegou uma escovinha, no criado mudo que abriu a boca, mas permaneceu em silêncio confidente. Escovinha pequena, dessas de pentear boneca, pendurada pela pinça dos dedos, carinhou com cuidado aquele bigode espesso, cor de noite, com um ou outro fiozinho branco. Que ela, cuidadosamente e resignamente, escondeu por trás dos irmãos morenos. Esfregou uma, duas, três vezes, quantas fossem necessárias para deixar tudo em ordem. Faina finda, manuseou a lâmpada para ver melhor a obra: cabelos, bigodes, todos os pêlos do rosto em cuidadosa harmonia. Era uma mulher respeitável afinal.
